Günter Grass (1927-2015)
Texto: JOÃO SANTANA DA SILVA
Nascido em 16 de outubro de 1927 na cidade polaca de Danzig (pertencente, na altura, à Alemanha, apesar de autónoma), Günter Grass cresceu numa família de pai protestante e mãe católica. Ainda adolescente, testemunhou a ascensão do nazismo, tendo sido destacado aos 16 anos para uma força auxiliar da Luftwaffe, exclusivamente composta por jovens e onde também serviram o cardeal Josef Ratzinger (mais conhecido enquanto Papa – emérito – Bento XVI), o filósofo Jürgen Habermas ou o sociólogo Niklas Luhmann. Aos 17, voluntariou-se para a Kriegsmarine, a marinha de guerra alemã, na esperança de ser integrado na tripulação de um submarino, mas o Reich decidiu de forma diferente, tendo-o enviado para uma divisão blindada das temidas SS, tripulando os não menos temidos Panzer.
Estes e outros episódios da sua vida pessoal foram revelados e dissecados no seu primeiro livro de memórias Beim Häuten der Zwiebel em 2006 (com edição portuguesa na Casa das Letras, sob o título Descascando a Cebola) e abriram a polémica entre os seus leitores, quer os que o admiravam quer os seus críticos. A principal questão residia no facto de Günter Grass ter sido laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1999, um estatuto que, diziam, não podia conviver com um passado ligado ao nazismo. Apesar das circunstâncias excecionais e da recruta obrigatória, esse seu passado passou a sobrepor-se a quaisquer considerações literárias. O caso agravou-se com a sua publicação do poema Was gesagt werden muss em vários jornais europeus, onde criticava Israel e o apoio alemão a esse governo. Os críticos não se coibiram de lembrar paralelismos com o seu passado militar.
Para muitos, Günter Grass foi o escritor que heroicamente abriu o jogo e expiou os fantasmas da Alemanha do século XX. Para outros, pelo contrário, passou a ser o rosto de um povo escondido por detrás de máscaras que tardam em cair. Para todos, no entanto, é um dos principais nomes da literatura alemã do pós-guerra, sendo mesmo um dos autores mais reconhecidos das letras europeias da segunda metade do século XX.
Para além das memórias Beim Häuten der Zwiebel (Descascando a Cebola) de 2006 e Die Box (A Caixa) 2008, a “Trilogia de Danzig” é por muitos considerada a sua obra-prima, composta por Die Blechtrommel (O Tambor de Lata) de 1959, Katz und Maus (O Gato e o Rato) de 1961, e Hundejahre (de 1963). Entre nós, muitas das suas obras estão disponíveis nos catálogos das editoras Dom Quixote e Casa das Letras.

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