Nos subúrbios dos Arcade Fire
Texto: NUNO GALOPIM
A necessidade de fazer discos a solo (não após o desmembramento dos grupos, mas durante o seu tempo de vida ativa) é absolutamente natural, sobretudo quando o esforço coletivo da banda ou leva a música por outros caminhos ou não dá ao músico o espaço de manobra, liberdade ou protagonismo que deseja. Nada contra, portanto. É conto frequente a materialização de discos a solo que, na verdade, mais parecem satélites do trabalho assinado em grupo. Se por exemplo entre os projetos Power Station e Arcadia – que dividiram os Duran Duran ao meio em 1985 – evidenciaram um extremar de pontos de vista que antes (e depois) habitavam o corpo conjunto da identidade da banda, e se o projeto Discovery levou Rostam Batmanglij a ensaiar as electrónicas com mais fulgor que nos Vampire Weekend ou se Panda Bear encontrou nas experiências de Person Pitch um destino a explorar depois nos Animal Collective, já da estreia a solo de Will Butler o que se pode dizer é que… sabe claramente ao espaço de onde o músico vem. Ou seja, sabe a Arcade Fire.
Convém começar por não confundir Will com Win, o vocalista do grupo. Will, ou William, é irmão de Win e nem é o primeiro a experimentar a fazer música fora do grupo nem é a primeira vez que edita música criada por si fora dos Arcade Fire. O seu companheiro de banda Richard Reed Parry não só lançou já mais que um disco com a sua Bell Orchestre como se estreou já como compositor num disco da Deutsche Grammophon que resgistou gravações de alguma da sua música de câmara. Will assinou, antes deste disco, a banda sonora de Her, de Spike Jonze, e chegou mesmo a colher uma nomeação para um Oscar com aquele que era, de facto, um dos mais cativantes ingredientes do filme.
Policy é o seu primeiro álbum de canções. E revela as capacidades de um compositor com fulgor pop/rock que deixam claro que há nele mais que o músico exuberante que vemos em palco, por detrás dos sintetizadores, durante as atuações dos Arcade Fire. Policy tem porém um problema. E que não é pequeno: soa incrivelmente a Arcade Fire.
Não só o seu registo vocal é tímbrica e interpretativamente próximo do que conhecemos no irmão, como os arranjos das canções que aqui apresentam parecem viver num limbo entre as memórias de The Suburbs e as revelações de Reflektor, os dois mais recentes discos do seu grupo. Há aqui belos momentos, entenda-se, seja na simples e discreta balada que se escuta em Finish What I’ve Started ou em Anna, onde sugere uma ideia minimalista para uma pop bem pontuada por electrónicas. Mas depois, em What I Want faz um autêntico piscar de olho (é mais que um piscar de olho) às memórias dos Arcade Fire mais elétricos dos primeiros tempos, entre os restantes temas não faltando momentos em que fica claro que é por aqueles terrenos que quer fazer as suas canções. É que muitas delas não ficariam aquém de algumas das que fizeram do grupo canadiano um dos maiores fenómenos indie do nosso tempo. Será que não lhe dão o devido espaço nos Arcade Fire?
Will Butler
“Policy”
Merge Records
3 / 5

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