Luís Ricardo Duarte: “Ficaríamos a ganhar se ouvíssemos os poetas com mais atenção”
Texto: JOÃO SANTANA DA SILVA
Em março de 1915, saiu o primeiro número de uma revista trimestral chamada Orpheu. Os nomes, individualmente, não eram ainda monstros sagrados da literatura e da arte portuguesa. Mas em conjunto compunham um dos grupos vanguardistas de Lisboa (cidade que ditava praticamente sozinha as correntes literárias no país). Mario de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, António Ferro, José de Almada Negreiros, Santa-Rita Pintor, Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho eram o grupo nuclear da revista. Todos seguiram destinos diferentes e trágicos – Sá-Carneiro suicidou-se em 1916, Pessoa nunca veria o grosso da sua obra ser publicado em vida, Santa-Rita Pintor perderia a vida para a tuberculose aos 28 anos, António Ferro afastar-se-ia na direção de uma tragédia bem diferente e mais política, Ronald de Carvalho equilibrou funções no governo brasileiro com a poesia até morrer num acidente de automóvel aos 41 anos de idade, Montalvor fundaria a editora Ática em 1930, praticamente apenas Almada viverá tempo suficiente para ver o seu labor artístico consagrado. Mas todos foram autores de uma grande obra que mudaria o panorama cultural nacional. Não falamos só de Orpheu. Falamos do modernismo português.
Foi esse movimento de vanguarda, ultrapassando em muito o campo da mera arte, e com o seu compromisso entre vontade de rutura e consciência de tradição, o mote para o professor e poeta António Carlos Cortez, o jornalista Luís Ricardo Duarte e o poeta e crítico literário José Mário Silva, cem anos volvidos, organizarem o ciclo de debates “O que é ser moderno, hoje? A poesia portuguesa 100 anos depois de Orpheu”. Se esta revista foi decisiva para afirmar o modernismo em Portugal em 1915, como está o país em 2015? Que revistas literárias temos a seguir os passos de Orpheu, embora trilhando caminho próprio e batalhas novas? Pode-se ser vanguardista nos dias que correm? E, afinal de contas, para que serve a poesia?
Estas são algumas das perguntas que o ciclo de debates fará aos seus convidados, começando já hoje com uma mesa-redonda em torno das revistas literárias atuais, em especial as de poesia, “sem as quais a aventura órfica não conheceria desenvolvimentos”, dizem os organizadores. «“Orpheu não morreu, Orpheu continua”: revistas de poesia hoje» é o debate desta quarta-feira, às 19h, na Casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique, que terá como convidados Gastão Cruz (poeta e responsável pela revista Relâmpago), João Pedro Azul (editor da revista Flanzine), Margarida Gil dos Reis (investigadora em literatura portuguesa e diretora da revista académica Textos e Pretextos) e Tiago Gomes (poeta e fundador da revista Bíblia).
Falámos com Luís Ricardo Duarte (n. 1977), jornalista do Jornal de Letras desde 2003 e coorganizador do ciclo, que irá moderar a sessão inaugural.
Como surgiu a ideia para este ciclo de debates? Quem foram os primeiros a chegar-se à frente?
Esta ideia surgiu como surgem todas as boas ideias: à mesa, num almoço em Penafiel, no [Festival Literário] Escritaria. Já na sobremesa, nas conversas sobre literatura e poesia, começámos a discutir os cem anos do Orpheu, o que era ser moderno em 1915 e o que seria, hoje, sê-lo. À medida que a conversa avançava, chegámos à conclusão de que era um tema interessante porque permite múltiplas respostas, e que valia a pena estender a outras pessoas.
E, no almoço, essa ideia surgiu-vos já aos três, a ti, ao António Carlos Cortez e ao José Mário Silva?
Sim. Nós os três estávamos mais à direita, no fim da mesa. Por isso, logo ali ficaram definidos os temas que nos interessavam. Tinham como modelo o Orpheu – sabendo já nós que neste ano se iam comemorar os cem anos – e, partindo daí, íamos olhar para hoje e para como, nos últimos cem anos, fomos modernos.
Ininterruptamente, como conceito? Ou em vários momentos, como correntes ou grupos literários?
Desse encontro saíram duas perguntas. Quando e como fomos modernos nestes últimos cem anos, a seguir ao Orpheu, e que picos podem ser comparados com esse momento? E como podemos ser modernos, hoje? Ou seja, um olhar para estes cem anos, já que a sombra do Orpheu chega até aos nossos dias, e uma interrogação sobre o presente que é também sobre o futuro.
Já tinham a ideia de acoplar o ciclo de debates à celebração destes cem anos?
Sim, o Orpheu perfazia um número redondo, sugerindo a ideia de centenário, de século. Ao mesmo tempo, era uma força tão clara sobre o que é ser vanguardista, o que é ser moderno, de dialogar com a tradição e introduzir ruturas, que se instituiu no século XX como algo com o qual todos os poetas tinham de dialogar – continuando ou recusando. E pareceu-nos um bom pretexto para, em 2015, se estar a falar daquilo que se passou há cem anos e do que se passa hoje, como continuação ou descontinuação.
Os anos de 1913 a 1915 estiveram cheios de grandes, e por vezes terríveis, mudanças a nível europeu. A guerra, as lutas políticas em Portugal, o afundamento do Lusitania, a ambivalência entre entusiasmo e dúvida perante os progressos técnicos. Achas que essa inquietação, essa sensação de que as coisas estão a mudar – ou que vão mudar –, é necessária à arte, na altura como agora?
Sim, completamente. É impossível compreender o Orpheu sem compreender o contexto em que ele surge. E cada vez mais têm surgido estudos que sublinham esse contexto histórico. Por exemplo, há um grande cunho futurista, que vem de Itália e do Marinetti [poeta italiano, autor do Manifesto Futurista].
Um cunho que o Pessoa recusa, porque diz que não tem nada a ver com o espírito do Orpheu.
Também recusa porque o Álvaro de Campos, o heterónimo, o esgotou. A “Ode Triunfal” e a “Ode Marítima” levam a lição do futurismo do Marinetti ao seu extremo e tornam-no completamente vazio, porque é uma mera repetição. Mesmo o ataque às instituições, aos museus e aos clássicos não são tão violentos como os que foram ditados por Marinetti, que queria queimar museus e bibliotecas. Embora haja versos do Álvaro de Campos que são glosas de versos do Marinetti. Mas esse futurismo é indissociável da Revolução Industrial, ainda no século XIX, da grande transformação das cidades, e de uma guerra que se começava a sentir em vários contextos – em Portugal, o Almada dizia que era a “grande higienizadora” – e foi uma experiência que influenciou todos os artistas europeus. Aliás, na I Guerra Mundial participaram muito mais escritores, artistas e pintores do que na II Guerra Mundial.
E voluntariamente.
Sim, muitos. Ninguém esperava que a guerra demorasse tanto tempo e matasse tanta gente. E tinha uma componente militar – aérea, de veículos, tanques e todo um aparato bélico – que era uma novidade na altura e se conjugava com essas pesquisas poéticas e literárias. É, por isso, um período de grande confusão histórica, onde todas as coisas mudam. E os poetas do Orpheu não foram indiferentes a isso. Ser moderno, hoje, seria ter uma atitude equivalente, ou seja, espelhar na poesia as grandes transformações sociais pelas quais estamos a passar? É uma boa pergunta. A situação política em 1915 não é muito pior do que a que nós vivemos em 2015.
No contexto europeu, estava muito mais próxima a guerra, na verdadeira aceção da palavra. Mas em termos económicos e de se estar a passar por um período de dúvidas, provavelmente haverá várias semelhanças.
Não há guerra generalizada como se vivia na altura, mas há outras formas de guerra, de opressão. E a nossa tolerância para determinados contextos sociais, hoje em dia, é bastante menor do que era em 1915.
Fernando Pessoa defendeu várias vezes que existia uma proximidade muito grande entre a vida e a arte, não sendo exceção as correntes modernistas. Diz ele que “aquilo a que se chama uma corrente literária deve de algum modo ser representativa do estado social da época e do país em que aparece”. Ou seja, o aparecimento do cinema, dos automóveis, navios transatlânticos, aviões, bombas e máquinas de guerra influenciou o espírito dos artistas futuristas e do modernismo de inícios do século XX. Cem anos depois, achas que estes últimos anos de crise económica e financeira em Portugal produziram, ou vão produzir, alguma estética única? Há algum tema ou estilo a unir os escritores portugueses?
Acho que nunca devemos confiar muito no que o Fernando Pessoa diz [risos], porque ele rapidamente se desmente e apresenta uma alternativa algumas páginas à frente ou através de outro heterónimo. “Sinta quem lê”, não é? Ele próprio é autor daquela “Autopsicografia” em que diz que “o poeta é um fingidor”. Como um ser plural, como uma orquestra de vários instrumentos, foi muitas coisas ao mesmo tempo. Acho que essa é a principal lição que podemos extrair do Fernando Pessoa e aplicá-la em qualquer época: uma extrema curiosidade pelo seu tempo. O Fernando Pessoa foi um grande leitor do Walt Whitman, antes do Whitman ser o autor consagrado que é. Foi um grande leitor de policiais, quando estes não eram os best-sellers que são hoje em dia. Ia da mais alta cultura – mesmo aquela pouco entendida pelos meios cultos – à literatura mais popular. Interessava-se pelo automóvel e tem um livro chamado What the Tourist Should See, em que se percebe que o narrador está dentro de um.
Até pela publicidade, que chegou a escrever.
Exatamente. Portanto, era um homem embrenhado no seu tempo, ainda que haja a ideia de uma pessoa recolhida no seu quarto e no seu escritório ali na Casa Fernando Pessoa. Mas era uma pessoa que lia e reagia, inclusivamente nos jornais da época. Nesse sentido, é uma grande fonte de inspiração. Claro que não se pode obrigar um poeta ou um escritor a ter uma intervenção muito forte no seu tempo, a defender esta ou outra causa, a estar ao lado ou não dos oprimidos – ainda que uma pessoa queira sempre que eles estejam do lado certo da história, ou que possam dar voz a quem não a tenha – nem se pode pedir que sigam uma ou outra linha estética. Mas poderem viver o seu tempo e extrair dele o melhor que este tem, parece-me algo que não se deve desprezar.
Os escritores ainda são ouvidos fora do mundo literário? Isto é, ainda pode existir a figura do romancista ou poeta intelectual? Que não se exprima só através da sua obra, mas que tenha uma voz em crónicas ou ensaios?
Vamos ter uma mesa sobre isso, com o tema “Apocalípticos e integrados: jornalismo, poesia e política”, onde tentaremos perceber se há um espaço para a poesia no discurso público, ou se o discurso político invade completamente a nossa forma de pensar a sociedade. É uma questão bastante complexa, que remete, por um lado, para as baixas tiragens da poesia e a pouca visibilidade dos poetas. Há aquela ideia, em Portugal, de que é um nicho, um círculo muito restrito de leitores. Mas, noutros países, há poetas muito conhecidos e que fazem tiragens de 10 mil exemplares. Também se prende com a atual confusão entre literatura enquanto entretenimento e literatura enquanto interrogação do homem e do mundo em que vivemos. Acho que faz falta essa intervenção dos poetas noutras áreas, sem que isso seja panfletário. Se tens escritores que se preocupam com os mistérios da existência, se procuram entender as ligações menos óbvias entre coisas diferentes, procurando na linguagem outros sentidos, todos ficaríamos a ganhar se os ouvíssemos com mais atenção.
Dizes que há uma confusão entre “literatura de entretenimento” e, poder-se-á dizer, uma literatura mais reflexiva. Essa confusão vem da parte dos leitores ou há outros cúmplices na sua criação? Isto tendo em conta que, em termos históricos, vivemos um período em que há uma maior discrepância entre alfabetismo e literacia.
Não podem competir no mesmo campeonato. Na nossa sociedade, tudo tem o seu espaço e a sua legitimidade. Mas se tens um livro que exige do leitor uma entrega – uma segunda ou terceira leitura – é muito injusto compará-lo com outro que tem como principal objetivo provocar no leitor sensações de prazer ou conforto, ou a ideia de que aproveitou bem o seu tempo livre. O que seria também o objetivo, por exemplo, de um programa de televisão, em que a eficácia tem de ser garantida e a pessoa tem de dar o seu tempo por bem empregue. Enquanto na esfera da arte, diz Umberto Eco que o livro “é uma máquina preguiçosa”, em que o leitor tem de dar à manivela. Isso exige esforço. Exige trabalho.
Achas que existe, hoje, essa tentativa de romper com a tradição por parte dos escritores portugueses?
Sim. Isso sempre houve em Portugal e em todo o lado. Mas só é possível quando se tem uma consciência muito grande da tradição. Uma das características que poderíamos identificar, com alguma segurança, numa literatura exigente é o conhecimento que ela tem do passado e a consciência que tem de que lhe pode acrescentar alguma coisa. Uma literatura que valorizaríamos com facilidade não anuncia ao mundo algo de novo, quando antigamente esse novo já foi feito ou descoberto. Não engana por ignorância nem engana por embuste. Nesse sentido, ela faz-se maioritariamente por continuidade e ruturas. O que diferencia as grandes épocas é quando essa rutura é um bocadinho mais violenta ou a continuidade é demasiado saliente.
É possível uma rutura violenta, uma corrente artística ou literária, na atualidade?
Acho que é mais difícil. Hoje em dia, há pouca consciência de “movimento”. Ainda que seja possível agrupar as pessoas por afinidades artísticas ou literárias, há pouco a ideia de “vamos todos constituir um movimento, fazer livros diferentes mas todos dentro da mesma família, e publicá-los em sequência”. No fundo, os grandes movimentos literários foram feitos dessa maneira. Ainda que isto, às vezes, seja uma construção a posteriori. O Orpheu é claramente um momento em que pessoas que partilham ideais estéticos muito parecidos, na pintura e na literatura, estão a fazer coisas ao mesmo tempo, de uma forma muito intensa. Não há essa vontade atualmente. Por outro lado, hoje, com as novas tecnologias, a ideia de arquivo e biblioteca, a ideia de te poderes movimentar no espaço e no tempo, a ideia de que és fruto de uma circunstância histórica perdeu-se. Ou seja, a ideia de que és herdeiro de uma tradição já não é tão forte. Tens pessoas que te dizem “eu só leio novos autores”. Outras que dizem “só leio escritores mortos”. Ou só escritores ingleses. Tens uma diversidade tão grande que faz com que possas ter afinidades com algumas pessoas mas todas serem muito diferentes.
Está-se muito virado para a parede, para o cantinho.
Não diria para o cantinho, mas há uma afirmação do individualismo do escritor, que se funda na miríade de referências que ele pode convocar. Hoje em dia, teres acesso a obras é muito mais fácil. Se quiseres ser um especialista em sagas islandesas, consegues ser. Se quiseres ser um especialista em literatura chinesa, podes ser. E isso tem uma influência muito grande naquilo que és e escolhes.
Estou-me a lembrar dos grupos do Eça de Queiroz, Oliveira Martins e Ramalho Ortigão, do Orpheu, da Presença e mesmo da Águia. Muitos destes grupos provavelmente não pensavam em criar uma corrente literária, em alguns dos casos, mas reuniam-se no café e partilhavam ideias. Essa dinâmica desapareceu? O escritor tornou-se mais isolado, mais fechado no seu escritório ou quarto a escrever?
Não tenho essa ideia. Penso que as pessoas se encontram e mantêm contacto regular de outra forma. Também aqui esse mundo nucleado implodiu. Os pequenos encontros à volta de um escritor já não são instituições tão fortes como eram antigamente, em parte porque o mundo mudou muito e se tornou mais polinuclear, mais diverso. As pessoas rapidamente podem manter contacto com escritores que são portugueses e vivem ao lado da sua casa, como outros que são estrangeiros. As pessoas circulam mais, por isso é natural que as suas redes sejam mais difusas e menos centradas num espaço físico e num conjunto de pessoas concreto. A sociedade mudou muito. As cidades mudaram muito. A ocupação do centro dessas cidades também. As expectativas pessoais também. Provavelmente, as obrigações e a divisão do trabalho familiar também mudaram muito. Tudo isso condiciona a movimentação que possa proporcionar encontros.
Vamos ao encontro do tema do vosso primeiro debate. Há cem anos as revistas literárias e culturais tomavam algumas posições em Portugal. Mas outras estrangeiras, como a Granta ou a Paris Review, mantêm-se mais isoladas dessa possibilidade de contágio da atualidade política e social. Que papel devem as revistas literárias ter hoje?
Este nosso ciclo de debates parte mesmo do modelo do Orpheu. E o modelo do Orpheu pode ser descrito assim: uma revista, enquanto suporte; efémero, porque só teve dois números, o terceiro não chegou a ser publicado; a afirmação de uma certa modernidade e rutura com o contexto; a ligação às artes; a política; e teremos uma sexta mesa sobre o que será a poesia em 2115, passados duzentos anos. Acho que as revistas literárias, até por essa tradição do Orpheu, e de todo o século XIX, mantêm-se. Antigamente, se querias formar um partido político ou iniciar um movimento, criavas uma revista. É uma ideia muito salutar e proporciona um debate muito fértil na sociedade. Não tanto nos jornais, onde há aquela ideia americana de haver um editorial muito marcado, com uma orientação política muito forte – acho que não faz sentido em jornais generalistas. Mas numa revista estética, isso é muito bom. A ideia de poderes ter criadores à volta de uma revista que partilha certos ideais estéticos, poderes compará-la com outra ou até promoveres debate entre elas, torna o debate público sobre questões artísticas e estéticas extremamente enriquecedor e dinâmico. O declínio das revistas literárias nos últimos tempos mostra precisamente a falta de espaço e de apoios para que esse debate continue fértil.
Achas que há debate entre as revistas ou evita-se interagir?
Não há muitos espaços de debate. Por isso é que organizámos este ciclo. Quem conhece o universo literário e poético sabe como comparar pontos de vista, mas há possibilidade de esse debate ser mais dinâmico e frequente. Havendo mais revistas, apoios e divulgação. Na área da poesia, por exemplo, continuam a surgir alguns projetos. A componente efémera é uma marca extremamente valorizada. Ou seja, se uma revista desaparecer, não é tido como uma tragédia, mas sim como uma fatalidade do destino. Até o Fernando Pessoa sofreu disso. Por isso, entre os dois termos, temos de encontrar alguns equilíbrios. Entre aquelas que se mantêm e continuam a ser baluartes de determinada visão da poesia. E aquelas que vão sendo resistentes e marginais, introduzindo ruturas à sua maneira. Talvez fosse importante estar mais atento a estas dinâmicas e ter espaço de visibilidade para a poesia, que, em comparação com o romance ou a ficção, nem sempre o tem.
O romance vende mais?
Tem mais visibilidade. Também se associa mais à ideia dos contadores de história. De princípio, meio e fim. De uma narrativa que prenda a atenção das pessoas. A atenção pública ao romance é incomparavelmente superior à da poesia.
Há a ideia de que só quando morre um poeta é que ele é lembrado. Ao contrário, talvez, do romance, que tem certos mecanismos de marketing por detrás.
O circuito de divulgação do romance é mais desenvolvido. Os romancistas também acedem mais em falar sobre as suas obras. Enquanto que os poetas, talvez, gostem mais de deixar a poesia no seu espaço de mistério. E o mistério, tirando o mistério de Deus, não seduz particularmente as pessoas, no sentido de ser algo que precisas de decifrar, de complementar, de descascar. Há sempre aquela imagem, do Günter Grass, de descascar a cebola e, no meio, não encontrar nada. É sempre a ideia da participação do leitor. A poesia não se pode reduzir a uma frase, como às vezes os romances podem, e que às vezes é tão poderosa como a própria concretização do romance. Por isso, precisa de outro tipo de divulgação e de apoio.
Esse é também o vosso objetivo com este ciclo?
Sem dúvida. Queremos alargar as nossas conversas a outras pessoas e convocá-las para as nossas inquietações.

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