Uma noite no Royal Albert Hall
Texto: NUNO GALOPIM
Nunca foram nem serão heróis de estádio ou catalisadores de multidões. Mas nos Eels devemos reconhecer uma das mais sólidas carreiras pop/rock que a música (departamento indie) nos deu a conhecer e a acompanhar nos últimos 20 anos. A sua passagem pelo Royal Albert Hall não implica uma agenda de consagração, até porque já lá tinham tocado. Mas desta vez propunham o seu concerto de fato e gravata, vincando desde logo o contraste face à digressão anterior que tinha acompanhado o álbum Wonderful Glorious (2013), onde a eletricidade tinha escalado a patamares habitualmente pouco visitados na maioria dos títulos da obra do grupo. E do concerto de fato e gravata eis que nasce mais um álbum ao vivo. Não será aquele momento como o que no belíssimo Eels With Strings: Live at Town Hall, de 2006, nos deu a escutar abordagens às canções diferentes das que conhecemos dos discos de estúdio. Mas os concertos ao vivo dos Eels não são meros desfiles de canções. Pelo que não esperaríamos de um álbum no Royal Albert Hall uma mera performance de palco com palmas pelo meio. Há um vocalista com carisma a ter em conta. Mas, acima de tudo, um corpo de canções que garante sempre um belíssimo alinhamento.
Live at Royal Albert Hall é um álbum ao vivo de grande fôlego, registando a totalidade de um alinhamento extenso, que cruza várias etapas da discografia do grupo e acrescenta, inevitavelmente, versões bem escolhidas, desta vez ora revisitando o clássico When You Wish Upon a Star (da banda sonora d’O Pinóquio da Disney) ou Can’t Help Falling in Love With You, que a voz de Elvis imortalizou.
Mas há depois o valor acrescentado. E já com o concerto em velocidade de cruzeiro, as boas noites são contadas com o sentido de humor de sempre, numa história que recorda os Beatles e os Rolling Stones com inevitável toque de nonsense e, depois, a queixa de mais um “não” obtido depois de ter voltado a pedir autorização para tocar no grande órgão que domina o fundo do palco. Mal imaginava quem ali estava que ele mesmo o tocaria nessa noite, vestindo uma capa e fazendo um riso cavo como se de um fantasma se tratasse. Ou ignorando as regras, ou tendo afinal obtido o “sim”, a verdade é que o derradeiro encore mostra-o, a tocar as melodias de Flyswater e The Sound of Fear no grande órgão. É uma presença poderosa, assombrada e verdadeiramente… gótica. Perfeita banda sonora para imagens de um Tim Burton… E pede um disco para aquela sonoridade… Mark E Everett seria, garantidamente, pessoa para o fazer…
Eels
“Live at Royal Albert Hall”
E Works / PIAS
4 / 5

Deixe um comentário