As máscaras do destino
Texto: RUI ALVES DE SOUSA
Poderia ser um filme de Hitchcock, e as referências são bem notórias dessa e outras influências, mas Christian Petzold não quer só fazer um thriller histórico limitado ao suspense. O realizador de Yella e Barbara utiliza um modelo de narrativa clássico para revelar, através de uma cinematografia singular e de grandes interpretações, a forma como a Alemanha lidou com as consequências dos atos cometidos, após o final da II Guerra Mundial. Mas há mais, nesta história que soa, mas apenas aparentemente, a algo que poderia ter características unidimensionais e previsíveis.
O vencedor do Grande Prémio do Júri do último Lisbon & Estoril Film Festival propõe uma reflexão sobre uma crise de identidade, que se encontra não só na história ficcional que relata, como também na profunda análise às consequências do Holocausto na Alemanha no pós-guerra. A dualidade entre a mulher, que deseja voltar aos braços do marido, e o homem, que apenas quer livrar-se do passado e ficar com a herança daquela com quem casou, é reveladora de dois tipos de atitudes que sempre se manifestaram, de uma maneira desesperada, em contexto de guerra.
Para escapar à morte, ao medo e ao terror, é preciso fugir, trair toda a gente, e optar pela lei da sobrevivência animalesca, a do domínio do “mais forte”. São incontáveis os filmes que retratam essa mudança psicológica de personagens, sob o terror da guerra. Mas Phoenix não é só “mais um” filme sobre a guerra.
Phoenix começa com a memória do horror da tragédia maciça provocada pelos nazis, e termina com um sabor amargo, de culpa, de arrependimento. Ao contrário do que acontecia na guerra, a escapatória já não é possível, e o desespero não conseguirá justificar ações terríveis de pessoas anónimas que, a todo o custo, tentaram salvar a sua pele, deixando outros inocentes pelo caminho (situações que, no meio do caos e destruição, não parecem passar de meras banalidades). Petzold passa várias ideias através do drama contado, através de sequências psicológicas e visuais singulares e bem estruturadas, que nos fazem entrar num estado de espírito comum da Alemanha pós-nazismo. Um pais que tenta viver depois do desespero e da irracionalidade.
As personagens apresentam-se-nos entre as suas dúvidas e planos para, cada uma à sua maneira, fugir do destino que as reserva. Criar outras identidades, outras máscaras, reais ou imaginárias, parece ser a solução a protagonista – e essa máscara física de Nelly (Nina Hoss), feita para tentar compensar a desfiguração e sarar a dor provocadas pelo Holocausto, cria confusão no seu ex-marido. Ao mesmo tempo que ele pensa que ela é só uma sósia de Nelly, a mulher com quem estava casada e que deixou morrer, julga ele, no campo de concentração, sente sempre uma dúvida, que é evidenciada pelo olhar. Mas ele não quer acreditar que possa ser verdade. E nós? De que lado estamos?
Phoenix resolve a questão e, ao mesmo tempo, deixa alguns medos e confusões em aberto. Há quem diga que seja consequência de um argumento mal composto e que cai, em demasia, em situações que pecam na verosimilhança. Mas interrogamo-nos: depois de uma tragédia tão grande como o nazismo, o que há que possa ser considerado inverosímil, em personagens que passaram por situações que a maior parte de nós, no quadro das nossas vidas, nunca conseguiremos sequer imaginar?
Através de uma tensão silenciosa que invade a cada instante a narrativa, Phoenix evolui à medida que a farsa ajuda a desmascarar a(s) mentira(s) das personagens, e aproxima-nos do desespero da guerra como poucos filmes recentes têm conseguido (voltar a) captar. Um feito grandioso para Christian Petzold, e uma fabulosa interpretação de Nina Hoss, num dos grandes filmes deste ano.
“Phoenix”
Realização: Christian Petzold
Com: Nina Hoss, Ronald Zehrfeld, Nina Kunzendorf
Distribuidora: Leopardo Filmes
4 / 5

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