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Quando o silêncio acabou

Texto: NUNO GALOPIM

Na Alemanha de finais dos anos 50 o Holocausto era ainda desconhecido por muitos e silenciado por alguns. “Labirinto de Mentiras” recorda como a verdade acabou por ser revelada. O filme chega agora a DVD.

'Labirinto de Mentiras' é o filme de abertura

Num edifício público de Frankfurt, na Alemanha dos tempos de Adenauer, um jornalista pergunta a quem aparenta estar na casa dos 20 anos de sabe o que foi Auschwitz. Numa das maiores bibliotecas da cidade há o registo de apenas dois livros sobre o tema. Um deles está requisitado. E outro está numa outra biblioteca, e leva oito a dez semanas a chegar. Entre os mais velhos a ideia de remexer no passado é foco de ansiedade, por vezes mesmo de violência. E quando um homem reconhece num professor um mesmo homem que em tempos viu como oficial das SS em Auschwitz, é ele quem dá o primeiro passo para que se quebre o silêncio. Porque havia factos que não podiam mais ficar calados. E quem os protagonizou não podia mais fazer o presente como se esse passado nunca tivesse acontecido.

É num tempo em que muito do que acontecera durante a II Guerra Mundial ainda não estava ainda nem conhecido nem assimilado nem mesmo ultrapassado que Giulio Riccarelli, faz de Labirinto de Mentiras um retrato não apenas dos passos que precederam e levantaram o processo contra antigos elementos das SS no campo de Auschwitz como de uma sociedade onde laços pessoais e de família ainda se cruzavam com memórias (e experiências pessoais) vivas da guerra e do Holocausto. Há aqui sinais da memória de uma culpa que os anos tinham diluído, mas não desaparecido. E também de um sentido de negação que implicou um esforço adicional para que a verdade acabasse por deixar de estar calada.

Num registo clássico, contudo não muito distante da arrumação clara de factos e figuras características do telefilme de reconstituição histórica, Labirinto de Mentiras – que há poucas semanas foi o filme de abertura da edição deste ano da Judaica – Mostra de Cinema e Cultura – recorda como um jovem procurador, sob o apoio de um superior hierárquico que contraria a tendência dos demais colegas, desenterra memórias, testemunhas e documentos e tenta construir um caso. A revelação progressiva de factos até aí silenciados e ignorados, revela os contornos maiores de um labirinto que só a tenacidade de um espírito decidido pode vencer. O filme tenta ir além da trama central, revelando pontuais histórias passadas de algumas personagens e definindo uma trama amorosa que corre em paralelo. São contudo mergulhos superficiais que, se por um lado não nos afastam do rumo da história, por outro na verdade pouco mais fazem senão acrescentar umas breves linhas às personagens que vivem em torno do protagonista.

“Labirinto de Mentiras”
Realização: Giulio Riccarelli
Com: Alexander Fehling, Andre Szymanski e Friedericke Becht

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