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Artepélago

Texto: TIAGO RIBEIRO

A 29 de março abriu as portas do único Centro de Artes Contemporâneas dos Açores – O Arquipélago. Um arquipélago transversal – cruza as artes visuais, artes performativas, cinema, multimédia, moda, música, literatura, design, ilustração e arquitetura.

Foto: José Campos

É um projeto “apaixonado” este Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas. E vai sendo construído num espaço e num tempo alinhado num fluxo permanente onde tudo assenta na transversalidade de dois eixos constantes: a razão e a emoção. Em suma, a vida. As palavras são da diretora do Centro, Fátima Marques Pereira. Parte da paixão de um projeto, recorre ao tempo – o do agora – e ao espaço – o da ilha de São Miguel – e não se esquece de que a vida é feita de tantas dualidades, entre elas a razão e a emoção.

Este pressuposto demonstra a ambição de partir dos Açores para o mundo, num tempo atual e contemporâneo, mas com raízes no século XIX, quando o edifício era ainda uma fábrica de álcool e tabaco na cidade da Ribeira Grande. O projeto arquitetónico de João Mendes Ribeiro e Menos é Mais –Arquitetos (Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos) parte dessa consciência do que antes havia e conjuga o diálogo entre o existente e uma nova construção. Será esta a linguagem que faz com que o projeto assine presença na shortlist dos 40 nomeados para o prémio Mies Van der Rohe 2015, fazendo do próprio edifício um objeto artístico?

Quinze dias depois da inauguração, o edifício está novamente habitado. Re-Habitado. Este é o conceito correspondente ao mês de abril, que abre uma programação apresentada até dezembro deste ano e que partiu do próprio edifício. Neste mês, pretende-se envolver a equipa, a comunidade e os públicos através de uma visita guiada pelo espaço.

A nossa visita guiada
Começamos pela Loja / Livraria e com uma exposição fotográfica sobre o antes, durante e pós-construção do edifício. Do palco de uma Blackbox multimodal, onde até o subpalco pode ser considerado um objeto artístico, a próxima paragem leva-nos até às três salas expositivas, cada uma delas com uma instalação do artista/ realizador Pedro Sena Nunes. São três filmes – Runningman, 2girls, Radiobaby – que exploram a presença dos corpos e dos elementos arquitetónicos no espaço.

As células artísticas e as caves são outros dois espaços com intenções expositivas, mas sem o tradicional formato de um white cube. A imaginação e a exploração são o ponto de partida para a própria produção artística. Esta acaba por ser também a essência das Oficinas Artísticas, enquanto lugar de incentivo à criação e produção de arte contemporânea, principalmente, através das Residências Artísticas, que ambicionam promover a relação entre os artistas e o público. Subimos a imponente escada de madeira e é-nos apresentada a área destinada aos Serviços Educativos e ao Centro Documental/ Biblioteca. Prevê-se envolver a comunidade, promovendo a formação, a investigação e uma maior ligação com as disciplinas artísticas da arte contemporânea.

Acabada a visita, aproveitamos para conhecer os bastidores de quem trabalha diariamente no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas: uma equipa de 20 elementos. Fátima Marques Pereira recebe-nos com os Linda Maritini na escolha da banda sonora de fundo do seu espaço de trabalho. Aqui há uma Casa Ocupada (título do disco da banda portuguesa), mas há mais do isso: planificação, estruturação de ideias para que o risco e o atrevimento constem em força e perseverança no ADN deste espaço.

Fátima Marques Pereira está já focada em maio e na exposição da Coleção de Arte Contemporânea do Arquipélago, com curadoria de João Silvério e associada ao Espírito Santo, enquanto elemento aglutinador das nove ilhas. Este é o mês do Re-Encontro entre o lugar e a identidade, com espaço para um ciclo de performance com a curadoria de Mariana Brandão e de uma residência artística onde serão convidados artistas da própria coleção.

Até ao final do ano, este Arquipélago vai ainda receber a peça I don’t belong here de Dinarte Branco e Nuno Costa Santos, associa-se ao festival Walk&Talk com uma residência artística de dança contemporânea, apresenta a peça Arquivar da Vo’arte de Ana Rita Barata e Pedro Sena Nunes e promove dois Encontros Internacionais – um de Arte Contemporânea e outro de Arquitetura. Depois da exposição da Coleção de Arte do Arquipélago, a segunda exposição será em Setembro com a Coleção de António Cachola e curadoria de Sérgio Mah.

Cheira a novo e a história por todo o lado, tudo está a começar. São só os primeiros momentos de um espaço de olhos postos no mar, na descoberta desse mundo à escala universal a partir de uma ilha e de um arquipélago todo, instalando-se aqui dos mais ambiciosos projetos culturais do país dos últimos anos.

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