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Discos e uns dedos de conversa ao lado do Príncipe Real

Texto: NUNO GALOPIM

Uma pequena loja de discos tem a porta aberta num rés-do-chão da Rua Cecílio de Sousa. A Twice é mais uma contribuição para um mapa de um culto que ganha solidez na cidade de Lisboa.

Entramos por uma porta parecida com a de tantas outras, no número 76 da rua Cecílio de Sousa, com o Príncipe Real ali mesmo a dois passos (é só mesmo contornar o quarteirão subindo uma rampa e já lá estamos). É uma porta pequena, sem montra ao lado, que poderia ser a da casa de um amigo que ali habitasse um rés-do-chão. Mas está aberta todas as tardes, e recebe-nos logo com uma mão-cheia de álbuns dos Beatles à nossa esquerda, mais adiante seleções que cruzam vários tempos e muitos géneros. É uma boa seleção, eclética e bem escolhida. Das raras edições de Natália de Andrade a Frank Sinatra, de várias gerações pop/rock à clássica, podemos passar os dedos por uma série de edições de álbuns em vinil, mais à frente (numa segunda sala) singles e também livros e revistas. Respira-se música e uma forma tranquila, mas apaixonada de a viver. A loja chama-se Twice e, entre a agitação de cafés, bares, restaurantes e um comércio atento ao design e novas tendências (sem esquecer os mercados que o jardim regularmente recebe) que faz do Príncipe Real um polo de grande atividade na Lisboa atual, é um lugar diferente, onde há sempre música e uns dedos de conversa.

Gonçalo Troçolo, dono da loja que nos recebe, conta que neste local encontrou “um ambiente meio caseiro e intimista que não tem deixado ninguém indiferente”, não deixando de notar que há um “outro lado da moeda” no facto de, por “ser tão discreto, nem sequer montra tem”, pelo que passam muitas vezes despercebidos. E a rua, “embora seja no coração do Príncipe Real, está muito longe da movida da Rua Escola Politécnica”, pelo que é “preciso chegar ao cliente com imaginação”, conta-nos.

Para o dono da Twice é preciso gostar de música para avançar para uma aventura destas. “Trocar experiências, histórias, e não nos importarmos que “aquele disco se vá embora da loja..”, são elementos a ter em conta. Já o colecionismo não lhe parece que seja uma condição. Gonçalo diz que procura ter na loja “discos raros e relevantes, não numa área específica mas que sejam pouco comuns” o que, acrescenta, “é uma tarefa dificílima, sobretudo para uma loja tão recente como a Twice”. Aponta, no entanto, que “a música electrónica, a música experimental, alguns cantores e autores de culto que tanto podem vir da pop do folk entre outros géneros”, fazem também parte dos seus objectivos. Os discos que ali vemos chegam “através de coleções particulares, do passa – palavra, da pesquisa online”.

Apesar de claramente secundarizados, há também CD numa loja na qual o vinil é o protagonista. “O CD já esteve mais presente”, lembra o dono, explicando que escolheram concentrar atenções no vinil “por forma a encontrar as melhores opções e não dispersar os investimentos” que vão fazendo. No entanto, “com as edições limitadas e muito criativas que vão aparecendo em CD”, confessa que está “cada vez mais abertos a apoiar também este formato e as novas edições”. Além dos discos há também livros e revistas na loja. Gonçalo observa que “sempre foi objectivo deste espaço disponibilizar livros e revistas sobre música tendo em conta que a oferta no mercado em geral é bastante limitada”. E acrescenta que “não é a internet que veio substituir uma boa leitura em papel”.

Espaço de compra e venda de discos, a Twice é também um ponto de encontro. E não se sai de lá sem uns dedos de conversa, mesmo que debaixo do braço não venha uma rodela de vinil. E entre os que ali passam há vários músicos “que se tornaram amigos”, e que “aparecem para uma meia hora de conversa, ou mesmo somente para fazer uma festa ao Bob” o cão westie, que é “uma espécie de mascote da loja”. A zona, diz Gonçalo, tambem é “propensa a artistas e pessoas ligadas à cultura em geral”. O público mais representativo que visita a loja situa-se, como descreve o dono, “entre os 30 e 45 anos e profissionalmente tem ocupações diversas”. O que os une “é de facto o gosto pelos discos e pela música”. Um outro público, “emergente”, é mais jovem, na casa dos 20 anos. “Começam com um gira-discos que era o do pai, por exemplo, e é o fascínio do objecto versus o formato digital, bem com a descoberta de outro som que os caracteriza”, que os conquista. Gonçalo acredita “que muitos vieram para ficar”. Por fim, não deixa de fazer uma referência para os coleccionadores “que aparecem de vez em quando mas como já têm muita coisa é sempre difícil de satisfazer os seus desejos”. Os muitos turistas estrangeiros “que cada vez se passeiam mais por estes bairros e também visitam” a Twice.

A Twice é uma entre as pequenas lojas que, cada vez em maior número na cidade de Lisboa, sublinham o momento de ressurgimento do vinil como um espaço de culto no consumo musical atual. Será que é uma moda ou tem solidez para ser uma tendência para ficar? Gonçalo acredita que “tudo aponta para um ressurgimento e crescimento sólidos”. De modo algum falaria num “regresso ao passado, mas de um aumento expressivo deste formato no mercado discográfico”. Para si um facto importante “é a introdução do disco como alternativa ou complemento nas edições musicais atuais e por isso, sim, é tendência para ficar, e a conviver com os outros formatos”. E conclui: “MP3, CD, cassete, vinil.. o cliente que faça a sua escolha”, mas com “a música em primeiro lugar”.

A loja Twice fica no nº 76 da Rua Cecílio de Sousa, transversal à Rua da Escola Politécnica junto ao Jardim do Príncipe Real. Está aberta de segunda a quinta das 16.30 às 20.30, às sextas e sábados das 16.30 às 21.00 e aos domingos encerra.

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