Ryan Adams e esta Nova Iorque que nos encanta
Texto: PEDRO PRIMO FIGUEIREDO
Live at Carnegie Hall junta em seis rodelas de vinil os concertos de 15 e 17 de novembro do ano passado. A má notícia para os interessados é que a edição é limitada e quem não fez a pré-compra na página Internet da Pax-Am Records, a editora do músico, já só tem o eBay como alternativa – e a preços menos generosos. A boa nova é que os concertos estão também disponíveis no formato digital.
Na verdade, estas edições limitadas são tudo menos uma novidade na carreira de Adams. Em 2012, por exemplo, o norte-americano havia lançado Live After Deaf, caixa com 15 discos de vinil com gravações de concertos em cidades como Estocolmo, Dublin, Oslo, Manchester e Lisboa. Na altura, Ryan Adams tocava a solo, apresentando o disco de então, Ashes and Fire, e regressava a palcos após mais de dois anos de pausa. Em 2009 Adams havia deixado de tocar com os The Cardinals, que o acompanhavam, e a doença de Mérière de que padece havia também exigido um abrandar de ritmo.
Live at Carnegie Hall é novamente Ryan Adams a solo – voz, guitarra e piano – mas, como sempre, de peito feito e coração cheio. São já 14 discos a solo e dezenas (centenas?) de faixas de um repertório que parte do amor e desamor para navegar por águas como a família, as relações, os relacionamentos e a fragilidade humana. Ao vivo, Adams é uma personagem frágil, tão bizarra quanto circense, delicada e doce e quase sempre com um humor ímpar. São recorrentes as vezes que se dirige ao público no seu jeito meio tonto, meio especial. “Podia ter trazido duas guitarras, mas depois não haveria espaço suficiente para os meus problemas”, lembramo-nos nós de já o ter ouvido dizer, por exemplo.
Ryan Adams é, nos dias que correm, um homem sereno, mais confiante em viver na sua pele, e com canções superlativas para atestar a boa fase. As duas noites do Carnegie Hall complementam-se entre si, visto o repertório, de 21 faixas por espetáculo, repetir pouco mais de meia dúzia de temas entre os dois concertos. Oh My Sweet Carolina, New York New York, Come Pick Me Up e My Winding Wheel são clássicos de sempre, mas há aqui muito espaço para o encantamento geral. Temas pouco rodados ou particularmente sensíveis para o músico – Amy ou Friends – e canções mais recentes, do último disco, garantem alinhamentos para os fãs de sempre ou para melómanos apenas mais recentemente ligados ao artista.
Ryan Adams escreve grandes canções e é um daqueles tipos que já não existem. Nunca será um fenómeno global de popularidade mas quem gosta, gosta a sério. Falamos de canções orgânicas, deste tempo, mas que poderiam pertencer ao passado, há 40 anos, e, acreditamos, serão momentos musicais plenamente válidos daqui a outros 40 anos. A solo, com os Cardinals, com os saudosos Whiskeytown, ou inclusive nos seus projetos laterais mais a fugir para o heavy-metal, Ryan Adams é um músico prolífico, que faz boas canções, e um tipo com quem deve ser porreiro beber uns copos e conversar sobre a vida e o amor. E isso é das melhores coisas que se pode dizer de um músico.

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