Cobain: um retrato sem opinião
Texto: NUNO GALOPIM
Kurt Cobain foi das figuras mais cativantes e marcantes da sua geração e dele fiquei sempre com a sensação de que acabámos por não conhecer nunca a plenitude de uma visão musical de horizontes maiores em que começava a mergulhar quando nos deixou. Michael Stipe (ex-R.E.M.), que acompanhou Courtney Love na tarde em que Cobain: Montage of Heck teve a sua estreia europeia, no mês de fevereiro, no festival de Berlim, afirmou em tempos à Newsweek que a voz e alma dos Nirvana preparava para o novo quarto álbum de estúdio do grupo uma ideia diferente, feita de canções mais calmas e acústicas, usando instrumentos de cordas, no qual ele mesmo iria trabalhar. Podemos imaginar como ponto de partida o descarnar da tensão elétrica que se escutava nas versões memoráveis apresentadas no magistral Unplugged da MTV e tentar ir depois mais além. Só mesmo imaginando, é verdade…
Não é naturalmente por esses caminhos que segue o documentário de Brett Morgen que esta semana chega aos nossos ecrãs depois de ter sido mostrado publicamente pela primeira vez em janeiro, no Festival de Sundance. É um filme com o selo de aprovação oficial. Ou seja, envolve diretamente a família do músico, contando com a filha Frances Bean entre a equipa de produção executiva, de Courtney Love tendo partido a ideia de criar um filme sobre o músico que se fez ícone maior da cultura pop dos anos 90. Abriram-se as portas de casa e, sobretudo, dos arquivos pessoais, com imagens e sons nunca antes mostrados. Escutam-se vozes próximas (faltando a de Dave Grohl). Mas mesmo tendo o realizador jurado a pés juntos que não tinha mostrado nada do que fizera antes de concluído o filme, Cobain: Montage of Heck não deixa de ter aquele sabor de coisa autorizada e oficial. E essa é a primeira das pedras que carrega no seu sapato.
Há momentos verdadeiramente surpreendentes e motivos mais que suficientes para que um admirador de Kurt Cobain ou até mesmo um mero interessado na história da cultura popular aqui encontre sons e imagens que justifiquem um visionamento. Dos velhos filmes de família em Super 8 no qual vemos um muito pequeno e loiro Kurt a receber de presente uma guitarra de brincar e a fazer um primeiro “id” para a câmara, dizendo o seu nome aos vídeos caseiros com Courtney e uma ainda bebé Frances Bean, o filme leva-nos a uma intimidade imaginada mas antes não assim mostrada. De novo há também cerca de 40 minutos de registos áudio inéditos, entre os quais elementos das muitas mixtapes que o músico gravava – de uma delas saiu o título do filme -, mostrando a sua voz e experiências instrumentais que assim completam uma banda sonora onde o escutamos ainda em versões de And I Love Her dos Beatles ou de Amazing Grace.
E depois há as palavras e as histórias que contam. Da noção de vergonha do próprio Kurt por ter crescido numa família desfeita à reação de assombro da mãe quando escuta Nevermind pela primeira vez e sente que o filho não estava preparado para o que dali poderia nascer em breve… Entre recordações e imagens de arquivo acompanhamos primeiros ensaios, o emergir de Bleach, de Nevermind e do impacte global que este segundo álbum gerou. Sentimos como o cerco mediático o oprimia, comentando que se sentia a viver observado 24 horas por dia. Não se omite a relação com o consumo de drogas, que talvez tenham parecido a dada altura ser a fuga possível.
Como uma mixtape, o filme tenta juntar pedaços de sons, imagens e histórias para construir uma narrativa. Mas perde-se entre o volume de ingredientes que convoca. E se é de boa dieta na forma como não usa excessivamente o recurso a talking heads (ou seja, entrevistas de rostos a olhar para a câmara), já no flirt desmedido pela animação tem um dos seus pontos fracos. A tentativa de dar “vida” às imagens dos seus journals é como refrão demasiado insistente, mas pior ainda é o recurso a sequências de animação recriando situações nos dias de juventude, na verdade não sendo mais senão uma forma alternativa de recorrer a modelos semelhantes aos do docudrama que deixa a coisa naquele nem carne nem peixe entre o registo documental e o biopic sem mostrar ter mãos para resolver uma eventual diluição de ideias como tanto outro cinema recente tem mostrado saber fazer. Igualmente falhada é a inclusão de elementos do filme de 1979 Over The Edge, de Jonathan Kaplan, para ilustrar sentimentos de rebeldia partilhados. Contextualizar e explicar imagens que parecem caídas do céu não teria sido má ideia. Mas melhor ideia ainda era não as ter usado de todo, porque colocam um texto num outro contexto e desviam o rumo do retrato para um patamar de liberdade interpretativa que pode gerar equívocos.
Mais de 20 anos depois da sua morte, Cobain é-nos aqui “revelado” apenas por algumas revelações narrativas desconhecidas, bem como sons e imagens até aqui nunca mostrados. Brett Morgen teve de facto bons ingredientes na mão. Mas no fim não os usou da forma mais interessante. Limita-se a juntar peças e arrumá-las no tempo e espaço. Interpretar, nicles. E é na falta deste ponto de vista crítico e autoral que fica evidente o peso “oficial” que o filme, mesmo o não dizendo, acaba por carregar.
Por alturas da estreia europeia do filme li o livro de 2014 Here We Are Now, de Charles R. Cross, um antigo jornalista de um jornal local de Seattle (o The Rocket), que acompanhou de perto a história de Cobain e dos Nirvana e é de resto o autor da sua mais recomendável biografia, Heavier Than Heaven, de 2001. E que diferente é este relato do que nos mostra Brett Morgen. Se o valor arquivístico dos materais inéditos que o filme usa justifica – naturalmente – que o vejamos e o apelo emocional da presença dos sons e imagens de Cobain cativa (sem surpresas) os seus admiradores, a verdade é que me senti mais próximo do músico e mais bem servido com um conjunto de novos pontos de vista ao ler este livro no qual, ao contrário da quase invisibilidade da personalidade do realizador do filme, a presença de Charles R. Cross é bem evidente, evocando aquele que admira e conheceu até mesmo com enorme ternura.
São pouco mais de 170 páginas onde, mais que contar uma história – já o fizera na biografia – ou avançar com grandes revelações – aí o filme marca os únicos golos – o biógrafo de Cobain reflete sobre o seu legado duas décadas depois, notando como a sua presença se foi fazendo sentir em vários momentos e lugares, do modo como a cidade de Aberdeen (onde viveu) aprendeu a lidar com alguém que encarnou alguns dos problemas reais da sua comunidade à utilização do seu nome na indústria da moda (facto bizarro numa figura de conhecido guarda roupa algo minimalista). O livro fala ainda do valor de Cobain como figura socialmente inspiradora em questões identitárias ou de como o seu suicídio é hoje dos mais estudados e que, ao contrário do que possa ter sido sugerido, não foi motor de muitos fenómenos de copycat. Pelo contrário, lançou alertas.
Num confronto direto com um filme onde a família teve tanto peso, o livro de Charles R. Cross aponta, com mais vontade de debater ideias e informar o leitor, um historial depressivo dentro da própria família, sugerindo o autor que Kurt Cobain “já não tivesse hipóteses” antes mesmo de ter pegado pela primeira vez numa guitarra.
O filme Cobain: Montage of Heck estreia amanhã em salas das redes UCI e NÓS, com uma sessão diária até domingo. No Cinema Monumental (Lisboa) terá duas sessões diárias até dia 29. O livro “Here We Are Now”, de Charles R. Cross, está publicado pela It Books.

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