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Quatro olhares sobre Lisboa

Texto: NUNO GALOPIM

A edição deste ano do IndieLisboa tem entre os seus momentos altos a estreia mundial de “Aqui, Em Lisboa”, filme de Denis Coté, Dominga Sotomayor, Gabriel Abrantes e Marie Loisier encomendado pelo próprio festival.

Deborah Krystall durante a rodagem do segmento de Marie Loisier

Chama-se Aqui, em Lisboa, tem estreia mundial na noite de sexta-feira, dia 24, e representa um dos pontos altos da edição do IndieLisboa, que decorre até dia 3 de maio, sobretudo entre a Culturgest, Cinema São Jorge, Cinema Ideal 3 e Cinemateca Portuguesa. É um filme a oito mãos, feito de quatro segmentos, cada um assinado por quatro realizadores com um relacionamento já antes criado com o festiva. Denis Coté, Dominga Sotomayor, Gabriel Abrantes e Marie Loisier juntam olhares pessoais sobre a cidade, materializando agora o convite lançado há dois anos, por ocasião da décima edição do IndieLisboa.

Miguel Valverde, um dos diretores do festival, lembra quando começaram a preparar essa décima edição do IndieLisboa, pensaram numa ideia de algo que olhasse para o futuro e não para o passado. “Entre muitas outras ideias mais simples que concretizámos, quisemos fazer um filme que se passasse em Lisboa”, recorda. Um festival de cinema, como ele mesmo explica, “trabalha com esta matéria essencial que são os filmes”. É por eles que a equipa se “esforça todo o ano” e por isso pareceu-lhe “natural querer experimentar os desafios (e as dificuldades) que cada realizador tem para fazer o seu filme e no final, ele ser visto por nós espectadores”.

Entre este esboço de uma primeira ideia e a sua concretização passaram dois anos, parte do tempo dedicada à procura de um “financiamento mínimo necessário para começar a pré-produção do projecto”. A seguir, e à medida que as visões de cada um dos convidados “avançavam para a forma escrita”, convidaram “cada realizador a deslocar-se de novo a Portugal para ter um pouco da vivência real da cidade”. Uma vez “que o tema de fundo seria a cidade de Lisboa e a forma como cada realizador olhava para ela”, tentaram “alertá-los para fugirem do cliché habitual de filmar uma cidade tão característica e tão turística, onde aquilo que para nós é uma vivência, é exótico para outros. E não queríamos retratar a nossa cidade como “exótica”. Queríamos olhar para cidade, ler os seus desafios, procurar os seus recantos escondidos, mostrar o melhor que ela tem, seja sob a forma de uma comédia ou de um drama, seja do ponto de vista ficcional ou documental, seja misturando tudo”. Assim sendo, “é dessa diversidade que nasce este filme, porque é dessa confluência que nasce o festival IndieLisboa”. E inspirados pelos filmes dos realizadores escolhidos, procuraram “que eles fossem fiéis ao seu cinema, numa cidade que não é a sua”.

Há razões para explicar o porquê destes quatro nomes escolhidos. À partida houve desde cedo uma vontade em “trabalhar com cineastas que tivessem tido uma presença notada no IndieLisboa (seja porque apresentaram ao longo dos anos aqui os seus filmes, seja porque venceram prémios relevantes no festival)”, e por outro lado, pensaram em “realizadores cujas cinematografias refletissem uma presença forte da paisagem urbana” e, finalmente, “que tivessem estado em Lisboa a acompanhar o seu filme no festival e se tivessem apaixonado pela nossa cidade”.

Entre “muitas escolhas possíveis” Miguel Valverde recorda que sentiram “que o canadiano Denis Côté, o mais premiado de todos os cineastas escolhidos, com o seu olhar particular, traduziria uma visão de Lisboa muito própria e que se deixaria encantar pelo modelo da cidade, pelos seus habitantes e pelo som da cidade, o que veio realmente a acontecer”.
Outras das escolhas “foi a francesa contaminada de americana Marie Losier cujo Ballad of Genesis and Lady Jaye ganhou o IndieLisboa em 2011, após uma aclamada presença no Festival de Berlim”. Miguel revela que, “conhecida pela sua exuberância criativa e imagética, Marie procura pessoas especiais para filmar e encontrou em Deborah Krystall exactamente o que desejava, mostrando essa outra Lisboa tão próxima de João Pedro Rodrigues”.

Numa linha “mais sóbria, mas igualmente segura”, Miguel Valverde conta que a jovem chilena Dominga Sotomayor (que foi a vencedora do IndieLisboa em 2012), “olha para os grandes espaços e dá-lhes uma luz tão especial, que Lisboa pareceria propícia para ela – e foi”.

A fechar este lote, Gabriel Abrantes, “que apresentou em 2008 no IndieLisboa o seu primeiro filme – o díptico Olympia, já tinha filmado em tantos sítios, mas faltava-lhe um filme em Lisboa, um filme sobre a cidade que o adoptou, onde mora a espaços e onde criou as suas obras mais originais e criativas”.

As quatro rodagens foram muito diferentes, conta Miguel Valverde, levando-nos aos bastidores da produção. “Os projetos eram muito diferentes e precisaram e tiveram contingências diferentes de produção”, explica. O primeiro dos quatro segmentos a ser rodado, realizado por Denis Côté, teve rodagem em maio de 2014 logo a seguir à edição do ano passado do festival. “A equipa era muito pequena e todos se desmaterializaram em múltiplos papéis, produzindo-se um objecto singular e único, que resulta precisamente da coesão e entreajuda da equipa”, descreve. Por “condicionalismos variados”, a rodagem dos segmentos da Marie Losier e do Gabriel Abrantes aconteceu em simultâneo, durante o mês de agosto do ano passado, “tendo sido necessário criar duas equipas de produção totalmente autónomas, que trabalhavam em paralelo e que se entreajudavam quando os recursos escasseavam”. Uma vez que “estes projetos tiveram um tempo de preparação maior que os outros dois, foi possível encontrar todos os locais escolhidos com muita antecedência e preparar o guarda roupa e acessórios com a atenção devida para concretizá-los ao mesmo tempo”. Por fim, no já início de novembro, iniciaram a última rodagem, correspondendo ao segmento de Dominga Sotomayor, “que trabalhou muito a partir do Chile e que na semana anterior à rodagem finalizou os últimos detalhes, concentrando-se muito no colocar dos atores nos locais e perceber como se iriam construir os quadros desenhados”.

Depois, cada um destes segmentos viveu “contingentes técnicos especiais, nomeadamente, o facto de dois deles terem sido rodados em película, e os outros dois com câmaras digitais muito potentes, obrigando a uma troca constante de magazins ou cartões, tendo em conta o fluxo de trabalho de cada dia de rodagem”. Segundo Miguel Valverde, o “resultado final dificilmente vai espelhar todas estas diferenças, porque no lado criativo, os projetos pegam no tema da cidade de Lisboa e disseminam-no da melhor forma possível, ou seja, da forma mais criativa”. Ao acompanhar os trabalhos sentiu que se “criou em cada segmento um espírito de equipa tão forte e tão pessoal, que todos os obstáculos foram superados, pelo foco precisamente no objecto em questão”. No fundo, “todos queriam ajudar a fazer vingar a visão de cada realizador e dar o seu melhor para que o objectivo se concretizasse – que o filme não parecesse uma encomenda, mas um filme em si mesmo”.

Como acima já se disse, o financiamento para um projeto desta envergadura foi um processo algo moroso e exigiu dedicação. “Com uma tão forte contingência económica de um país (com troika) e em que parece que atribuir dinheiro ao cinema é quase um crime”, o financiamento para Aqui, em Lisboa fez-se “com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, da própria Associação IndieLisboa e com o contributo gracioso de numerosas empresas, instituições e pessoas”. Miguel Valverde faz contudo uma ressalva, lembrando “que esta não é a forma de se fazer cinema e que a IndieLisboa não é uma produtora, pelo que só pela especialidade do projeto e também a sua excecionalidade é que permitiu” que tivessem avançado. Mas, como continua, “foi e continua a ser muito difícil fazer projetos nestas condições”. Acredita que no dia em for finalmente apresentado em estreia no IndieLisboa, “vão cair muitas lágrimas por todo o esforço despendido”. Mas reconhece “que depois desta experiência, nada poderá ser mais difícil ou impossível de concretizar”. Às vezes, acrescenta “são precisos empreendimentos destes para testar a nossa força e resistência”.

Depois desta primeira vida no IndieLisboa, Miguel diz que gostaria de o apresentar o filme “num festival de classe “A”, sendo que para além do projeto poder ser apresentado enquanto longa metragem, também se poderá autonomizar enquanto segmento de cada realizador”. Para além da vida que possa ter pela frente entre os festivais de cinema, Aqui, Em Lisboa será mostrado no Palácio Foz, “um dos parceiros do projeto, em junho, e finalmente, deverá ter estreia comercial em Portugal em finais de setembro, início de outubro”. Há “ainda a intenção de estreá-lo nos diferentes países dos seus cineastas”.

Aqui, em Lisboa passa hoje, pelas 21.30, na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge

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