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Uma silenciosa companhia

Texto: JOÃO LOPES

Ao descobrirmos o filme póstumo de Manoel de Oliveira, “Visita ou Memórias e Confissões”, reencontramos uma visão da vida que passa sempre pelo amor ao cinema.

Se é verdade que o cinema pode ser uma via enigmática de superação do silêncio da morte, então pode dizer-se que Manoel de Oliveira soube percorrer essa via de forma tão subtil quanto irónica. A apresentação do seu filme póstumo — Visita ou Memórias e Confissões (1982) — constitui algo mais do que uma fascinante herança. É também uma forma de dizer, e dar a ver, o poder do cinema como máquina de superação da fragilidade da vida humana.

Redescobrimo-nos, assim, na companhia de Oliveira, não exactamente para reflectir “sobre” a morte, antes para partilharmos um trajecto em que a vida vivida e a vida filmada sempre coexistiram através de uma radical cumplicidade. Aliás, ao evocar as atribulações familiares e a acidentada evolução da sua filmografia, a mensagem de Oliveira é clara — tudo o que aconteceu foi por amor ao cinema.

Visita ou Memórias e Confissões ficou mais de três décadas à espera nos cofres da Cinemateca Portuguesa — afinal de contas, quando o rodou, Oliveira tinha “apenas” 73 anos. O certo é que, para além do fascínio da descoberta, rapidamente detectamos nele a dinâmica de um discurso que sempre soube integrar as marcas autobiográficas. Lembramo-nos, claro, do emblemático Porto da Minha Infância (2001), cruzando as memórias pessoais com a evocação de Aurélio Paz dos Reis e dos tempos fundadores do cinema em Portugal. E também de Cristóvão Colombo – O Enigma (2007), uma deambulação ao mesmo tempo especulativa e poética em que o cineasta se apresenta (e representa) na companhia de sua mulher, Maria Isabel Oliveira.

Ao celebrarmos tão delicada herança, corremos o risco, é bem certo, de atrair os lugares-comuns com que alguns discursos mediáticos (sobretudo televisivos) acompanharam a morte do cineasta. E nunca é fácil lidarmos com os nossos mortos — sobretudo quando sabemos que a sua dádiva pode ser recoberta e, no limite, mascarada pela demagogia “cultural” da nossa época de pensamentos lentos e mensagens aceleradas.

Digamos, então, de forma simples, mas convicta, que não se trata (nunca se tratou) de santificar quem quer que fosse. Trata-se, isso sim, de defender o conhecimento contra a ignorância, incluindo os disparates acumulados ao longo de décadas sobre a “duração” dos planos e dos filmes de Oliveira. Em última instância, Visita ou Memórias e Confissões ensina-nos mesmo uma lei essencial de qualquer comunicação humana: quando contamos a nossa história, comprometemos todos os sentidos da nossa existência. O cinema pode mesmo ser uma arte de habitar o mundo, os seus mistérios e contradições.

O filme “Viagem ou Memórias e Confissões” passa hoje em duas sessões no Teatro Rivoli no Porto e amanhã terá também duas apresentações na Cinemateca Portuguesa.

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