Não te desnoites, Daniel Knox
Texto: RICARDO MARIANO
Chicago, cidade de vento, fecunda de rock e seus derivados, guarda segredos distintos e espíritos recatados que se querem revelados. Daniel Knox tem 34 anos, veste nublado e do seu rosto emerge uma barba imperial. Chegou à cidade por alturas do ensino universitário, quando a paixão pelo cinema – particularmente pela obra de David Lynch – o levaram, em 1998, até ao Columbia College. Desistiu do curso, da vida académica e dos ritos programáticos herméticos que não casavam com a cabeça vazia de protocolos que sempre lhe tapetou a existência. Já em Springfield, Illinois, geografia natal e de vida até ao primeiro ano da idade adulta, Knox vivera tempos arreliadores, tendo sido expulso de duas escolas no percurso até ao ensino superior.
Enquanto tolerou a faculdade, fazia da noite companhia, deambulando pelas ruas, indo de silêncio, olhando o que o dia escondia com brilho e movimento. Músico autodidacta, foi assaltando velhos hotéis e outros lugares com pianos dentro. O seu raquítico sintetizador não chegava para o que melodiava internamente; precisava de extensão e comprimento. Aqueles instrumentos, abandonados sob tectos ingratos, serviam na perfeição para treino e ensaio. Na maioria das vezes passou invisível sem inquietar.
Daniel Knox acumulou trabalhos: vendeu pipocas, serviu às mesas… acabou projectista. Hoje, apesar do ameno mas merecido clamor que a sua música vai conquistando, mantém-se no lado envergonhado mas imprescindível da lente que dispara filmes na tela do espaço Music Box. Precisamente em 2007 e no Music Box, David Lynch, que corria o país apresentando Inland Empire, sugeriu que o seu filme e breve declamação poética fosse antecedido por um momento musical. Quem senão Daniel Knox, homem da casa e devoto do realizador, para ser o protagonista de tão privilegiado momento. Knox não foi de modas e compôs uma pequena peça instrumental para órgão chamada Inland Empire Overture. O momento tão especial acabou no YouTube e o músico, que já editara o debut Disaster, acabou meses depois a tocar em Londres, no Barbican Centre, convidado pelo director artístico David Coulter a propósito do evento “Plague Songs”. Lá conheceu os The Handsome Family e Rufus Wainright com quem vem colaborando e contando musicalmente. Um ano depois, de regresso à capital Inglesa e ao Barbican, aproxima-se de Jarvis Cocker, participando mais tarde no segundo de originais do ex Pulp, Further Complications (2009).
Daniel Knox tem três discos editados: o supracitado Disaster, Evryman For Himself (2011) e um sublime registo homónimo deste ano. A trilogia é feita de duas porções diferenciadas. O primeiro par de lançamentos dispensou estúdio profissional e soa pungente ao piano, sem arranjos rebuscados. As canções vivem suspensas numa genuinidade que sobeja comoventemente da voz incrível e barítono de Knox. A mais recente edição foi gravada na casa de Steve Albini, o Electrical Audio, pelo seu homem de confiança, Greg Norman. As dez composições não se perdem na riqueza e conforto tecnológico. Ao contrário, aproveitam-se destas forças para crescerem épica e majestosamente, soando colossais, elegantes de traços vintage, acrescentadas de cordas e, aqui e ali, de ligeiros elementos electrónicos. A palavra no timbre de Daniel Knox vence e impressiona. Para o artista importam os lugares, quando e como passamos por eles: a narrativa da circunstância. A arquitectura vive para lá do que a agarra ao chão e ao músico todos os segundos contam, fervilhando de imagens, pessoas – vivos momentos. Em Knox habita uma violência subtil, camuflada poética e inteligentemente… Uma crueldade resultante das mundividências dos seus dias. No disco deste ano há muito da terra onde o músico nasceu, em memórias que contam gentes e os sítios da comunidade: aformoseando-os de emoção contagiante. Daniel Knox é dono de uma música fundamentalmente bonita que, devagar, vai chegando, numa voz poderosa, a mais, atentos e sensíveis ouvidos.

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