A leste tudo de novo
Texto: NUNO CARVALHO
Exibido entre nós no Queer Lisboa em 2014, e tendo-se estreado nos EUA em finais de fevereiro deste ano, Eastern Boys, a segunda longa-metragem do francês Robin Campillo – colaborador de Laurent Cantet em filmes como O Emprego do Tempo (2001), Para o Sul (2005) ou A Turma (2008), na qualidade de coargumentista –, rivaliza em força criativa e capacidade de inovação com outros importantes títulos queer franceses produzidos em 2013 como A Vida de Adèle, de Abdellatif Kechiche, ou O Desconhecido do Lago, de Alain Guiraudie. No entanto, o filme de Campillo parece-nos dos três o mais arriscado e honesto. E artisticamente também o mais “marginal”, underground e ousado. Mas basta lembrar a sua obra de estreia, Les Revenants (2004), um dos mais originais e surpreendentes filmes de zombies alguma vez feito, para perceber que se trata de um cineasta singular e com tendência para um certo exquisite taste. E também bissexto, tendo em conta o intervalo de uma década entre Eastern Boys e o filme precedente.
Filmado em boa parte no apartamento do próprio realizador, o que torna esta ficção parcialmente um huis clos, Eastern Boys abre todavia com uma sequência de aproximadamente dez minutos situada na Gare du Nord, onde Daniel (Olivier Rabourdin), um homem com cerca de 50 anos, bem vestido e com bom nível de vida, enceta conversa com Marek (Kirill Emelyanov), um rapaz ucraniano, imigrante clandestino, e que se prostitui na esperança de escapar a uma existência sem horizontes, dominada pelo chefe do seu gangue, a quem chamam Boss (Daniil Vorobyov). Marek diz que faz tudo a troco de 50 euros, e Daniel dá-lhe a morada de casa para se encontrarem. No entanto, no dia seguinte, à hora marcada, aparece um rapaz mais novo que lhe diz que não é correto o que ele está a fazer. E atrás dele vem o gangue completo, que invade o apartamento de Daniel, levando todo o seu recheio. Pelo meio, aparece ainda o verdadeiro Marek. A culpa que lhe é induzida por causa do risco que correu (em França a idade de consentimento é 15 anos, não sendo portanto Marek um menor de idade, mas as circunstâncias “clandestinas” do gesto de Daniel são suficientes para lhe fazer sentir que pode estar a fazer algo de “errado”) explica a passividade e a apatia do anfitrião perante os invasores. No entanto, quando alguns dias depois Marek lhe bate à porta e diz estar disponível para fazer o que haviam combinado, nasce entre os dois uma relação que inesperadamente vai ganhando contornos mais sérios.
Tal como em Les Revenants, em que uma série de personagens “regressava” do mundo dos mortos, como que por anacrónico e inverosímil milagre, para suprema perplexidade dos vivos, em Eastern Boys Campillo retoma o tema do medo do “estrangeiro”. Estrangeiro que pode ser corporizado pelos “ressuscitados”, mas também por alguém de uma nacionalidade diferente que funciona igualmente como metáfora do caráter estranho e alienígena da intimidade (o outro é sempre um mistério, mesmo quando julgamos conhecê-lo sobejamente). Curiosamente, os dois atores principais são ambos heterossexuais, o que acentua o jogo e o esforço para encarnar e habitar o lugar da diferença, da alteridade, do desconhecido. Um esforço que o realizador aprecia, na medida em que não está interessado em que as suas personagens sejam projeções narcísicas da sua personalidade. Pelo contrário, o que o motiva é a diversidade do outro, a parcela de estranheza que há nesse outro. É preciso caminhar para o “oriente” do outro, no sentido da abertura à originalidade surpreendente do que não conhecemos. Numa entrevista, Campillo explicou que cada um, Daniel e Marek, “vê no outro a possibilidade de sair da sua situação”. Uma situação em que a relativa solidão de cada um é complementada pela mais-valia do outro.
“Eastern Boys”
Realização: Robin Campillo
Elenco: Olivier Rabourdin, Kirill Emelyanov, Daniil Vorobyov
DVD / Blu-ray Peccadillo Pictures

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