Dois grandes museus
Texto: NUNO GALOPIM
A ideia de visitar museus numa sala de cinema tem ganho alguma regularidade, com as programações de salas em vários cantos do mundo a mostrar, no grande ecrã, percursos filmados ora entre uma exposição sobre Pompeia ou uma outra sobre David Bowie, realizadas há relativamente poucos anos respetivamente entre o British Museum e o Victoria & Albert Museum (curiosamente ambos em Londres). O que agora chega às nossas salas não é porém mais um projeto de visita filmada a outros museus. São antes filmes pensados em primeiro lugar como cinema. Documentários que têm como objeto da sua atenção dois grandes museus, um deles em Viena (Áustria), outro em Londres (Reino Unido). E apesar de algumas características comuns, são objetos diferentes entre si.
O Grande Museu, de Johannes Holzhausen, teve como ponto de partida o processo de transformação de uma ala do magnífico Kunsthistoriches Museum de Viena. Mas em vez do era uma vez de uma remodelação, o que o realizador procurou foi o sentir dos ritmos de trabalho de quem ali trabalha. O velho edifício, que data de finais do século XIX, é um espaço habitado tanto por obras que remontam à aurora da civilização como pelos muitos profissionais que ali vivem o dia a dia. É entre esses habitantes que a câmara de Holzhausen se diluiu e tornou invisível para, num documentário sem entrevistas nem banda sonora alienígena, nos colocar em vários espaços do museu, das reservas e oficinas de restauro a reuniões (nem sempre de acenos garantidos), da festa de despedida de um funcionário que entra na reforma a visitas de figuras de outras instituições, em percursos ora feitos nos bastidores do que o visitante conhece ora entre as salas, umas transformadas em estaleiro de obras, outras estando tal e qual as podemos percorrer. A montagem arruma ideias e concede um ritmo seguro a um filme que, como visita um museu, olha tranquilamente o que tem pela frente. É contudo entre as pessoas que ali trabalham que O Grande Museu encontra a sua alma. Um museu, de resto, não é apenas o que nos mostra. Há arte também na forma de o fazer viver.
Se em O Grande Museu reconhecemos algumas marcas do cinema de Frederick Wiseman – embora Johannes Holzhausen demarque a sua visão na forma como acompanha as figuras, além de optar por planos mais curtos e uma montagem mais viva – este outro grande documentarista, que nos últimos anos nos levou quer ao Ballet da Ópera de Paris quer aos espaços da universidade de Berkeley, na Califórnia, convida-nos agora a visitar a londrina National Gallery. Tal como no filme de Holzhausen há em National Gallery uma vontade de olhar mais quem habita profissionalmente o museu que uma necessidade em encontrar nas peças expostas a caução que justifique a visita. O museu é desde logo diferente na coleção que guarda e expõe – concentra-se essencialmente na pintura desde o final da Idade Média ao século XIX –, mas é na forma de acompanhar a sua respiração que Wiseman encontra um registo distinto do que vemos em O Grande Museu. Há mais planos longos, que concentram atenções em mais extensos olhares sobre o que acontece, seja uma visita guiada, uma exposição ou um parecer de um especialista perante um restauro. O tempo aqui é um valor que sublinha o gosto por contemplar. Mas também o ensejo de aprender. E se em O Grande Museu Holzhausen nos traduz a pulsação de um museu como um organismo vivo, em National Gallery junta a essa ideia um corpo de reflexões sobre museologia e políticas de restauro, mostrando como um contexto serve para acrescentar planos adicionais a um texto.
Os filmes “O Grande Museu”, de Johannes Holzhausen e “National Gallery”, de Frederick Wiseman, estão em cartaz a partir de hoje entre nós em distribuição pela Leopardo Filmes.

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