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Quando o cinema era novo

Texto: RUI ALVES DE SOUSA

A estreia de “Se eu Fosse Ladrão… Roubava” é acompanhada dos lançamentos, nas salas e em DVD, dos dois primeiros filmes de Paulo Rocha, em excecionais cópias restauradas. Uma nova oportunidade para (re)descobrir o início de um período marcante do cinema português.

"Verdes Anos"

São dois filmes que marcam o início do Cinema Novo e de uma revolução discreta no cinema português – cujos efeitos sentimos mais em 2015 do que naqueles (pouco) longínquos anos 60. São histórias de amor e conflitos sociais num país dividido entre a tradição e o progresso. Contudo, este díptico representa mais do que um simples “documento histórico” de uma época (ao contrário de tantos outros títulos da “Nova Vaga” portuguesa) e de um modo de pensar e de fazer cinema em Portugal, porque Os Verdes Anos e Mudar de Vida passaram o teste do tempo e continuam bem atuais. É caso para dizer que Paulo Rocha não morreu no sentido cultural e artístico do termo: hoje, a sua obra continua presente no imaginário nacional.

Os Verdes Anos (1963) é o filme de estreia de Paulo Rocha, e provavelmente, o seu mais celebrado junto do público e da crítica. Através de um retrato social de Lisboa e dos seus habitantes, que se confrontam com a lenta evolução urbana da capital, o cineasta conta uma imprevisível história de amor, ciúme e inveja, entre duas pessoas anónimas que tentam ganhar a vida, filmada em oposição aos diferentes lugares e recantos da cidade que são visitados. É inevitável falar da belíssima banda sonora de Carlos Paredes e de uma certa melancolia ao vermos esta Lisboa deprimida, negra, problemática e atrasada no tempo e no espaço.

Hoje, em Os Verdes Anos, podemos também constatar às mudanças que se deram, em mais de meio século, nas Avenidas Novas, na Avenida de Roma, entre aquilo que de bom e de mau tem o progresso. Um olhar triste, mas repleto de encanto e de alguma nostalgia, à “portugalidade” e à mentalidade cinzenta (que neste século XXI, em pouco ou nada parece ter sido alterada), com cenas inesquecíveis e que não se esgotam nos momentos da narrativa que desenvolvem a relação entre o casal de protagonistas. Uma bela obra prima do cinema português, cheia de rebeldia e de energia, inspirada e disposta a mostrar novas ideias e linguagens no grande ecrã.

Mudar de Vida (1966) tem um pendor neorrealista muito acentuado. Se bem que o retrato de Os Verdes Anos era por si só bastante realista, esta história de dúvida e miséria, situada no Furadouro e tendo como pano de fundo os pescadores e as suas famílias que, a todo o custo, tentam sobreviver, toca numa realidade bem mais difícil e complexa. Com uma dureza psicológica que se sente a cada instante e que não deixa ninguém indiferente, o filme divide-se entre as consequências do regresso de um pescador à sua terra, depois de ter combatido na Guerra Colonial, e a invasão do progresso a um pequeno núcleo social que não consegue (ou não quer) afastar-se do seu meio.

É de facto uma narrativa perturbante, a que se desenrola em Mudar de Vida. Por vezes os diálogos mais banais do filme sobrepõem-se contudo ao poder das imagens de características documentais captadas por Rocha, e que se misturam com a ficção de uma maneira muito subtil. O neorrealismo confunde-se com o “parlapiê” e os olhares e as emoções perdem-se entre algumas futilidades. No entanto, não deixa de ser por isso um grande e marcante filme , que se encontra nas subtilezas dos olhares sobre o trabalho dos pescadores, na dualidade psicológica instalada entre os dois protagonistas e o amor que, no passado, antes da guerra, os unia, e no poder do desenvolvimento industrial numa sociedade que, na opinião dos seus governantes, não deveria deixar de ser retrógrada e analfabeta, com perspetivas de sucesso limitadas à pobreza da sua comunidade.

A Cinemateca Portuguesa desenvolveu um restauro de 2K sobre esta dupla de clássicos, num resultado final em que também foram incluídas as cenas cortadas pela censura no lançamento original dos filmes. Um trabalho aprofundado que foi supervisionado, no início, pelo próprio Paulo Rocha, e que, depois da sua morte, foi terminado por Pedro Costa, admirador confesso do trabalho do realizador. A qualidade de imagem e som atingidos merecem destaque: são poucas as ocasiões em que, no cinema português, nos deparamos com um trabalho de preservação de características semelhantes às grandes “ressurreições” de filmes em alta definição que são feitas no resto do mundo (como é o caso do trabalho da Cineteca di Bologna e da Janus Films). Os espectadores poderão ver, ou rever, nas salas e em DVD, estes dois magníficos filmes nas melhores condições possíveis.

Os Verdes Anos e Mudar de Vida são um lançamento da Midas Filmes, tanto nos cinemas como na edição em DVD.

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