E se um desconhecido de repente lhe der a mão?
Texto: VÂNIA MAIA
De olhos fechados, o espectador aguarda a chegada da pessoa com quem irá dar um passeio a pé de mãos dadas. Do outro lado, estará o temível desconhecido. Um homem, uma mulher, uma drag queen, alguém que pertence a uma minoria racial ou que não encaixa nos padrões de beleza vigentes… Tudo é possível. Questionar e confrontar preconceitos é a intenção da performance Walking: Holding, que passou pelo Teatro Municipal Maria Matos, em Lisboa, a 30 e 31 de maio, no âmbito da programação do ciclo Gender Trouble (que celebra os 25 anos de um dos livros marcante no que diz respeito ao feminismo e aos movimentos LGBT, Gender Trouble Feminism and the Subversion of Identity, de Judith Butler).
Durante meia hora, cada espectador é levado a dar um passeio pela cidade, de mãos dadas com várias pessoas diferentes e desconhecidas. Em todos os locais em que a performance é feita Rosana Cade trabalha com grupos de participantes locais, que guiam os espectadores pela mão. A escocesa inspirou-se na sua experiência, ou seja, no desconforto que sentia ao andar de mãos dadas com a sua namorada na rua, devido aos olhares reprovadores dos outros. Com esta performance encontrou uma forma de reverter a situação: dar visibilidade aos casais mais inesperados, porque para haver uma verdadeira mudança social é preciso que as pessoas não se escondam.
De olhos fechados, o espectador ouve um “olá”. Uma voz feminina. Uma desconhecida. Menos de 60 segundos depois daquele “olá”, e já de olhos bem abertos, caminhamos de mãos dadas pelas imediações do Teatro Maria Matos. “Podemos conversar ou não”, diz-me a jovem de traços asiáticos. Começo por recordar uma das últimas frases que li no livro que trago comigo: “Os outros somos nós” (Agora e na Hora da nossa Morte, de Susana Moreira Marques, ed. Tinta-da-China).
Um gesto tão simples como dar a mão consegue criar uma intimidade imediata. Num ápice, já não se é só um, mas um conjunto de duas pessoas, exposto a outros outros. Já não é só uma pessoa que é julgada, mas ambas. E isso mostra-nos que dar a mão a alguém também é uma forma de lhe dar confiança.
Andar de mãos dadas com alguém do mesmo sexo. Paramos diante de um montra que serve de espelho. “Como é que isso te faz sentir? Sentes-te confortável? O que é que pensas quando nos vês ao espelho?”. A experiência é pessoal, cada um é obrigado a confrontar-se com os seus próprios preconceitos e, acredita Rosana Cade, a experiência pode ser profundamente libertadora. De repente, estamos no lugar do outro que nos acompanha. A metáfora do espelho era inevitável, tal como foi inevitável para o jornalista polaco Ryszard Kapuscinski (1932-2007) que, a partir da sua experiência enquanto correspondente no estrangeiro, escreveu um conjunto de ensaios sobre o outro: “A verdade é que o Outro é o espelho onde me revejo, e onde me veem; é um espelho que me desvenda e me despe, algo que eu preferia evitar” (O Outro, ed. Campo das Letras).
Se nos deixarmos levar pela intimidade gerada pelo toque, o passeio pode transformar-se numa sessão de psicoterapia ambulante. “Sim, podia apaixonar-me por uma mulher”. “Não, nunca poderia apaixonar-me por uma mulher”.
A intimidade momentânea vai sendo quebrada à medida que vamos trocando de performers ao longo do passeio, de forma inesperada, o que pode provocar uma leve sensação de abandono, que rompe a cumplicidade que se começava a construir. Relações express. Sinal da contemporaneidade?
Os olhares de estranheza dos lisboetas agudizam-se quando caminham pela rua uma mulher de mãos dadas com um travesti de lábios vermelhos, barba por fazer e vestido preto. “Como será sentir estes olhares todos os dias?”.
Walking: Holding é uma homenagem à individualidade, uma experiência tão diversa quanto cada uma das pessoas que dá as mãos.
Depois de percorrer várias ruas da cidade de mãos dadas com cinco seres humanos, meus próximos instantâneos mesmo quando ainda tinha os olhos fechados, a performance termina num banco de jardim. Estou de novo sozinha, à mercê dos outros que se refletem no espelho que sou eu.

«O outro é o próximo, não necessariamente o meu próximo, mas também o meu próximo. E nesse sentido, sendo para o outro, sois para o próximo. Mas se o vosso próximo ataca um outro próximo ou é injusto com ele, que podereis fazer? Aí, a alteridade toma um outro carácter, aí, na alteridade pode aparecer um inimigo, ou, pelo menos, coloca-se o problema de saber quem tem razão e quem tem culpa, quem é justo e quem é injusto. Há pessoas que têm culpa». – Emmanuel Levinas

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