Entre tradições e a modernidade
Texto: NUNO GALOPIM
Se foi com Charles Ives que surgiram sinais fundadores de uma identidade norte-americana na música orquestral – num processo logo depois secundado e aprofundado por nomes como os de Gershwin, Copland ou Bernstein – algo mais a Sul, em terras brasileiras, semelhante papel terá cabido ao seu contemporâneo Heitor Villa-Lobos (1887-1959). A sua obra cruzou etapas distintas da história da música do século XX e, quando em 1957 compôs a sua última sinfonia – a número 12 – vivia-se um tempo de descoberta de uma nova ordem de ideias entre o “cânone ocidental”, com obras de figuras como Stockhausen, Messiaen ou Xenakis a abrir espaço a novas demandas para a música europeia, propondo novas formas, o mesmo sucedendo mais a norte, nos EUA, sob as revelações postas em cena por Cage e uma nova geração que o tomaria como referência maior.
O mapa mundo da linha da frente da invenção musical não fechava contudo as portas a formas com raízes mais remotas. No pós-guerra a sinfonia continuava a ter em Shostakovich uma das mais ativas e inventivas vozes do seu tempo, a ele juntando-se nomes como os de Martinú, Bernstein ou Tipett. O alemão Henze tinha já estreado quatro sinfonias em finais dos cinquentas, mas a sua obra mais significativa neste espaço estava ainda por revelar. Como alguns destes mais jovens compositores, um Villa-Lobos no limiar dos 70 anos idealizou em 1957 uma nova grande obra orquestral capaz de traduzir um reconhecimento e assimilação pelos grandes mestres sinfonistas de outrora, mas revelando focos de interesse não apenas por características já visitadas pelo seu universo de preocupações, como espelhando uma curiosidade sobre algumas das realidades do seu tempo.
Completada aos 70 anos, dedicada à sua companheira Mindinha e estreada cerca de um ano depois, a Sinfonia Nº 12 de Villa Lobos merece ser recordada como uma das mais importantes abordagens a esta forma musical em meados do século XX, numa altura em que os focos das atenções olhavam para outras ideias e de outras maneiras. Liberdade e detalhe habitam uma música rica em cores na qual se respira um fôlego que não parece o de quem se prepara para despedir.
Continuando a apresentação da obra orquestral de Villa-Lobos no seu catálogo, em sucessivas interpretações pela Orquestra Sinfónica do Estado de São Paulo, dirigida pelo também brasileiro Isaac Karabtchevsky, a Naxos apresenta agora uma belíssima gravação da Sinfonia Nº 12 (gravada ao vivo em São Paulo, em 2014), num alinhamento que, mesmo antes da obra central aqui apresentada, recorda o pungente Uirapuru (1917), um poema sinfónico com cerca de 19 minutos de duração no qual fica clara a génese do interesse de Villa Lobos por algumas das então recentes revelações de compositores como Stravinsky ou Debussy, que tinham aberto alas para a invenção da música do século XX.
O alinhamento inclui ainda a exuberante obra coral orquestral Maundú-Çarará, um bom exemplo de uma demanda de identidade que cruzou muita da obra de Villa-Lobos, escutando aqui mitologias antigas com geografia brasileira.
A “Symphony N. 12”, de Heitor Villa-Lobos, em gravação pela Orquestra Sinfónica do Estado de São Paulo, dirigida por Isaac Karabtchevsky, acaba de ser editada em CD e em formato digital para plataformas online, pela Naxos.

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