Os sussurros de Spielberg
Texto: NUNO CARDOSO
Uma força invisível consegue comunicar com um grupo de crianças que vive na mesma localidade e, através da distorção entre o que é o bem e o mal, a realidade e o imaginário, consegue manipulá-las a fazer o que quer, mesmo que isso implique magoar pessoas tão próximas como os seus pais.
Não nos enganemos. A premissa de The Whispers, a nova série norte-americana da ABC que chega a Portugal esta quarta-feira, no dia 10, no TV Séries, não é nova. Não chegam os dedos de duas mãos para contar o número de filmes em torno de crianças com amigos imaginários que se revelam ser, quase sempre, forças malignas com um plano diabólico.
No que toca à originalidade do tema, e numa altura em que o mercado da ficção televisiva está mais diverso do que nunca, e também por isso, mais feroz e competitivo do que no passado, a série criada por Soo Hugh e baseada na obra The Illustrated Man, de Ray Bradbury, deixa algo a desejar.
Mas com uma indústria cinematográfica recheada de filmes dentro desta temática, muitos deles de qualidade duvidosa e uma tentativa falhada de copiar o sucesso de filmes de culto como Poltergeist, o que traz de novo esta série?
The Whispers, que conta com Steven Spielberg como um dos produtores-executivos (aqui ao lado de Darryl Frank, um dos seus parceiros nas suas últimas aventuras televisivas – casos de Under The Dome, As Taras de Tara ou Falling Skies), consegue fugir à regra da fórmula criança-coagida-por-forças-invisíveis em duas frentes distintas, a estrutural e a semântica.
Por um lado, o facto de um tema destes estar a ser explorado em formato de série pode prever um desenvolvimento e aprofundamento do género ao longo de, pelo menos, uma temporada inteira – ou mais, caso seja renovada pela ABC, o que é mais difícil de atingir numa longa-metragem de hora e meia. Ao longo dos vários episódios de quase uma hora cada, espaço não falta para evitar o arranhar à superfície deste género de thriller, drama e terror.
Por outro lado, a sensibilidade e a experiência de Spielberg nos terrenos explorados por Poltergeist, E.T. – O Extraterrestre, Gremlins e Parque Jurássico notam-se agora em The Whispers, ainda que em pormenores como ângulos de filmagens diferentes, a importância das palavras não-ditas nos silêncios ou da banda sonora certa na altura certa. Datalhes que contam no resultado final. Além disso, e apesar de ainda só terem sido exibido dois episódios nos EUA, a nova série conta com uma forte componente de ficção científica, percebendo-se, logo de início, que a força invisível que tem estabelecido comunicação com estas crianças tem ligação com as missões norte-americanas no espaço, uma conexão que acaba por fugir à regra em formatos desta temática.
Last but not least, o desempenho de Lily Rabe como protagonista da série, ela que tem concentrado os seus últimos anos de atriz em American Horror Story e que em The Whispers não desilude no papel de Claire, especialista do FBI em casos de crime com crianças. Uma mulher com fragilidades na sua vida familiar, mas forte o suficiente para ser uma profissional de exceção.

Deixe um comentário