A vida e a morte, o riso e a lágrima
Texto: RUI ALVES DE SOUSA
A nova seleção passa por três décadas de grande produtividade de Ingmar Bergman. Mas ao contrário do que seria de esperar, não iremos ao (re)encontro dos filmes mais celebrados do autor. Aliás, isso já tinha sido feito no ciclo anterior, com mais de uma dezena e meia de títulos, entre os quais se encontravam autênticos clássicos do cinema, como Morangos Silvestres, O Sétimo Selo, A Máscara e Lágrimas e Suspiros – e que agora estão disponíveis em DVD, numa série de novas edições lançadas pela mesma distribuidora.
No entanto, não é pelo “mediatismo” que se pode avaliar a complexidade de um realizador, e este pequeno ciclo, intitulado Bergman Inesgotável, leva-nos a analisar os vários caminhos que Bergman gostava de explorar. Aqui poderemos ver dois dos seus títulos mais marcantes e profundos, num ciclo com algumas curiosidades menos conhecidas da sua filmografia, interpretadas por vários atores-fetiche do cineasta.
Rumo à Felicidade, de 1950, é o filme mais antigo do ciclo, e um dos primeiros trabalhos realizador por Bergman. Trata-se de uma história trágica de amores desencontrados, que abre caminho para outras reflexões sobre as relações humanas que o cineasta criaria nos anos seguintes. E A Flauta Mágica, adaptação feita para televisão da ópera homónima de Mozart, é a obra mais recente entre as seis propostas da Medeia. Em 1975, Bergman já tinha alcançado um estatuto invejável, que manteria até ao final da sua carreira, mas nunca quis deixar de surpreender os seus seguidores. E aqui, apresenta-nos uma versão muito original, mais cinematográfica do que propriamente televisiva, da fantástica história e dos deslumbrantes personagens da ópera.
Mas a surpresa maior está em A Força do Sexo Fraco, o único filme deste sexteto que tem sido injustamente subvalorizado por gerações de cinéfilos e estudiosos do cinema. É uma comédia burlesca e excêntrica, com cenas repletas de nonsense que homenageiam o humor slapstick do cinema mudo. Este é, por isso, um filme atípico na obra de Bergman, não por se tratar de uma comédia (o autor assinalou alguns notáveis trabalhos nesse género, como O Olho do Diabo – exibido no ciclo anterior da Medeia), mas pela maneira como o cineasta constrói o humor do filme: sem pretensões de gerar reflexão, as pitorescas personagens desta história rocambolesca vivem gags bizarros e comunicam-nos a sua alegre estupidez através de pequenas mensagens dirigidas diretamente ao espectador. Um curioso exercício que nos mostra como Bergman era um autor imprevisível – e é nessa imprevisibilidade que se encontra a grande magia do seu cinema, demonstrada através de experiências diferentes que partiam para caminhos incertos e misteriosos.
E misteriosas são as obscuridades dos dois filmes mais conhecidos deste conjunto: A Fonte da Virgem e Luz de Inverno. Ambos lidam com a fé, com a religião e os seus dogmas, para colocarem em causa a existência humana e, acima de tudo, a presença ou ausência de Deus nos momentos mais problemáticos da vida de cada um. No primeiro filme, uma singular obra prima, Bergman põe à prova a triste realidade que nos circunda, e que da qual nenhuma oração nos conseguirá salvar: independentemente do credo, todos poderemos estar sujeitos aos terríveis perigos da natureza humana e do Mal. A evolução da narrativa é perturbante e inqualificável, num dos filmes mais complexos e extraordinários de Bergman.
No segundo, que nos conta a história de um padre que enfrenta uma crise de fé, o cineasta aborda a religião através dessa perspetiva menos usual – e mesmo que o efeito já não seja o mesmo, tendo-se perdido em virtude de outras reflexões bem mais atuais sobre o tema (como em A Fonte da Virgem), Luz de Inverno não deixa de ser impressionante pelas interpretações dos atores e pelo lado negro que circunda as personagens, que Bergman filma tão bem através dos diálogos, dos silêncios e do desespero demonstrado pelo protagonista, nessa luta pela compreensão das emoções, e da relação entre os homens e o sobrenatural.
Por fim, falta-nos falar de O Rosto, um título igualmente essencial, mas menos falado, na obra de Bergman. Aqui temos uma comédia dramática, sobre uma trupe de artistas itinerantes liderados por um mágico, que ao chegarem a uma cidade, são conduzidos a um local onde serão testados por um grupo de poderosos da zona, cujo cepticismo em relação às ilusões apresentadas pelo grupo irá criar uma série de conflitos. O amor, a deceção, a realidade e a magia, tudo se confunde nesta curiosa narrativa, bem construída e surpreendente.
Esta é assim mais uma oportunidade para ver ou rever Bergman nas condições apropriadas: no recanto da sala escura, tanto em Lisboa como no Porto. É apenas mais uma prova de um legado que é mesmo inesgotável.
O ciclo Bergman Inesgotável começa a partir de hoje em Lisboa, no Espaço Nimas, chegando na próxima semana, no dia 2 de julho, ao Porto, no Teatro Municipal Campo Alegre.

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