Crime, viu ela
Texto: LIA PEREIRA
Rachel tem 30 e poucos anos e uma imensa nuvem negra sobre a cabeça cansada. Desde que se separou do marido, que a trocou por uma “loura deslumbrante”, a jovem londrina não consegue funcionar: perdeu o emprego (embora continue a apanhar, diariamente, o comboio dos subúrbios para a cidade, para não despertar a suspeita da amiga/senhoria), perdeu igualmente qualquer vestígio de autoestima e aprofundou um problema de alcoolismo que, de certa forma, é um subenredo do livro: Rachel bebe todo o dia, esquece-se do que fez durante horas e não faz muito por esconder que deixou escapar o controlo da sua vida.
Daquela que é, talvez, a única rotina que mantém – a de apanhar o comboio matinal para Londres, e o vespertino para a cidade-dormitório – nasce o acontecimento que mudará tudo: da carruagem indistinta, rodeada de desconhecidos, Rachel vai espreitando a sua antiga casa, que fica junto à linha dos comboios e onde o seu ex-marido, Tom, vive agora com a ex-amante, Anna. E também a do casal que habita na mesma rua, e de cujo quotidiano Rachel tem apenas pequenos vislumbres. Ao vê-los no jardim das traseiras, invariavelmente juntos, elegantes e sorridentes, projeta neles a sua imagem de um casamento perfeito e harmonioso. A ilusão dura até ao dia em que Megan, a mulher cujo estilo Rachel tanto admira, desaparece, e a nossa heroína (mas pouco…) não resiste a tentar descobrir mais, enredando-se numa trama que implica confrontar o passado – o ex-marido e a nova mulher, recorde-se, vivem duas ou três casas ao lado – e o estado em que se encontra – nem a polícia a leva a sério, dada a gravidade do seu alcoolismo e o desnorte generalizado dos seus dias.
De desfecho surpreendente, A Rapariga no Comboio é uma história de crime bem conseguida: ainda que fiquemos a saber o que sucedeu a Megan a várias dezenas de páginas do final, Paula Hawkins segura a nossa curiosidade até às derradeiras páginas, suspensos que ficamos da resolução dos enredos paralelos.
É a veracidade das personagens, porém, que mais nos conquista: num livro sem heróis perfeitos, nenhuma das personagens é particularmente “gostável”: Rachel desperta, na melhor das hipóteses, piedade, Megan é (aparentemente) uma cabra impiedosa, Anna alguém que se excita do poder que exerce sobre o marido. É pela voz alternada das três mulheres de “A Rapariga no Comboio” que vamos conhecendo a história, e do cruzamento das suas versões a nossa compreensão sobre o que terá acontecido torna-se cada vez mais nítida até à conclusão inesperada.
O ambiente deprimente de uma cidade onde ninguém – à exceção de Cathy, a senhoria de Rachel – parece interessado em ajudar, e algumas reflexões passageiras mas pertinentes (“Uma mulher só é verdadeiramente apreciada pela sua beleza ou pelos seus filhos”, considera, a certa altura, a infértil Rachel) são outros dos pontos de interesse um best seller que já despertou comparações a Gone Girl e que, tal como este, irá ser adaptado ao cinema (a Dreamworks comprou os direitos da história e Emily Blunt será a protagonista).
De leitura simples e cativante, A Rapariga no Comboio é um excelente entretém para apreciadores de histórias de crime e irá causar identificação em todos os que, no meio da solidão urbana, se sentem tentados a espreitar a vida dos outros.
Paula Hawkins
A Rapariga no Comboio
Top Seller, 320 páginas
ISBN: 9789898800541
4/5

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