Bianca Casady: “Como é que poderemos escapar à natureza?”
Entrevista por: ANDRÉ LOPES
Desde sempre caracterizadas como espíritos criativos e muito pouco preocupados com fronteiras de qualquer tipo, as CocoRosie tornaram-se num fenómeno de culto alimentado por controvérsias e por uma noção muito própria de vivência artística. Para além disso, os discos: desde a estreia com La Maison de Mon Rêve (2004) que Bianca e Sierra Casady nos mostram canções de uma preciosidade única, cuja aura paira algures entre o artesanal e a pop rudimentar, no sentido mais lato do termo. E também no sentido mais puro, já que canções e melodias tão desconstruídas como estas parecem não encontrar rivalidade naquilo que se faz hoje em dia.
Falámos com Bianca Casady sobre o próximo álbum e outras inquietações.
Desde The Adventures of Ghosthorse and Stillborn (2007) que o vosso som se tem vindo a tornar cada vez mais expansivo, especialmente no que diz respeito ao modo como escolhem explorar ambiências com sintetizadores e outras eletrónicas. Contudo, o próximo disco tem sido falado como um regresso ao estilo de gravação em quatro pistas que marcou a sonoridade dos vossos primeiros lançamentos. Este é um regresso às origens que consideraram como vital nesta fase da vossa carreira?
Sim, já que finalmente conseguimos sair do nosso vício de camadas de infinitos arco-íris psicadélicos! Quem sabe quanto tempo esta fase irá durar?
O vosso último álbum é bastante diversificado, no sentido em que pode ser considerado como um conjunto de canções que recupera e recontextualiza elementos sonoros dos anteriores. Para além de um regresso a uma dinâmica de baixa-fidelidade, o que é que os vossos fãs podem esperar em termos de sonoridade e conteúdo temático no próximo?
Palhaços, tanto tristes como sagrados. Raparigas que fugiram para viver em mundos de fantasia. Solidão. E muita sensualidade também. Sensualidade estranha e colorida. Patins e cabeleiras afro!
As CocoRosie são muitas vezes vistas como um projeto subversivo e transgressor nos géneros musicais mas também no palco. Quais são as razões que estão por trás dessa identidade artística que criaram para vocês próprias?
Em termos de razões não nos conseguimos lembrar de nada em concreto… É como ter um sonho. Nós somos responsáveis pelos sonhos que temos e também somos responsáveis por seguir esses sonhos.
Ultimamente o feminismo tem cativado o interesse de bandas e figuras pop mais mainstream. Uma vez que fazem parte de um coletivo feminista nova-iorquino, essa popularidade maior é algo que vos motiva a explorar temáticas sobre as problemáticas do género, de forma mais intensa?
O nosso discurso político é intermitente. Ultimamente tenho refletido sobre a dualidade entre instintos animais e o conhecimento intelectual dos humanos. E face a isso, sinto que estamos perdidos enquanto humanos, na medida em que não sabemos se somos animais ou não, nem o que é suposto fazermos. O que devemos fazer para “sermos mais naturais”? Ou será que tudo é inevitavelmente natural? Como é que poderemos escapar à natureza?
Colaboraram recentemente com Bob Wilson. Foi algo que alterou o modo como o vosso processo criativo tem lugar?
Sim! Trabalhámos com ele em duas peças e honestamente é como se ele fizesse parte da nossa família. Tanto eu como a Sierra identificamo-nos com a sua obra, ainda que de modos diferentes. Foi um momento importante e que nos mudou para sempre.

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