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O feitiço do tempo

Texto: NUNO CARVALHO

Faz hoje precisamente 30 anos que se estreou “Regresso ao Futuro”. O tempo foi lisonjeiro com esta aventura fantástica em que Michael J. Fox tem o papel pelo qual será sempre lembrado.

Trinta anos depois do primeiro filme da trilogia Regresso ao Futuro, pode dizer-se que o tempo foi lisonjeiro com esta ficção criada por Robert Zemeckis e Bob Gale. Aquele que foi o maior sucesso de bilheteira de 1985 ficou “congelado” no tempo como um momento feliz na história do cinema de entretenimento e marcado pela presença inesquecível de Michael J. Fox no papel pelo qual será sempre lembrado. De resto, se o ator pudesse na altura ter viajado no DeLorean até 2015 (como faz a sua personagem no segundo capítulo da série), decerto que ficaria destroçado com o que a vida lhe reservou, até porque, pela energia e agilidade que então irradiava, nada fazia prever que o feitiço do tempo sobre ele lançasse uma maldição.

Se a vida é quase sempre uma desilusão, o cinema será sempre também um antídoto contra a crueldade da realidade, o reino da magia que pode distrair-nos desse “hospital em que quase tudo falta” que é a vida e no qual, já dizia o poeta, “morrer é que é ter alta”. E Regresso ao Futuro é um filme de sortilégios. Do sortilégio do tempo e, neste caso, das viagens no tempo. Mas há nele também outro grande tema além da manipulação do contínuo espaço-tempo.

A verdade é que o fulcro desta aventura fantástica, e a sua dinâmica mais interessante, é a relação entre Marty McFly (Michael J. Fox) e o seu pai (interpretado por Crispin Glover), e o investimento que o primeiro põe em ser bem-sucedido. Tal como na série Quem Sai aos Seus, em que a personagem de Michael J. Fox se apercebe de que o pai é um falhado quando visita o canal de televisão em que este trabalha, também o Marty McFly de Regresso ao Futuro tem um pai que é um homem fracassado e refém de um passado que não foi bem resolvido e que teima em não passar, numa espécie de compulsão para a repetição ou “regresso do reprimido”. A viagem até ao ano de 1955 que o protagonista faz acidentalmente a bordo do carro-máquina do tempo inventado por Doc (Christopher Lloyd) acaba por transformar-se inadvertidamente numa corrida contra o tempo para reparar um incidente que pode mudar o destino de Marty, pondo mesmo em risco a sua existência no futuro, e que mudará também a sorte do seu pai, que ganha coragem para pôr fim aos abusos de Biff (Thomas F. Wilson), evitando assim a eterna submissão ao mauzão da fita (que, como todos os bullies, é no fundo um cobarde).

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