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O regresso de um veterano

Texto: NUNO GALOPIM

Naquele que é o seu melhor álbum dos últimos 24 anos, Marc Almond apresenta em “The Velvet Trail” um disco com intemporal assinatura de autor que alerta para um estatuto de veterania que lhe devemos reconhecer.

Comecemos por fazer contas. Neste 2015 em que surge The Velvet Trail contam-se já 35 anos sobre o momento em que o lançamento do single Memorabillia (dos Soft Cell) assinalou a estreia em disco de Marc Almond. Se aplicarmos os mesmos 35 anos sobre a estreia de David Bowie em Liza Jane (lançado sob assinatura Davie Jones and the King Bees, em 1964), estaremos em 1999, o ano de hours… E, sobre o primeiro disco de Bob Dylan (o álbum Bob Dylan, de 1962), daremos por nós em 1997, o ano de Time Out of Mind, disco que assinalou o seu renascimento criativo (e comercial) que reativou a sua carreira e ainda hoje dá evidentes frutos, como o que este ano já encontramos no belíssimo Shadows In The Night. Encaremos assim o novo álbum de Marc Almond como um depoimento de um veterano que, voltando as costas ao que poderia ser um tempo de pré-reforma, e contra o que sugerira há alguns anos, afinal resolveu voltar a criar um disco integralmente feito de canções suas. E com ele lança um dos melhores da sua discografia a solo. Melhor ainda do que Open All Night, álbum de 1999 que representava até aqui o seu momento de referência maior após o mítico concerto 12 Years of Tears que celebrou, em inícios dos anos 90, no Royal Albert Hall, uma dúzia de anos de canções (e lágrimas), traduzindo a primeira ocasião na qual voltou a tocar ao vivo alguns clássicos maiores dos Soft Cell após alguns anos de relativo silêncio feito sobre essa importante etapa da sua obra.

Revelado a bordo dos Soft Cell, dupla com Dave Ball que aliava o sentido de modernidade da emergente pop electrónica a uma verve pop alimentada por heranças da northern soul e um gosto por histórias de desejo e dor com cenário muitas vezes projetado em lados mais sombrios da noite. A amplitude do sucesso alcançado pela versão de Tainted Love e de alguns singles posteriores como Say Hello Wave Goodbye ou What?, adubaram uma ansiedade que cresceu em quantidade e rapidez, conduzindo a uma precoce dissolução do projeto, tendo tanto Dave Ball como o próprio Almond – então via Marc & the Mambas – iniciado carreiras em paralelo antes mesmo de editarem This Last Night in Sodom, que em 1984 colocava ponto final aos Soft Cell (que mais tarde se reuniriam para uma digressão, um disco ao vivo e um novo álbum de estúdio).

Explorando mais a fundo a alma do torch singer que já emergira em alguns momentos da obra dos Soft Cell, mas alargando a paleta instrumentais a novos horizontes e colaborações, Marc Almond encetou no mesmo ano uma obra a solo com o promissor Vermin in Ermine, ao que se seguiram Stories of Johnny (1985) e, com os Mambas, Torment and Toreros (1987), aquele que é, a par com a estreia dos Soft Cell e o seu terceiro álbum a solo, Mother Fist and Her Five Young Daughters (também de 1987), um dos títulos da sua troika de referência. Com o tempo visitaria a obra de Jacques Brel, figuras da chanson e, mais adiante, vários nomes da canção russa. E antes do concerto no Albert Hall apresentaria em The Stars We Are (1988) e The Tenement Symphony (1991) discos de imponente expressão de uma personalidade pop invariavelmente talhada pela alma maior do torch singer, assinando entre esses dois discos colaborações com nomes como os de Nico, Gene Pitney, Trevor Horn e Dave Ball (com quem entrou então numa rota de reaproximação).

Os noventas e os noughties fizeram-se entre álbuns e digressões, assinando alguns momentos maiores, outros nem tanto assim, juntando ainda a reunião dos Soft Cell e, mais adiante, um aparatoso acidente que fez temer pela sua carreira e mesmo a vida. O regresso, a um ritmo menos intenso, fez-se inicialmente com discos de versões, em 2010 apresentando Varieté, álbum que então dava a entender que seria o seu derradeiro disco de originais seus gravado em estúdio.

E de facto durante anos manteve-se fiel a esta ideia, assinando títulos como Feasting With Panthers (de 2011, colaboração com Michael Cashmore, dos Current 93), The Tyburn Tree (de 2014, em parceria com John Harle) ou dando a voz a Ten Plagues (2014), um ciclo de canções de Mark Ravenhill e Connor Mitchell. Mais pessoal seria The Dancing Marquis (ainda do mesmo intenso 2014), uma reunião dos singles avulso que havia lançado nos últimos tempos (e por isso mesmo mais uma compilação que propriamente um álbum de estúdio assim criado de raiz).

E eis que chegamos a The Velvet Trail. Com o nome de um trilho de praia na terra natal de Marc Almond, o disco corresponde a um desafio lançado pelo produtor britânico Chris Braide, há muito radicado em Los Angeles, e que nos últimos anos trabalhara ao lado de Lana del Rey ou Britney Spears. Desconsolado com um possível ponto final em Varieté, e lembrando a Almond que colaborara no álbum de reunião dos Soft Cell (cantando nos coros), juntou-se ao cantor e em conjunto criaram um disco que rompe os códigos do tempo para, sem a necessidade de criar uma máscara de nostalgia ou de ilusão de outros tempos, afirmar sobretudo o que há de intemporal na essência desta obra que agora soma 35 anos de discos.

Os temas centrais à obra de Almond cruzam este que é o seu melhor ciclo de canções em muitos anos e pelo qual tanto encontramos ecos da luminosidade pop que tantas vezes cruzou como marcas de melancolia e desencanto que o torch singer nunca esquece. Com um percurso narrativo dividido em três atos, separados por instrumentais, The Velvet Trail tanto revisita marcas vintage de identidade (como as que escutamos em Life in My Own Way ou em Scar) como reencontra em Demon Lover a linhagem clássica de uma pop que surge entre heranças naturais dos Soft Cell. E junta depois, em When The Comet Comes, em dueto com Beth Ditto, um momento de felicidade maior que, não estivesse o mercado pop mainstream tão surdinho ao que foge à ditadura dos produtores da moda, seria um clássico imediato para ecoar à volta do mundo.

Pop com maiúsculas, grandes coros e arranjos, mas sem perder nunca o leme das mãos de uma voz com um cunho interpretativo bem pessoal, The Velvet Trail nem é uma trip de nostalgia inconsequente nem quer inventar o futuro (Almond já deu aí uma ajudinha quando apresentou Non Stop Erotic Cabaret, em 1981). O dioso é contudo, tal como o foram hours de Bowie ou Time Out of Mind de Dylan, uma afirmação de segura e vibrante veterania. E está na hora de reparar que esse é o estatuto com o qual Marc Almond deve hoje ser entendido. Está também na hora de lhe arranjar quem o ajude a fazer melhores escolhas sobre que canções editar depois como single e uma melhor equipa a fazer telediscos… mas isso é outra história.

“The Velvet Trail”, de Marc Almond, foi editado pela Strike Force (etiqueta do grupo Cherry Red) nos formatos de LP e CD (há uma versão deluxe com extras) e está disponível em edição digital para download e streaming.

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