A coreografia e a expressividade
Texto: ANDRÉ LOPES Foto: CAROLINA PEREIRA
Subindo ao palco depois de uma tarde quente de julho, as CocoRosie enfrentaram uma plateia muito preenchida, expectante face ao alinhamento e ao espetáculo que iria ser posto em cena. Seria este um concerto de apresentação do próximo álbum da banda? Teriam Bianca e Sierra Casady mudado a fórmula vencedora que trouxeram ao último concerto no Lux? As dúvidas dos presentes coexistiam na perfeição com o segundo volume dos Disintegration Loops de William Basinski, que ecoava no sistema de som da sala.
Pisando o palco do Tivoli juntamente com o beatboxer Tez e com Takuya Nakamura (responsável por teclas, sintetizadores e trompete) as irmãs Casady souberam mostrar uma identidade diferente. Mantém-se a excentricidade no modo de vestir e de estar, mas a verdade é que as figuras que dominaram o palco deste teatro lisboeta souberam fazê-lo como se estivessem realmente a interpretar uma peça. As poses e os gestos mostraram uma postura um pouco distinta daquela que reconhecíamos às CocoRosie.
Outrora oscilando entre o dramatismo improvisado e a celebração efusiva, nesta noite houve um especial cuidado com o domínio do espaço que, não abundando em cenografia, viveu muito da interação coreografada entre Bianca e Sierra. Desde a entrada em palco, passando pelo “intervalo” no qual Tez teve oportunidade de fascinar a plateia com a sua técnica, todos os elementos encaixaram em moldes teatrais.
Socorrendo-se de um alinhamento onde o destaque foi dado às canções do último Tales of a GrassWidow (2013), muitas delas foram rearranjadas e repensadas, de modo a darem azo a introduções mais extensas e complexas, garantindo ocasiões perfeitas para a expansividade da voz de Sierra em registo lírico. Houve ainda oportunidade para apresentar algumas das faixas que irão fazer parte do próximo álbum, previsto ainda para setembro deste ano. Apesar de prometido um regresso às ambiências lo-fi que marcaram La Maison de mon Rêve (2004), as novidades que ouvimos esta noite avançam por terrenos mais experimentais, que conjugam a utilização de trompete com os já habituais ritmos de beatbox.
O misticismo cénico acabou por finalmente cair por terra quando, já na fase final do concerto, Bianca incentiva os presentes a levantarem-se dos seus lugares e a deslocarem-se para o fosso da orquestra para que pudessem dançar livremente. Recuperando-se assim o ambiente festivo de outras épocas, Kitty Kat e Werewolf fecharam o alinhamento principal num espírito de comunhão entre banda e público, acentuado no encore em que muitos foram convidados a subir ao palco.
Há muito que a teatralidade não consegue esconder. Apesar da influência clara de Bob Wilson, encenador com quem têm vindo a colaborar nos últimos tempos, é flagrante a forma como as CocoRosie são um projecto que, em placo, ganha uma energia e forma de expressão únicas, que vai muito além de passos ensaiados.

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