Um país dentro de um táxi
Texto: RUI ALVES DE SOUSA
Jafar Panahi é um cineasta mediático. Deve-o ao país em que vive, cujo regime não apenas censurou os seus filmes como o proibiu mesmo de continuar a fazê-los. Mas as suas obras, que procuram criar retratos e lançar reflexões sobre o Irão, ultrapassaram as suas fronteiras e chegaram a todo o mundo, como se se tratassem de um acertado grito de alerta global.
Filmes como Offside: Fora de Jogo e Isto Não é Um Filme despertaram a atenção no mundo ocidental. E o mais recente Táxi revela novamente uma voz crítica e incisiva não apenas sobre o quotidiano no Irão, mas também a visão do regime sobre o que deve ser o cinema.
É algo que se aprende desde a escola, e a jovem “sobrinha” de Panahi, uma das muitas personagens “fictícias” deste filme aparentemente documental, demonstra como o controlo das regras é incutido, desde muito cedo, aos iranianos. Trata-se de um de vários testemunhos impressionantes reunidos em Táxi, uma “coleção” de vinhetas sobre a sociedade iraniana moderna, dominada por ideais e hábitos bem diferentes dos que regem a vida no mundo ocidental.
Jafar Panahi conduz-nos num retrato incisivo de uma sociedade fechada nas suas próprias contradições, através de uma série de personagens que recriam figuras-tipo. Cada um dos atores (cuja identidade permanece anónima) representa uma faceta muito peculiar que o realizador bem conhece. Juntos constroem, como se de peças de Lego se tratassem, a visão muito particular de Panahi sobre a sua cidade e o seu país, escutando tanto os que defendem o regime como os que tentam escapar e tirar proveito da sua “clandestinidade” (como o vendedor de filmes pirateados, cuja exibição foi proibida no Irão).
Tanto duvidamos da realidade como da ficção (será que são mesmo atores, ou indivíduos que imitam o seu “papel” na vida quotidiana para o filme?), porque tanto temos indícios de meta-ficção como também de algum improviso diante das câmaras. Táxi pode parecer mesmo, à primeira vista, um documentário, mas não o é de todo, já que o objetivo de Panahi é o de recriar, através da ficção, muitos dos temas que o preocupam, aproximando-se o mais possível, com os poucos meios que possui, do que poderia acontecer, na realidade, em cada uma das situações retratadas.
Desempenhando o papel do condutor de táxi, no qual entra todo esse desfile de figuras, o realizador mostra como uma das suas “clientes” tem razão: as pessoas do cinema, ao contrário das que estão com o regime, são aquelas em que se pode confiar – porque são os artistas quem ainda mantêm a coragem de mostrar ao mundo a triste realidade que os rodeia, independentemente das consequências. Panahi luta contra o cinema oficialmente aceite pelo país para nos proporcionar uma pequena e singular reflexão que nos toca a todos, mesmo que apreciemos ou não a maneira como o realizador arquitecta a sua crítica.
Este é portanto um táxi onde tudo pode, literalmente, acontecer. E o filme de Panahi é admirável por ter conseguido captar com tanto fulgor, embora sob tão escassos recursos (obtidos graças a vários apoios “clandestinos” e uma produção repleta de secretismos), um conjunto de situações que em conjunto espelham os grandes problemas do Irão no presente. Um filme singular pela sua atualidade, e pelo engenho da realização.
“Taxi”
Realizador: Jafar Panahi
Elenco: Jafar Panahi
Distribuidora: Midas Filmes
3 / 5

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