O ritmo do principado lisboeta
Texto: ANDRÉ LOPES Foto: SANCHA PEREIRA
DJ Babaz Fox, Nídia Minaj e DJ Nervoso foram os escolhidos para desta vez representar a editora Príncipe na noite que, mensalmente, leva ao Musicbox a energia única de uma sonoridade cada vez mais difícil de ignorar. Perceba-se: esta é uma editora independente que, desde 2013, lançou já dez álbuns que espelham uma dedicação para com a divulgação de algo que simplesmente não é possível encontrar em nenhum outro lugar. Muitas vezes classificada redutoramente como kuduro, a verdade é que a música que pudemos ouvir nesta Noite Príncipe vai muito para além disso, num percurso propositadamente imprevisível, a partir do qual se conseguem os melhores resultados.
Apesar de ainda não terem sido editados pela Príncipe, DJ Babaz Fox e DJ Nervoso mostraram ser já senhores de uma atitude que abraça o risco e que não vê na experimentação mais complexa um sinónimo de perda de autenticidade. E se é verdade que muito do que nos deram a escutar tem as suas raízes na música que povoa os guetos e o subúrbios lisboetas, a forma sofisticada com que nos é apresentada, comporta audácia impossível de desvalorizar.
A noite chegou ao seu momento alto com Nídia Minaj que já perante uma casa cheia, soube mostrar como a única figura feminina da Príncipe é um elementos que ali mais se destaca. A partir de uma criatividade que insiste num diálogo entre sintetizadores agrestes e os ritmos que o nosso eurocentrismo nos faz reconhecer como “africanos” – tanto no disco Danger (2015) como nas faixas escolhidas esta noite – o que acontece é que esta sonoridade geograficamente distante do afrohouse vem a encontrar no termo “batida de lisboa”, sugerido pela própria Nídia, uma semântica que faz jus à essência deste som.
O que é feito pelos artistas da Príncipe avança com uma proposta de reflexão sobre o que o significado e o impacto da etnia, e sobre a forma como Lisboa ganha com um diálogo empático para com as origens do seu povo e da sua identidade cultural. Se muitas vezes discutimos sobre o valor do que é ou não genuíno, podemos ter a certeza de que o que é feito pelos músicos da Príncipe rejeita pretensiosismos e faz-se valer daquilo que une os seus membros: um gosto evidente em trabalhar a música dos seus espaços, amplificando-a para o contexto global. Todos agradecemos, enquanto esperamos pela próxima noite da editora.

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