Últimas notícias

O ritmo do principado lisboeta

Texto: ANDRÉ LOPES Foto: SANCHA PEREIRA

A 10 de julho o Musicbox voltou a receber mais uma Noite Príncipe. Cada vez mais populares, as festas onde se celebram os ritmos mais fascinantes das periferias da capital, são já um marco na noite de Lisboa.

DJ Babaz Fox, Nídia Minaj e DJ Nervoso foram os escolhidos para desta vez representar a editora Príncipe na noite que, mensalmente, leva ao Musicbox a energia única de uma sonoridade cada vez mais difícil de ignorar. Perceba-se: esta é uma editora independente que, desde 2013, lançou já dez álbuns que espelham uma dedicação para com a divulgação de algo que simplesmente não é possível encontrar em nenhum outro lugar. Muitas vezes classificada redutoramente como kuduro, a verdade é que a música que pudemos ouvir nesta Noite Príncipe vai muito para além disso, num percurso propositadamente imprevisível, a partir do qual se conseguem os melhores resultados.

Apesar de ainda não terem sido editados pela Príncipe, DJ Babaz Fox e DJ Nervoso mostraram ser já senhores de uma atitude que abraça o risco e que não vê na experimentação mais complexa um sinónimo de perda de autenticidade. E se é verdade que muito do que nos deram a escutar tem as suas raízes na música que povoa os guetos e o subúrbios lisboetas, a forma sofisticada com que nos é apresentada, comporta audácia impossível de desvalorizar.

A noite chegou ao seu momento alto com Nídia Minaj que já perante uma casa cheia, soube mostrar como a única figura feminina da Príncipe é um elementos que ali mais se destaca. A partir de uma criatividade que insiste num diálogo entre sintetizadores agrestes e os ritmos que o nosso eurocentrismo nos faz reconhecer como “africanos” – tanto no disco Danger (2015) como nas faixas escolhidas esta noite – o que acontece é que esta sonoridade geograficamente distante do afrohouse vem a encontrar no termo “batida de lisboa”, sugerido pela própria Nídia, uma semântica que faz jus à essência deste som.

O que é feito pelos artistas da Príncipe avança com uma proposta de reflexão sobre o que o significado e o impacto da etnia, e sobre a forma como Lisboa ganha com um diálogo empático para com as origens do seu povo e da sua identidade cultural. Se muitas vezes discutimos sobre o valor do que é ou não genuíno, podemos ter a certeza de que o que é feito pelos músicos da Príncipe rejeita pretensiosismos e faz-se valer daquilo que une os seus membros: um gosto evidente em trabalhar a música dos seus espaços, amplificando-a para o contexto global. Todos agradecemos, enquanto esperamos pela próxima noite da editora.

Deixe um comentário