As duas faces de Brian Wilson
Texto: RUI ALVES DE SOUSA
O filme de Bill Pohlad caminha, sem recorrer a excessivas liberdades criativas, entre situações que marcaram o percurso de Brian Wilson na música e os espaços da sua vida privada. Através de dois períodos da sua biografia encontramos Wilson tanto nas gravações do álbum mais marcante dos The Beach Boys (e incompreendido na época), assim como na tentativa de criação do seu sucessor, como também numa fase posterior, decadente, em que o vemos dominado por um psiquiatra e o seu método ditatorial de terapia.
Love & Mercy mostra-nos, por isso, dois “Brians” em etapas de vida diferentes, interpretados também por atores distintos. O primeiro, dos anos 60, década marcada pelo maior sucesso comercial dos Beach Boys (e as expressões mais evidentes da energia criativa do músico), é encarnado por Paul Dano, que leva muito a sério a atenção ao detalhe não só nos aspetos visuais como também em grande parte do argumento. Deparamo-nos com os bastidores de Pet Sounds, desde os momentos das sessões em estúdio até às muitas discussões entre a família Wilson sobre o passo demasiado arriscado que se estaria a tomar com este disco.
Nessas cenas que recordam as sessões de gravação do álbum, há uma clara opção pelo realismo, quase documental, na elaboração de todos os pormenores técnicos, que tentam aproximar-se o mais possível do ambiente criado por Wilson e das experiências e inovações técnicas que concretizou em cada música. Grande parte desses momentos foram improvisados, mas a seriedade das interpretações dos atores não destoa nesse lado realista, já que Dano (que tem uma banda própria, na realidade), conduz com grande rigor os músicos (autênticos) que o acompanham, tendo por base as ordens e ideias de Wilson, e que ficaram registadas em diversos takes de conversa que sobreviveram até hoje. O ator e o realizador conseguiram construir uma encenação tão fiel à realidade que o próprio biografado, ao visitar um dia o dècor, ficou deslumbrado por toda aquela autenticidade – como contou o argumentista Oren Moverman num programa de rádio dos EUA.
Mas este primeiro Brian de Love & Mercy não é só autêntico no lado criativo. Na construção da sua dimensão mais pessoal, encontramos, de forma fiel e intensa, as divergências com o pai e com os irmãos e restantes elementos do grupo (mais todo o consumo de drogas e outras luxúrias dos sessentas) que fazem com que ele viva entre a angústia e a frustração, sob pressão de ter de fazer um álbum facilmente agradável para as massas e sem poder ter a sua voz. Entre a alegria da música e a dureza da vida real, Brian quer encontrar o seu espaço – e Paul Dano representa com vivacidade o sufoco da mente de Brian, captando as múltiplas depressões e constantes mudanças de humor, e também o génio criativo enérgico e complexo do autor.
Entre as duas épocas do filme estaria para ser filmada uma terceira, a dos anos 70. Philip Seymour Hoffman interpretaria esse Brian Wilson, marcado por outros álbuns e alguns fracassos dos Beach Boys. Na sequência da morte de Hoffman os produtores e o realizador descartaram esta ideia, já que acreditavam que só ele poderia interpretar da melhor maneira esse Brian com excesso de peso e sem um rumo.
John Cusack interpreta o Brian Wilson decadente, de meados dos anos 80 até ao início da década seguinte. Depois da fase difícil dos setentas e das cada vez maiores instabilidades emocionais do músico, o terapeuta Eugene Landy aparece para o salvar… aparentemente. No tempo que o filme nos apresenta, Brian já se tornou num homem com medo, com dificuldade em estabelecer contacto com outras pessoas, e que está dominado pelo método algo maquiavélico do psiquiatra A sua vida está a ser destruída por uma forte medicação controlada por Landy, que não está a ajudar Brian a voltar a “ressuscitar” e a livrar-se dos seus demónios, mas a comandá-lo como se ele fosse um autómato, que não resiste e está automaticamente disposto a obedecer a todas as ordens.
Vemos o artista arruinado através dos olhos de Melinda Ledbetter, a mulher que, num futuro próximo, se tornará sua mulher, e com ela vamos conhecendo, a pouco e pouco, o lado negro do médico que “cuida” de Wilson, como se de um filme de terror se tratasse. As interpretações de Cusack como de Paul Giamatti (como Landy) estão tão próximas dos factos que Brian Wilson, após ver o filme, contou numa entrevista que se sentiu realmente assustado, e que a interpretação de Giamatti parecia uma “ressurreição” do homem que quase o levou a cair no abismo.
Os detalhes da “evolução” da relação entre Brian e a sua futura mulher devem-se ao facto da própria Melinda ter estado muito envolvida na produção do filme, o que auxiliou a que a tensão provocada pela história do terapeuta fosse muito bem articulada com o outro lado de “fuga” à realidade que a paixão vai proporcionar ao protagonista. Entre os momentos bons e os medos provocados por Landy e o seu regime manipulador de terapia, há espaço para uma reflexão sobre o passado, o presente e o futuro de Brian, filmando as constantes perturbações e ilustrando a maneira como Melinda lhe permitiu regressar à normalidade e à música, sem pressões exteriores que condicionaram, até então, as suas ideias e o seu modo de pensar.
O que une os dois Brians do filme é a forma como, nas duas épocas, tanto um como o outro têm dificuldade em encaixar na vida ou nas ideias que são impostas. O desejo de liberdade criativa do primeiro é o desejo de liberdade social, fora dos controlos médicos de Eugene Landy, do segundo. Love & Mercy consegue ser uma recriação fiel, e cativante, de uma vida conturbada, ligando-se ao cinema sem se deixar ir pelas facilidades de tantos outros filmes biográficos. Um biopic de enorme realismo e de grande sensibilidade, que demonstra uma bonita dedicação à vida de um génio da música.

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