Rumo a parte nenhuma
Texo: NUNO CARVALHO
Antes da primeira imagem de Güeros, é-nos dito, à laia de epígrafe, que, de acordo com o Breve Dicionário de Mexicanismos da Academia da Língua Espanhola, a palavra do título significa ovo não fertilizado, homem doente e pálido ou alguém de cabelo louro ou pele clara. Dentro do espetro semântico do vocábulo, o significado cujo sentido metafórico melhor parece aplicar-se a este primeiro filme do mexicano Alonso Ruizpalacios é precisamente o de “ovo não fertilizado”. De facto, o trio de personagens centrais transpira uma sensação mental de liquidez, de deliquescência, de evanescência. Tal como um ovo não fertilizado, que, ao contrário do fertilizado, se posto contra uma luz brilhante, não revela um centro escuro, mas sim transparente, estas são personagens que, de certo modo, recusam a densidade interior, preferindo manter um espírito vagante, vogante, nómada, desapegado.
Ambientado na Cidade do México, durante a greve estudantil de 1999 (que durou 292 dias), na Universidade Nacional Autónoma do México, Güeros é uma espécie de road movie que não viaja para muito longe e que segue os dias de Federico (Tenoch Huerta), conhecido pela alcunha de “Sombra”, do seu irmão adolescente Tomás (Sebastián Aguirre), que a mãe envia para viver uns tempos em casa daquele, e de Santos (Leonardo Ortizgris), amigo e companheiro de apartamento do primeiro. Acossados pela vizinhança, e na sequência de um ataque de pânico de Federico, o trio é obrigado a partir numa viagem sem destino que tem como pontos de referência uma líder estudantil (Ilse Salas) e a busca utópica por um cantor de rock que Tomás ouve obsessivamente num leitor de cassetes como forma de manter viva a memória do pai.
Foi já notado que Güeros, vencedor do prémio para o melhor filme de estreia na edição deste ano do Festival de Berlim, sugere uma homenagem à Nova Vaga francesa. Não há contudo no filme de Alonso Ruizpalacios qualquer atitude copista ou repetidora, antes um poder inventivo e experimental que tem a sua própria impressão digital. De resto, este filme está, na verdade, mais próximo de uma nova vaga de cinema mexicano em que se enquadra um cineasta como Fernando Eimbcke. Com uma fotografia a preto e branco e personagens dominadas pelo tédio e pelo aborrecimento, Güeros está próximo de um filme como Temporada de Patos (a primeira longa de Eimbcke), embora seja formalmente mais criativo, desafiante e mutante (é interessante observar como o realizador vai mudando de tom ao longo da narrativa, sem recear essa metamorfose, enxertando-lhe inclusive uma dimensão metaficcional). Uma estreia auspiciosa que merece a atenção do público cinéfilo.
“Güeros”
de Alonso Ruizpalacios
com Tenoch Huerta, Sebástian Aguirre, Ilse Salas, Leonardo Ortizgris
Distribuição: Legendmain Filmes
4 / 5

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