Os 50 anos do choque elétrico de Bob Dylan
Texto: NUNO GALOPIM
Bob Dylan era já, no verão de 1965, uma figura de primeiro plano capaz de influenciar outros músicos (entre eles os Beatles) e ser a voz crítica de uma geração. Os álbuns que editara desde 1963 tinham atingido galardões de ouro ou platina nos EUA, era entusiasticamente admirado entre os seguidores da cena folk e através dos Byrds as suas canções começavam a conquistar novas vidas e públicos. Porém, instatisfeito com o que poderia ser um espaço fechado de ação, resolveu alargar os horizontes da sua música a terrenos mais habituais na música rock. Em março de 1965 apresenta uma série de canções nas quais se faz acompanhar por uma banda elétrica em parte do alinhamento do álbum Bringing it All Back Home. Depois, a 20 de julho, lançou em single o eletrizante, e hoje clássico, Like a Rolling Stone. E compôs o bouquet da mudança quando, cinco dias depois, faz hoje 50 anos, surpreendeu com uma banda elétrica a plateia do festival de Newport, que no passado o idolatrara em atuações ali vividas entre 1963 e 64, quando àquele mesmo palco levara alinhamentos acústicos.
A história recorda que, durante a tarde de dia 24, num workshop integrado no festival, apresentara três temas num breve set acústico. Dia 25 a sua atuação aconteceria entre as passagens pelo palco de Cousin Emmy e dos Sea Island Singers, figuras claramente ligadas a expressões mais tradicionais da folk. Mas foi com uma banda elétrica que entrou em palco, começando por tocar Maggie’s Farm e, logo depois, Like a Rolling Stone e ainda Phantom Engineer (na verdade uma primeira versão de It Takes a Lot to Laugh, it Takes a Train to Cry).
Incomodada, a plateia reagiu de forma evidente. Mas, em palco, Dylan, continuou o desfile das canções. As versões dos quês e porquês, dos prós e contras, levantaram várias visões e até mesmo narrativas quase de conspiração. Na biografia The Lives of Bob Dylan, Ian Bell falava já mesmo de revisionismo, de memórias perdidas e recuperadas, lembrando que houve quem defendesse que havia já gente a preparar palavras de ordem para levantar o desacato ou sugestões de que quem tomava conta do som tivesse tornado impossível de ouvir a voz de Dylan durante a atuação.
Certas contudo são muitas das críticas manifestadas depois da performance, com vozes relevantes do circuito folk a mostrar um descontentamento pelos caminhos que seguiam as letras das canções e sobretudo o facto de se apresentar acompanhado por uma banda elétrica.
Dylan, que saíra do palco sob fortes apupos da plateia, ainda regressou depois de insistente chamada de Peter Yarrow (o Peter dos Peter, Paul & Mary). Pediu uma harmónica. E choveram harmónicas… Tocou então, no mais consensual registo acústico, Mr Tambourine Man e despediu-se com It’s All Over Noe, Baby Blue… Durante 37 anos não regressaria a Newport.
Cinquenta anos depois dessa semana em que Dylan ligou a sua música à eletricidade uma série de edições em livro assinalam o reconhecimento de uma efeméride histórica para a música popular. Dois deles refletem precisamente a carga revolucionária do momento: Dylan at Newport, 1965: Music, Myth and Unmeaning, de Edward Renehan e, a sair apenas em agosto, Dylan Goes Electric, de Elijah Wald. Esta semana foi lançado o ensaio The Political World of Bob Dylan, de Jeff Taylor, sobre o significado e impacte da sua obra. Refractions of Bob Dylan, de Eugene Banauch, a publicar dia 30, explora a sua figura como ícone americano.
As memórias registadas da passagem de Dylan pelo festival de Newport estão ainda documentadas no filme de 2007 The Other Side of The Mirror, de Murray Lerner, que junta momentos das suas atuações entre 1963 e 65.

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