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Passa a bola, Molero!

Texto: JOÃO SANTANA DA SILVA

Dinis Machado, o homem, deixou-nos em 2008. Parece que foi ontem. Ou parece que foi há décadas. Mas nós, leitores, não temos direito a queixar-nos. Porque escritores como Dinis Machado, o criador, nunca nos deixam. Ao publicar “A Liberdade do Drible”, a Quetzal contribui para isso, trazendo uma antologia inédita de crónicas de futebol que o escritor espalhou por vários periódicos.

Quando, algures entre 1993 e 1994, o jornal A Bola convidou Dinis Machado (1930-2008) para escrever umas crónicas desportivas enquanto “cronista eventual”, realizou um sonho do escritor. Há décadas que este fazia vida da escrita desportiva para vários jornais portugueses, entre eles o Record, o Norte Desportivo, o Diário de Lisboa ou o Diário Ilustrado, mas A Bola era a peça que faltava. Era o golo de honra antes do cair do pano. Isto porque todos “nós, os desportivos, reconhecíamos o fulgor e a importância de A Bola”, diz Machado. E, por essa mesma razão, esteve a um passo de, nos anos cinquenta, enviar para lá o primeiro artigo.

Não enviou. Andou por aqui e por ali (ver em cima) e escreveu, quase parece, em todos os sítios que não A Bola. Até ao feliz convite. E foi a muitos destes textos escritos após o convite – mais alguns escritos, por finais dos anos oitenta, em sítios como O Jornal, o Tal & Qual, o Guia da Semana e A Bola Magazine – que a editora desta coleção, Marta Navarro, foi buscar o ouro para esta antologia publicada pela Quetzal. Uma antologia que, diz a editora logo no início, terá um “livro-irmão” a publicar brevemente: O Lugar das Fitas, reunião de crónicas de Dinis Machado (igualmente dispersas, calcula-se) mas sobre cinema.

“Quando escrevemos acerca dos outros também fazemos autobiografia”, diz Dinis Machado. Que é como quem diz, quando escrevemos sobre futebol escrevemos sobre nós mesmos. E isso nem é tudo. Dinis Machado, escritor e autor de uma das obras maiores (para muitos, a maior) do pós-25 de Abril, O Que Diz Molero, mostra aqui uma versão esférica e lúdica da famosa tirada de Oscar Wilde sobre o sexo. Ou seja, lendo as crónicas de Machado, quase se poderia dizer que tudo na vida é sobre futebol, menos o futebol, que é sobre a vida, sobre nós mesmos. Pelo menos, para quem já foi miúdo e esfolou os joelhos a atirar-se de cabeça a cruzamentos rasantes ou a saltar para impedir um remate colocado de entrar no canto distante da baliza, este tanto é verdade.

Prova disso é a visão do passe curto a meio-campo como sendo uma espécie de engonhanço filosófico-político, enquanto as grandes questões aguardam para serem discutidas na grande área. “Dizia o Américo motorista, do clube tosse-e-fuma do Manuel Bandeira, cigarreiro e catarral, sombrio e humorista: – Deviam era marcar golos à miséria e às relações das pessoas. O resto é jogar para a bancada.” Este manifesto em espírito de Verão Quente leva, pois, Dinis Machado a declarar: “Se o futebol não servisse para mais nada […], podia sempre reclamar a sua vocação de metáfora inventiva dos problemas humanos.”

Há tempos, um amigo muito dedicado ao basquetebol referiu, com algum desdém, que o futebol é inferior a desportos que, com as suas regras, relógio e paragens de tempo, que permitem um maior controlo sobre o jogo. O futebol, dizia ele, é um jogo tão aleatório que raramente basta ser bom no que se faz em campo. Curiosamente, Dinis Machado evoca isso mesmo e dá-lhe uma beleza bem maior, quase fazendo desse acaso um dos grandes trunfos. “A grande euforia de qualquer arte espontânea (chamemos-lhe assim por razões de abertura), como o futebol, é que está a fazer-se no movimento, ainda não é sinfonia, o guache, o livro, o filme, a peça que se fez a seu tempo. É efémero como o bailado, decide-se no apuro e na linguagem do corpo, mas tem uma carga quase infinita de rumos imprevisíveis e ocasionais. A Margot Fonteyn, de um modo geral não falhava o movimento – mas o Eusébio, às vezes, a dois metros da rede, chutava sobre a barra. Impossivelmente”, diz, comparando-o a outras artes, mais rigorosas. “O futebol é impreciso e inesperado, cheio de mortalidade”.

Mas lá está. Se o futebol é sobre a vida, então a vida, por vezes, parece emoldurada por qualquer evento desportivo. Se as eleições legislativas são de quatro em quatro anos, também o são os mundiais de futebol. Com a vantagem de, volvidos dois anos, haver um campeonato europeu, enquanto os jogadores em São Bento são mais estáticos, previsíveis e alheios à criatividade do que qualquer seleção de António Oliveira. Cromos repetidos, portanto.

Tal como Nick Hornby, em Fever Pitch, associava momentos-chave na sua vida a jogos específicos a que assistiu no estádio do seu clube, o Arsenal, ou nos campos dos adversários, também Dinis Machado liga jogos inesquecíveis a acontecimentos profundamente marcantes. Mas, ao contrário de Hornby, põe o futebol no seu lugar. “O meu avô João morreu no dia do Portugal-Espanha dos 4-1, no Jamor, o desafio de futebol que eu mais queria ver e que menos falta me fez. Solavanco brutal, já em plena adolescência, deu-me noção aguda, intransmissível, do primeiro grande sentimento de perda.” O futebol ajuda a lembrar, mas não é mais do que um dia no calendário, um tique de infância, um ranger familiar de uma cadeira da casa antiga. O importante anda ali em redor, nas entrelinhas, nos intervalos, nas bancadas.

Falar de Dinis Machado é falar de um dos maiores mas mais generosos escritores portugueses do século XX. Como se oferecer O Que Diz Molero aos portugueses (e a todas as línguas que tiverem a sorte de o ter traduzido) fosse algo que se fizesse por qualquer responsabilidade, por qualquer obrigação que o escritor tinha. Fez, escreveu, publicou e foi descansar, talvez até jantar um bitoque. Há uma certa modéstia na sua escrita que devia, até, fazer escola em Portugal, mas não faz.

Mas falar dele é também falar de Dennis McShade, uma espécie de Barão de Teive são inventado por Machado para ser um seu alter-ego. Quando, há uns anos, a Assírio & Alvim publicou a trilogia de romances policiais escritos por Dennis/Dinis e ainda a inédita novela Blackpot, foi simultaneamente filantrópica e cruel. Filantrópica, porque fez serviço público e nos trouxe livros que estavam perdidos no tempo – dando-me a mim, por exemplo, o privilégio de poder ler três pérolas da literatura portuguesa que talvez tivesse tido preguiça de procurar de qualquer outra forma. Cruel, porque também nos deu, além dos livros, ainda mais saudades de Dinis Machado, de quem não conseguiremos ler livros novos. A mesma editora já tinha feito o mesmo uns anos antes, ao publicar as Memórias de um Craque, textos “menores” mas brilhantes de Fernando Assis Pacheco, outro escriba de ouro que não volta.

Por isso, ao reunir algumas crónicas de futebol e editar este volume, a Quetzal traz-nos, às nossas mandíbulas ingratas e sedentas de sangue, pequenos textos de um grande escritor, o que, invariavelmente, sabe a pouco. E a dimensão do livro (sabendo que escreveu em jornais desportivos durante mais tempo) deixa no ar uma certa sensação de que se poderia fazer um livro de trezentas páginas no mesmo espírito, apesar das razões para não o fazer serem sempre burocráticas e às mãos cheias.

Sabe bem aos famélicos da bola, mas cai em estômago vazio aos saudosistas leitores de Dinis Machado, que, ainda assim, reconhecerão a fórmula, aqui explicada nas palavras do próprio pai de Molero: “Fico a pensar no futebol, no humor da minha gente do futebol, nessa pequena felicidade que vai ficando para trás, enquanto avanço para casa, já dentro do artigo que vou escrever: brincalhão, um pouco emocionado e simples”.

Dinis Machado, A Liberdade do Drible, Quetzal Editores, 2015

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