A busca existencialista da salvação
Texto: RUI ALVES DE SOUSA
Estamos na Argélia, no ano de 1954. Foi nessa altura que começou uma longa, violenta e dolorosa guerra que culminou, em inícios da década de 60, com a declaração da independência face à França, até então a potência colonial que detinha o poder. É no contexto dos primórdios desta guerra que o realizador David Oelhoffen decidiu localizar as personagens de Longe dos Homens, uma adaptação muito livre de um conto de Albert Camus. Um professor de uma escola primária que apoia crianças argelinas vê-se no meio de uma intensa perseguição mútua entre os dois povos, e acabará por abandonar o seu posto para ajudar um homem procurado pelas autoridades. Uma “aventura” que revelará a tristeza da vida humana em situações difíceis, como também a forma como o racismo e a lei do mais forte condicionam, de forma dura e irracional, a paz e a compreensão entre os homens.
O filme acaba por ser, assim, uma reflexão sobre a condição humana em tempo de guerra. Ou melhor dizendo, em tempo de guerras, físicas e psicológicas. Longe dos Homens aborda questões que dizem tanto ao conflito bélico como ao plano da relação com o outro, explorando os preconceitos entre comunidades, credos e etnias. O que o protagonista enfrenta é uma série de desvios ao seu percurso, de pequenas armadilhas que representam pequenos conflitos internos que, de forma mais ou menos intensa, pontuam a sua personalidade e o confronto com o seu protégée – e o filme faz disso, da relação entre dois atores exemplares, uma caminhada sem fim até ao que de mais e de menos humano há na nossa espécie (no Bem e no Mal).
Viggo Mortensen é o motor que dá algum sentido a uma narrativa desorientada e perdida nas suas pretensões. Este é um dos grandes desempenhos de um ator constantemente subvalorizado, que através do seu olhar profundo e da sensibilidade da sua interpretação, consegue tocar o espectador e oferecer algumas das emoções que faltam à essência de Longe dos Homens.
Vale ainda a pena dizer que de camusiano não há assim tanto neste filme como parece (ou como muitos parecem querer entender). Grande parte dos pontos de reflexão propostos por Oelhoffen saem ao lado, numa misturada de cenas e situações que perdem o sentido à medida que a história não consegue avançar com grande garra ou originalidade. Se há existencialismo aqui, ou marcas de inspiração na obra e no pensamento de Camus, só o encontraremos realmente (e não aparentemente) no papel de Mortensen e na bela banda sonora composta por Nick Cave e Warren Ellis, que cumpre um papel filosófico que o filme não conseguiu concretizar.
Longe dos Homens foi filmado em suporte digital e, por isso, é conduzido dentro dos limites do que a tecnologia permite. No entanto, o seu conteúdo e as suas intenções parecem não ser adequadas para esse formato, e fica-se com a sensação que a beleza da fotografia sairia mais vencedora com outro tratamento visual. De resto, no que o filme tem de mais clássico (e que, por acaso, é o que tem de melhor) na sua estrutura é o que sobressai e que se eleva, em relação ao interesse irregular que a câmara mantém na história. Há aqui alguns pequenos momentos de bom cinema que, felizmente, não conseguem passar despercebidos.
“Longe dos Homens”
Realizador: David Oelhoffen
Elenco: Viggo Mortensen, Reda Kateb, Djemel Barek
Distribuidora: Alambique
3 / 5

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