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Memórias e ecos do fim da II Guerra Mundial

Texto: NUNO GALOPIM

O mais recente número da revista “BBC History” apresenta dois artigos sobre o final e as sequelas da II Guerra Mundial recordando cenas de vingança na Europa e questionando se houve justificação para o lançamento das bombas em Hiroxima e Nagasáqui.

No verão de há 70 anos – ou seja o de 1945 – um comboio de refugiados parava junto da fronteira da atual Eslovénia, a caminho da Alemanha. Os passageiros falavam alemão e estavam a ser expulsos do país após o armistício. Em Prerov uma milícia local dá ordem aos refugiados para que saiam do comboio, alegando que entre eles procurava nazis que ali se pudessem estar a esconder. Uma vez saídos foram alinhados e fuzilados ali mesmo. 71 homens, 120 mulheres e 74 crianças. O massacre foi um entre os que nesse mesmo verão, segundo historiadores checos, conduziram a um destino semelhante cerca de 25 a 40 mil outros alemães (e também austríacos ou cidadãos com a mesma língua como expressão principal). O protagonista do massacre em Prerov chegou a ser julgado, sendo-lhe questionado o porquê da morte das crianças, ao que terá respondido que, mortos os pais, o que poderia fazer com os filhos? Apesar de uma breve pena, acabaria por fazer carreira na polícia ao serviço do novo regime que entretanto tomara o poder na (então) Checoslováquia.

Esta é uma das histórias de vinganças que a revista BBC History revisita num artigo da sua edição de agosto de 2015 no qual lembra cenários de morte e ajustes de contas e até mesmo de guerra civil que grassaram por toda a Europa depois do fim da II Guerra Mundial. Cenários de violência étnica no que então era a Jugoslávia – e que tiveram consequências décadas depois -, de guerra civil na Grécia, de migrações em grande escala ou do continuar de operações da resistência francesa até 1948 ajudam a traçar cenários que decorreram dos acontecimentos ocorridos há 70 anos.

A capa desta edição destaca contudo o final da guerra no Pacífico, juntando uma série de historiadores e autores para discutir se o lançamento das bombas sobre Hiroxima e Nagasáqui seriam de facto necessários.

Antony Beevor, um dos mais conceituados autores com obra sobre este período, e que este ano lançou o livro Ardennes 1944: Hilter’s Last Gamble, defende que o presidente norte-americano Harry Truman teria outra escolha, sublinhando que os japoneses nunca se renderiam e que civis seriam inclusivamente mobilizados para servir até como bombas suicidas contra os tanques aliados. Já Martin J Sherwin, autor de American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J Robert Oppenheimer, acredita que os japoneses se renderiam de qualquer forma, lembrando que, uma vez iniciada a invasão soviética [que começa a 8 de agosto de 1945 na Manchúria], o exército imperial não teria argumentos para manter a defesa, esperando mesmo que a URSS ocuparia territórios no norte do Japão. O autor defende então que Truman não queria que os russos pudessem reclamar um papel na ocupação do Japão e vê as bombas lançadas como um “erro e uma tragédia”.

A bem do artigo, que as estes dois autores junta as opiniões de vários outros, note-se o cuidado da revista em escolher um igual número de vozes a favor e contra o lançamento da bomba.

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