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O diretor

Texto: JOSÉ MIGUEL SARDO

Não diga que não tenho razão, ou que a perdi. Não grite que não sei com quem estou a falar ou que não sei o que digo. Não fale de um problema de autoridade e, sobretudo, deixe de ameaçar chamar a polícia. Nenhum dos dois vai sair daqui enquanto o senhor não ficar a saber o que penso do “excelentíssimo sr. vice-diretor” desta empresa. Sim, estou a falar de si, João.

Aí de pé, com as mãos levantadas e esse ar de espanto, contido, para não soltar um ligeiro soluço de triunfo ou um bocejo de profundo tédio. Você é desse tipo de gente que conseguiu chegar aqui sem fazer grandes esforços na vida e por isso, foi-se tornando cada vez mais ambicioso, para que ninguém pudesse aperceber-se da sua incompetência. Dessa gente que, durante a juventude, foi “hippie” porque os pais eram novos ricos e que, anos mais tarde, tornou-se “yuppie” pois os pais não passavam de velhos ricos. Nunca trabalhou só por dinheiro pois sabia que não podia merecer o que ganha. Em vez de tentar ficar de pé, vacilou e preferiu encostar-se a alguém como eu. Não sei se me irrita mais a sua cobardia ou a sua cegueira. Eu também cheguei aqui, como o João, à procura de um mentor a quem mentir para poder parecer menos do que sou e, uma vez amigo e confidente, poder tentar convencê-lo de que é menos do que parece. Tipos como o João e eu, são pessoas que sabem aproveitar uma boa oportunidade: são oportunistas. São desse tipo de seres humanos que sabem mostrar interesse pelas pessoas com quem trabalham: interesseiros. Tipos como o João e eu, gostam de mostrar que têm orgulho no seu trabalho e por isso são admirados por todos: são orgulhosos e vaidosos.

Em qualquer empresa a admiração esconde sempre uma vingativa inveja, sobretudo quando se é o número dois, o meu número dois, o vice-diretor. Quando estava no lugar do João irritava-me esse prefixo que parece querer asfixiar em permanência o verdadeiro cargo. Por vezes enrouquecia a voz ao início da frase para tossir apenas a palavra “diretor”. “Vice” de vício oposto à virtude de ser o responsável supremo da direção. Eu sei que não é fácil ser o tipo que só existe quando “o diretor não está” ou sobretudo quando, “o diretor está em viagem”. Lentamente, o facto de poder existir somente durante a ausência de outro, leva-nos a começar a pôr em prática um plano de aniquilação, em sua presença. A fórmula é fácil, primeiro diz-se, “não tenho responsabilidade para assumir essa decisão”, para mais tarde poder afirmar, em tom repreensivo, “desculpe, mas a responsabilidade da decisão foi sua”. Não é difícil tramar um diretor, basta apenas lembrá-lo todos os dias que chegou aqui como tu, primeiro, a falar das decisões dos outros para evitar tomar qualquer tipo de decisão, e depois, a incumbir outros de tomar decisões por ti. É por isso que se organizam dezenas de reuniões, se pedem centenas de relatórios, pareceres, auditorias, criam-se comissões de reflexão e de acompanhamento e de avaliação e, caso algo falhe neste processo de decisão, criam-se comissões de inquérito que, por sua vez, propõem a criação de comissões de reflexão. Adicione-lhe férias de Verão e do Natal, Carnaval e Páscoa, feriados e folgas, deslocações profissionais e ausências por questões pessoais e tem garantida uma carreira de sucesso como decisor. Tudo podia passar desapercebido se não existisse, um Vice-Diretor, a única pessoa na empresa que o Diretor não consegue enganar.

Não olhe assim para mim João. Sei perfeitamente como contrair os mesmos músculos da cara, cerrar os maxilares para não apertar os dentes, fitar alguém entre os olhos para acenar a cabeça ao ritmo de frases assassinas, repetidas apenas em pensamento. Um Vice-Diretor não é pago para dizer o que pensa, mas só para pensar no que diz que pensa o Excelentíssimo Senhor Diretor. Os homens mais poderosos de uma empresa são, ao mesmo tempo e ao mesmo nível, o estagiário e o Diretor, um é honesto por ignorância tanto quanto o outro o é por arrogância. São os dois extremos que definem o percurso em qualquer empresa: do tipo honesto que ainda não aprendeu a mentir, ao mentiroso que finalmente chegou a uma posição em que pode ousar parecer honesto. A diferença salarial e de cilindrada do carro de cada um deles, guardado em parques de estacionamento zelosamente distintos, evita qualquer risco de proximidade que possa desmascarar esta grande farsa. A sua frustração e revolta, João, a mesma que sentia quando estava no seu lugar, é a derradeira prova da ascenção na carreira, é a náusea do alpinista no encalço do cume. Por isso, nos primeiros tempos, transpiramos humildade: “não se preocupe senhor diretor que eu já assinei os papéis por si”. Mas, como bem sabe – e não continue a acenar assim com a cabeça – nesta ascensão, o cinismo, é um exercício extenuante. E, anos mais tarde, o tom muda: “Ó Joaquim pá, não pode ser, esqueceste outra vez de assinar os papéis”. Os tipos como o João e eu têm essa capacidade de disfarçar a mediocridade sendo implacavelmente exigentes com os outros em tarefas absolutamente desnecessárias ou perfeitamente evidentes. Por vezes pode ser irritante, como quando, no seu lugar, nos pedem: “Já verificou que todos os contratos foram assinados antes das entregas desta manhã?”; mas a maior parte das vezes é simplesmente humilhante: “Não pode ir por mim ao jantar do pessoal no Sábado? É que, eu, nessa altura, vou estar no seminário da direção no Algarve”. E o curioso é que, depois de anos a detestar esta perfumada arrogância que desesperadamente tenta ocultar o odor a mediocridade, descobri que essa forma de remexer o orgulho dos outros, de dar asas e desplumar, de pôr e dispor é hoje a minha principal tarefa. O mérito do trabalho do empregado é sempre do diretor, enquanto as falhas são sempre coletivas. O alpinista tem que cravar uma bandeira no cume para poder finalmente dominar a paisagem. Não diga que percebe a minha amargura, não utilize as minhas palavras contra mim. Não estou triste nem revoltado. Não me sinto traído.

Penso simplesmente que o João não sabe o que faz. Eu é que sou o responsável deste departamento. A responsabilidade de algo implica a falta de responsabilidade, a irresponsabilidade, em suma, a incompetência de todos os que trabalham para si. A promoção é uma gentil compensação pela compreensão, a complacência, pelo seu silêncio, pela sua resignação. É uma promoção até que chega ao dia em que você é nomeado vice-diretor. É como parar no último degrau ao subir uma escada. Estamos quase no cimo e ao mesmo tempo é ridículo ficar especado com tanta gente a olhar. É aí que a reverência se torna irreverência, como se o vice-diretor fosse a concentração de todas as frustrações perfeitamente legítimas de todo o pessoal, sufocadas durante anos pelo colar de pérolas de viveiro da contabilista ou pelo impecável nó da gravata do comercial. Eu também não usava gravata quando era vice-diretor, como você, para evitar ser confundido ou comparado com o meu superior.

O João pertence a outra geração, em que pessoas que poderiam subir a pulso na vida como eu, foram convencidas pelas universidades que os homens que chegaram ao topo sem estudos, a menos que sejam génios da informática, têm mais esperteza que inteligência. Chame-lhe instinto ou “faro”, chame-me felino ou rato, qualquer virtude minha, vinda da sua boca, raras vezes é uma qualidade exclusivamente humana. Mas não pense que não o compreendo. Quando se passam vários anos sentado numa sala de aula a ser tratado de ignorante, e depois, na vida profissional, considerado como um profundo irresponsável, é natural que se comece a perder a capacidade de vislumbrar as qualidades humanas dos seus superiores. Eu sou a garantia e a improbabilidade do seu sucesso. Você ainda hesita em ceder ou reclamar, e por isso é apenas vice-Diretor, por falta de autoconfiança e de iniciativa, os dois atributos chave do cargo. Para conseguir a simpatia dos outros, nessa vontade de isolar-me no pedestal, frente ao restante pessoal, o João perde a capacidade de poder ter competências, e não disse competência, para poder um dia substituir-me. Um diretor tem de saber isolar-se antes mesmo que o tentem encurralar.

“A hierarquia de uma empresa, como a hierarquia militar é apenas uma manifestação pública de impotência, o comandante não pode comandar sem o general, o general não pode ordenar sem o presidente que não sabe disparar, nem pode morrer pela pátria, como o soldado”.

Um diretor de recursos humanos é o presidente para a maioria dos trabalhadores. A empresa em si é uma grande mentira, modicamente conveniente, para podermos ter direito à nossa fatia de poder, sobretudo na ausência de 5 minutos de fama. A maior das mentiras é a hierarquia de uma empresa, o chefe tem acima dele um diretor que está abaixo do presidente, o presidente é um subordinado do conselho de administração, também ele subjugado a um presidente, um presidente sob o controlo de um fundo de investimento com os seus diretores e presidentes. A hierarquia de uma empresa, como a hierarquia militar é apenas uma manifestação pública de impotência, o comandante não pode comandar sem o general, o general não pode ordenar sem o presidente que não sabe disparar, nem pode morrer pela pátria, como o soldado. Uma vitória numa batalha pode ter o mesmo brilho nos galões de um oficial que a morte de um soldado, o homem que está na linha da frente do combate é quase sempre o mesmo que está na retaguarda da hierarquia. Um soldado protege-se com uma arma, um sargento com um pelotão, um comandante com um batalhão, um general com um exército. Passa-se o mesmo em qualquer empresa, as chefias são o refúgio onde os incapazes de enfrentar uma batalha não têm outra alternativa do que limitar-se a liderar guerras.

O poder é só uma forma de convencer pessoas como o João e eu de que vale a pena não pronunciar esse insulto que, neste momento, lhe martela a cabeça. Sabe bem, João, que a minha arrogância será um dia a sua maior recompensa profissional. Lembre-se como, nas entrevistas de emprego, procuramos sempre pessoas dinâmicas e ambiciosas, mas, depois de as contratarmos, dinamismo e ambição começam a soar a excesso, a ameaça à autoridade. Não diga que não é assim João. Vá, puxe de uma cadeira, relaxe-se um pouco. Não é o fim do mundo parar cinco minutos, beber mais um whisky à sobremesa, comer uma bifana em vez de bife de tofu, preferir ler a bola a fazer “jogging”, ter barriga em vez de calça e camisa “slim fit”. Você é mais novo, não foi à guerra nem ao serviço militar, não conheceu nem a ditadura nem a revolução. Não conhece nem é sensível a essa mímica primitiva dos companheiros de armas, sempre atrás do exemplo do mais forte. Sempre fui o mais atlético do meu grupo, no exército, hoje na empresa, sou o mais corpulento, são duas formas de justificar a autoridade. Entre o leão e o elefante sempre tive dúvidas em saber quem é o verdadeiro rei da selva.

Não João, não perdi a cabeça. Sente-se e vai ver que percebe, que se trata de um mal-entendido. Deve ter sido um erro dessa nova empresa que contratou para gerir o plano de redução de pessoal. Lembra-se, antes tínhamos três raparigas na parte dos pagamentos, a dona Luísa, a Teresa e a Andreia Esteves. Claro que sim, tinham pouca formação, claro que sim, eram todas primas e contava-se que a mais nova tinha conseguido o trabalho depois de dormir com o patrão, após um seminário de coesão, aberto às famílias, num recinto de “paintball”. Aliás a ideia do “paintball” até foi sua. Eu e muito do pessoal não deixávamos de pensar, frente à cerveja de lata, frente ao balcão de alumínio com tela de camuflado, na picanha tenra do churrasco de rodízio onde até então celebrávamos todos os anos o aniversário da criação da empresa. As três primas costumavam mesmo ensaiar uns passos de samba com os empregados. Éramos uma grande família, apenas nesse dia, como todas as famílias o são, pontualmente, uma vez por ano, na noite da consoada. E com uma grande diferença, pois o tema de conversa de uma consoada, passa sempre pelo que se passa dentro da empresa de cada um dos membros da família. Os jovens que estudam falam dos seus projetos de trabalhar numa empresa, os desempregados confessam o desespero de querer voltar à atividade profissional e os velhos reformados continuam a falar das empresas como se nunca as tivessem abandonado. Tenho a certeza que foram muitos a evocar o seu nome, João, durante a última consoada.

Vá lá admita, por uma vez. Tanto você como eu não acreditamos verdadeiramente nesta empresa. Chegamos aqui todas as manhãs, pontualmente mais tarde uns do que os outros, por ordem de hierarquia, das empregadas de limpeza, às secretarias, dos comerciais aos chefes de setor, você sempre mais cedo do que eu e eu mais cedo do que o presidente. Quanto mais subimos na empresa mais direito temos a ficar longe dela, a estar ocupados, em viagem, em reunião ou mesmo a tratar de assuntos pessoais. Não aguentamos fitar esta gente que percorre os corredores com essa feliz ingenuidade de dar os bons dias, deixar caixas de pastéis de nata na sala de café ou comprazer-se com o bronzeado, os grelhados, os cocktails extravagantes e respetivas pulseiras coloridas das fotografias das férias dos colegas numa distante estância de veraneio mexicana. Se há algo mais triste do que o quotidiano de uma empresa são os momentos de tempo livre propostos pela direção aos trabalhadores, como o clube de futebol da empresa, o grupo de teatro ou mesmo o coral desafinado que todos os anos encerra, a contra-tempo, o seminário anual. A promoção é a oportunidade para virar costas à trivialidade, uma justificação para estar ausente das grandes celebrações e passar a falar do que realmente conta: relatórios de contas, viagens de trabalho, seminários de empresa e sobretudo da depressiva banalidade das pessoas que trabalham para si, quando vestidas em palco com um uniforme com o logotipo da nossa companhia, entoam em uníssono um trémulo “Hino da Alegria”, transformado em “chegou a hora do adeus”.

“A vantagem da ascensão em qualquer empresa é a inacessibilidade. Quanto mais responsabilidade se acumula menos gente pode pedir-lhe contas ou explicações sem hora marcada, sem conter a voz, ou recear pelo futuro profissional na forma como, ao entrar no seu gabinete, pronuncia a expressão senhor director””.

Não se levante João, eu disse para não se levantar. Não me faça ser violento que sabe que sou uma pessoa pacífica. Vai ter que me ouvir até ao fim. Sim, até ao fim do que tenho a dizer. Sempre desempenhei o meu cargo como um dedicado tecelão de um tapete persa, com o respetivo defeito propositado, a prova necessária de quem tem que assegurar que não aspira à perfeição. Um chefe tem de ser criticado, detestado, para poder ser realmente respeitado. O consenso e a popularidade necessita de tempo e de diálogo, esse exercício perigoso para pessoas como você e eu. A vantagem da ascensão em qualquer empresa é a inacessibilidade. Quanto mais responsabilidade se acumula menos gente pode pedir-lhe contas ou explicações sem hora marcada, sem conter a voz, ou recear pelo futuro profissional na forma como, ao entrar no seu gabinete, pronuncia a expressão “senhor diretor”. Se a frase é pronunciada de forma demasiado informal, relembre-o que está a falar com um superior, se a frase é pronunciada de modo excessivamente formal, recorde que não é Deus. A hierarquia tem de ser uma evidência, não uma verdade, pois a verdade pode sempre ser contestada.

Diga aos seus brilhantes professores da escola de gestão que o diretor não tem de ser exemplar, muito pelo contrário. A única verdadeira coesão numa empresa, é aquela que se sente na forma prudente e descarada como um grupo de trabalhadores critica o diretor. Um responsável de departamento não precisa de escutar críticas pois tem outras pessoas para o fazer, em gabinetes individuais ou nos corredores, sabendo que os ouvidos dos corredores terminam, na maior parte dos casos, sentados nos gabinetes individuais. Solidariedade numa empresa? Só a que custa ouvir da boca dos sindicalistas para justificar greves, aumentos salariais ou redução de horas de trabalho. Tudo o resto chama-se coesão, a que se cimenta entre equipas, bem cimentada, sobretudo para aniquilar qualquer tipo de vestígio de solidariedade para lá dos exercícios de caridade pontuais para todos aqueles que, pobres, descapacitados ou vítimas de uma tragédia, não têm possibilidade de realizar-se profissionalmente com uma secretária com o seu nome e um cacifo personalizado.

Eu sei que somos de gerações diferentes. Eu, por exemplo, tenho muito mais respeito pelos sindicatos do que o João. É impossível não deixar de admirar essas pessoas que fomentam a dose de revolta necessária para que o ódio pelo diretor não termine em linchamento, ou em destruição de avultado material informático ou de equipamento industrial. Imagine um mundo sem protestos, sem greves e sem manifestações. Uma ditadura? Nada disso, seria uma total anarquia, toda essa ira contida que, afinal, o megafone e as caminhadas ao ar livre de punho erguido permitem espairecer, ao afinar cordas vocais e aquecer articulações. Uma ditadura é ver esses milhares de empregados alinhados a fazer ginástica nas horas de pausa, ou a fazer a sesta ou a jogar matraquilhos e videojogos, nas fábricas chinesas ou nas “start-ups” norte-americanas. Os sindicatos e os protestos são a garantia dessa revolta que é afinal uma das poucas formas de admiração genuína que um diretor pode sentir dentro de uma empresa. Quanto maior a empresa, maior a emoção de ouvir centenas de pessoas a repetir o seu nome, a conhecer a sua cara, a recortá-la para cartazes ou a reproduzi-la em pasta de papel. Tanta motivação genuína que exprime uma preocupação comum, deles e nossa, de tentar, a todo o custo, manter o posto de trabalho. Não há melhor forma de celebrar a empresa e de reconhecer, à medida que as palavras de ordem enrouquecem, o direito como dever, a obrigação como incontornável, o instinto selvagem de proteção que nos leva todos a frequentar estes espaços fechados onde a reclusão pode sempre terminar em canibalismo. O sindicalismo é a melhor forma de consolidar o seu papel de patrão, uma palavra que, de outra forma, nunca ousaria utilizar.

As empresas existem para perpetuar esse ódio aos superiores, confinado a um edifício, a uma sala, a um escritório, a um diretor. Um desempregado representa uma ameaça terrível para o equilíbrio deste sistema onde as empresas são, ao mesmo tempo, campo de refugiados, centro de detenção e de reinserção social. Um desempregado rompe a magia do sistema, sai para a rua fora das horas de ponta, em pleno horário laboral, ao ter mais tempo para ele, torna-se mais responsável e descobre a mentira da hierarquia, passa de depressivo a revoltado, e é algures por aí que está pronto a fazer tombar governos ou queimar palácios presidenciais. Toda a sociedade espera que sejamos, no cargo, perfeitamente detestáveis.

“Não beber alcóol numa festa de empresa constitui toda uma ameaça para o frágil equilíbrio empresarial. Como é que você chama, João, a um indivíduo que não se despe numa praia de nudistas. O quê? Um inconformista ou um moralista? Nada disso. É um mirone”.

A prova de que ninguém gosta realmente desta empresa são os jantares de empresa. De repente, as mesmas pessoas que todos os dias se cruzam consigo na máquina de café e nas mesas da cantina, com as mesmas conversas e piadas de circunstância, tornam-se ainda mais insuportáveis nessas horas marcadas de informalidade. Felizmente que a bebida é à descrição, como o café é grátis na máquina– também uma ideia sua – para que toda a gente tenha uma desculpa para contar a verdade quando já ninguém estiver sóbrio para poder lembrar-se do que ouviu. Não beber alcóol numa festa de empresa constitui toda uma ameaça para o frágil equilíbrio empresarial. Como é que você chama, João, a um indivíduo que não se despe numa praia de nudistas. O quê? Um inconformista ou um moralista? Nada disso. É um mirone.

A empresa para ter sentido, tem de garantir os 30 dias de férias na praia e a maior bebedeira grátis do ano, para lá de umas prendas para as crianças no Natal, uma viatura de função, o telemóvel da empresa e os cartões de visita. Para mim o verdadeiro elo que une os empregados de uma empresa é essa ressaca comunitária do dia depois da festa, acompanhado do terror de alguma revelação incómoda sob o efeito do álcool ou de uma fotografia em poses menos corretas na página pessoal do Facebook de um colega. É uma sociedade e uma companhia, só no papel, na verdade a empresa é talvez o único grupo de pessoas que se juntam à volta de secretárias, que se escondem por detrás dos ecrãs de computador, que se escapam ao auscultador de um telefone, por não conseguirem admitir a sua profunda solidão. A festa anual é o único momento em que todos podem confessar-se e esquecer-se disso com uma razão indesmentível: a bebida.

Vá João, pegue no copo, brinde comigo a esta empresa na qual passámos tantos anos. A sério, sem ressentimentos. Vá, um bom trago. Não faça essa cara. Não diga que só bebe porque estou a obrigá-lo. Hoje é um grande dia para si e para mim João. Depois de anos a seguir-me os passos, o jovem estagiário admirativo que era sobrinho do patrão, o colega que, primeiro por engano e depois por estratégia, se esqueceu de pagar parte dos salários dos empregados durante vários meses. O companheiro que me ridicularizava por não saber falar inglês, enquanto me convidava a mim e à minha mulher a comer pratos de peixe cru com pauzinhos chineses, ou japoneses. Quem diria? E eu sorria de forma paternal a essa irreverência quase infantil, sorria pois a sua imaturidade era o meu seguro de vida, um exemplo para os outros do tipo de gente que quero a meu lado – inofensiva e irrelevante.

É triste pensar quantas carreiras brilhantes terminam perdidas algures entre a garagem, a portaria e o “open space” do primeiro andar, de cada vez que tipos como o João e eu são promovidos. Um chefe nunca pode ser um tipo carismático, por mais que alguns bajuladores teimem em dizê-lo e nós teimemos em recompensá-los. Um chefe, um diretor, como eu, é o tipo que vai decidir quando é que alguém vai poder sair de casa dos pais, casar, comprar casa, ter filhos e pedir a reforma e, talvez, pagar parte do funeral. Quem é que pode apreciar um tipo que tem, ao mesmo tempo, o poder de te contratar ou de te despedir, de permitir-te viver num condomínio fechado ou no olho da rua. Claro que não sabem, estratégica irresponsabilidade, que a decisão não depende de mim, mas do presidente, que por sua vez tem de pedir ao conselho de administração, e por aí adiante até que algum empregado demonstre a louvável iniciativa, potencialmente condenável, de tomar uma decisão. O mais importante, neste preciso momento, é que este tipo nunca seja promovido.

Só no total respeito da hierarquia é que a empresa pode fazer sentido. Se você é um tipo sério e dedicado, os seus colegas vêem-no como uma ameaça e torna-se numa pessoa indesejada, que cria tensões e mau ambiente, que não tem o sentido do trabalho de equipa, que agride e despreza os demais ao manifestar tanta implicação. Como é que responde a isto João, você que tem um MBA de gestão de recursos humanos e conseguiu, sem levantar ondas, reduzir quase um quarto do pessoal? Como diz? Seleção natural? Como explica então que estejamos os dois aqui, hoje nesta sala, os dois máximos responsáveis desta empresa, você sentado nessa cadeira com um ar aterrorizado, e eu, tranquilo, com uma arma apontada à sua cabeça? Somos a pura negação e o triste resultado desta seleção natural. Quando soube a notícia, não quis perder esta oportunidade de brindar ao seu sucesso. Vá termine esse copo. À sua.

Tem piada, a sério, não chore homem, oiça. Não perca a pose agora que foi nomeado novo diretor. Não vou deixar que o vejam nessa figura, foi por isso que, antes de entrar, tranquei a porta do gabinete e disse que não nos incomodassem. Queria felicitá-lo por este grande momento. Acredite que a minha revolta é a maior manifestação possível de admiração, foi por isso que trouxe também a arma, não seria digno entrar aqui apenas para insultá-lo. Mas o que é que estava a dizer?

Dizia eu que tem piada, esta espingarda foi oferecida pelo seu tio, o nosso patrão, o “grande chefe”. Lembra-se dessas caçadas na herdade da sua família? Diga lá, como é que conseguia suportar ser tratado como um inútil? Os homens que subiram a pulso, como o seu tio, têm pavor do fracasso. São pessoas que esconderam o sotaque quando chegaram à cidade e que, com o seu primeiro salário, pagaram a construção de uma casa de banho na casa dos pais numa aldeia esquecida de Trás-os-Montes, onde evitam regressar para não terem que voltar a ouvir uma alcunha de infância como “pilha galinhas”, “xoninhas”, “gordo” ou “chinês”.

Você ri-se mas sabe bem que se chegou hoje a diretor deste departamento é porque o seu tio sempre o considerou como o mais incapaz dos quatro irmãos. Sobretudo porque o João foi o único a querer vir trabalhar na empresa familiar. Uma pessoa que não consegue obter a independência, nem que seja como um dos seus irmãos, num gabinete de contabilidade, será sempre o refém dos caprichos e frustrações do pai de família, ou neste caso, do tio. Você aguentava as humilhações, nessas célebres e intermináveis patuscadas de domingo, pois sabia que não podia aspirar a mais. E se o João aguentou até hoje os meus caprichos e frustrações foi porque não podia aspirar a mais sem mim a seu lado. Necessitávamos um do outro para poder justificar a ambição ou ocultar a vergonha face à evidência de que, nós os dois, quando nos juntássemos no mesmo escritório, eu só sou podia ser seu chefe e você o meu “vice”.

Um perfeito incompetente que subiu na empresa à conta de ser o protetor do sobrinho do patrão, como eu, recupera toda a dignidade e respeitabilidade, quando tem o direito de mandar num familiar do “grande chefe”. Nem eu nem você chegámos aqui por competência, você é sobrinho do patrão e eu sou o típico personagem que soube aproveitar uma boa oportunidade, um oportunista. Numa empresa, os que trabalham estão sempre demasiado ocupados para poderem ter tempo e oportunidade para evoluírem na vida. São pessoas aborrecidas, estão cansadas para beberem um copo depois do trabalho, são gente interesseira, mostram-se sorridentes e não se importam de fazer horas extraordinárias, por vezes sem ser pagas, só para poderem chamar a atenção. Nos jantares de empresa e nas pausas de café só falam de temas de trabalho, sempre com propostas e ideias para melhorar a empresa que são uma forma delicada de chamar-lhe nabo. São pessoas irritantes, hiperativas, que acabam por reencontrar a tranquilidade e a paz de espírito graças aos anxiolíticos receitados pelo médico, depois de uma baixa prolongada, após descobrirem que o mais incompetente dos colegas tinha sido o que decidi promover a chefe. E isto não lhes serviu de lição. Nas semanas que se seguiram não houve um que faltasse ao trabalho, nem mesmo doente, alguns chegavam a não almoçar. O orgulho ferido de um empregado é a melhor garantia de rentabilidade numa empresa e a base do poder de um Diretor. No Natal traziam-me garrafas de whisky para destilar o pior que pensavam dos seus superiores e eu dava-lhes razão, afinal se nomeei o mais incompetente foi exatamente para poder reconhecê-lo frente aos seus subordinados. Ao mesmo tempo, uma pessoa incompetente, quando é promovida, sabe sempre que vai ficar em falta com o patrão. Quando uma empresa ou uma fábrica fecham, tenho sempre pena deste tipo de pessoas, os simples trabalhadores têm muito mais hipóteses de encontrar um emprego, graças ao Diretor, que nunca alimentou falsas expetativas.

Os chefes e os diretores reconhecem-se entre eles, são homens e mulheres que elogiam a empresa mas que criticam os trabalhadores, que são sempre de alguma forma uma barreira no rumo da companhia. Os planos de reestruturação? Basicamente trata-se de despedir gente, sob o pretexto que não são rentáveis para a companhia, e de pedir aos que ficam que trabalhem pelos outros sem por isso ganharem mais dinheiro. Como você costuma dizer, os planos de reestruturação são a melhor garantia da manutenção dos postos de trabalho no departamento de recursos humanos. E ao mesmo tempo, como bem sublinha, nestes períodos, a maior promoção é não ser despedido. João onde é que aprendeu este humor macabro? É isto que lhe ensinam na Universidade, a aterrorizar gente? Tenho a certeza que, lá fora, alguns lamentam não estar no meu lugar, sem apertar o gatilho, só para saborear este momento.

Onde ficou esse discurso de que é preciso motivar as equipas? Aquela história do empregado do mês e do sorteio da viagem à EuroDisney. Meu caro João, onde é que foi buscar essas ideias? As empresas não são famílias, unidas, à mesa, em torno de fados e travessas de cozido à portuguesa. Desculpe já sei que é vegetariano mas espero que não tenha nada contra o fado. Ainda bem, de qualquer forma penso que, como antes, quando era o meu vice-diretor, não está em posição de poder contrariar-me. E ainda me pergunta porque é que lhe estou a apontar esta arma. Sim senhor, é para que se limite a ouvir-me, sem colocar questões. Até que entre a polícia, até que me peçam para baixar a arma, que ameacem abater-me a sangue frio, até que o meu exemplo dê finalmente, quem sabe, uma oportunidade a um tipo competente de chegar a este lugar. Um verdadeiro líder e um bom profissional sabe que chegou a hora de passar o testemunho, sem precisar de sair de casa com uma espingarda ao ombro e sequestrar o seu sucessor, e sobrinho do patrão. Fora da empresa, e no desemprego, posso rapidamente tornar-me uma ameaça para todo o sistema. E o pior de tudo é que não pretendo disparar, a menos que tente fugir. Quis só poder voltar a ver esse ar de pavor na sua cara, agora que já não sou superior. É uma questão de princípios, de respeitar até ao fim a hierarquia e de manter a detestabilidade da minha posição sob a ameaça de uma arma. Mas obviamente que não vou disparar João. Com o barulho dos tiros, esses tipos que estiveram de baixa da contabilidade poderiam não aguentar o susto, uma vez que estão ainda sob anti-depressivos. Não quero que digam injustamente, e depois de tudo o que fiz por eles, que você poderia ter sido um melhor Director do que eu.

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