Uma visita ao Paço Ducal de Vila Viçosa
Texto: NUNO GALOPIM
Com uma história que cruza séculos com várias campanhas de construção e uma fachada que representa o mais imponente exemplo de arquitetura palaciana renascentista entre nós, o Paço Ducal de Vila Viçosa é destino que justifica uma visita com tempo para caminhar não apenas entre o percurso das salas abertas ao público mas também aos espaços adjacentes nos quais estão expostas algumas das suas coleções.
A sua história remonta a inícios do século XVI, quando o quarto Duque de Bragança, D. Jaime, regressou de Castela onde esteve exilado desde a execução do sei pai a mando de D. João II e a subida ao trono de D. Manuel que reabilitou o Ducado. Sem vontade de manter a residência no Castelo de Vila Viçosa, lança a primeira etapa de construção, que corresponde ao espaço da atual capela, claustro e salas que acolhem a armaria, criando zonas de clausura e áreas de oficinas como então era costume. Data também desta etapa a construção de primeiros jardins – os hortos, na terminologia contemporânea – que serviam de espaços de recreio mas também de cultivo de frutos e ervas para a cozinha e botica.
O sucessor D. Teodósio, numa altura em que no mesmo terreiro se construía o Convento das Chagas, levou a cabo nova campanha, edificando a ala que se desenvolve para sul, cabendo mais tarde a D. Teodósio II novo corpo de trabalhos, incluindo a fachada em mármore, traçada segundo linhas da arquitetura italiana da época.
As intervenções posteriores datam já de um período em que os Duques de Bragança ascendem ao trono português, mantendo-se todavia o palácio uma propriedade da família e não da coroa. Há importantes obras com D. João V (que, entre várias ações, uniformiza a fachada, substitui retratos na Sala dos Duques e amplia a capela) e melhoramentos com D. José (nas cavalariças e edificação da torre sineira) e D. Maria I (construindo a Sala de Jantar e rearranjando os jardins).
Os tempos em que a corte viveu no Brasil e os anos das lutas liberais deixaram o palácio numa segunda linha de atenções, retomando o seu lugar de maior destaque durante o reinado de D. Luís e, mais ainda, no de D. Carlos, que ali passou temporadas todos os anos e dormiu ali a noite anterior ao regicídio. Datam de finais do século XIX as últimas intervenções, ora destinadas a garantir maior conforto (segundo os novos padrões) ora para garantir a instalação de maiores comitivas e facilitar acessos. A decoração desta época subsiste na ala que alberga os quartos e salas de trabalho de D. Carlos e D. Amélia, onde há ainda (como em vários lugares do palácio), ecos da memória do último monarca, D. Manuel II, desde o seu estojo de barba a alguns retratos, incluindo (fora do percurso visitável) a sua coleção de livros. Algumas das mobílias, pinturas e outros objetos chegaram mesmo a integrar a decoração da residência em Twickenham – perto de Londres – onde viveu o seu exílio.
Propriedade da Fundação da Casa de Bragança, o palácio foi transformado em museu entre os anos 40 e 50 em trabalhos orientados por João Couto e Raul Lino nos quais foram eliminadas muitas das intervenções oitocentistas, procurando evidenciar a traça original do edifício. Até à década de 80 foi entendido dar ali uma primazia às heranças correspondentes ao período da Restauração, procurando interpretar o espaço como sendo representativo do século XVII. Ainda hoje há uma sucessão de salas no andar nobre, na traseira da fachada principal – precisamente apresentadas como Sala do Século XVII e Sala da Restauração (esta dominada por um grande retrato de D. João IV), que traduzem essas memórias.
Nos tempos mais recentes, e apoiadas em novos trabalhos suportados por investigação documental, o palácio tem vindo a conhecer intervenções de restauro (nos interiores e exteriores), que permitiu ampliar também a área das coleções visitáveis.
Entre salas e coleções
Do percurso pelo andar nobre, que é precedido pela imponente escadaria que evoca o cerco a Azamor, vale a pena focar atenção em alguns espaços. A Sala das Tapeçarias, onde começa a visita ao andar, dá-nos logo um primeiro exemplo da coleção de azulejos do palácio – que reflete várias encomendas em épocas distintas – e revela um importante retrato de D. Manuel II pintado por João Reis. Na Sala do Gigante, que se segue, há belos exemplos da pintura de D. Carlos, nomeadamente a tela que dá nome à sala ou o Sobreiro, este uma expressão evidente da forte ligação que, através de Vila Viçosa, o rei teve para com o Alentejo. Depis de passarmos por um Oratório – que integrava os aposentos da mãe do futuro D. João IV – a Sala de Medusa oferece uma galeria de retratos dos últimos Duques de Bragança, de D. Maria I a D. Luís Filipe, resultado de uma encomenda feita por D. Carlos em 1907. Mais adiante no percurso, a imponente Sala dos Duques apresenta, no seu teto artesoado, as representações dos restantes duques, em 18 óleos encomendados por D. João V (na verdade são 16 duques, mais a primeira duquesa e o Condestável D. Nuno Álvares Pereira). Ainda nessa mesma ala a magnífica Sala Dourada reúne espólio que em tempos pertenceu ao Palácio das Necessidades, que foi residência real lisboeta desde o reinado de D. Maria II, salvo durante o reinado de D. Luis. A passagem pelos Quartos Reais (acima já referidos) antecede a visita a uma outra zona do palácio onde se destacam a Sala de Jantar, espaços onde estão disponíveis as coleções de vidros e cerâmica e as cozinhas.
Numa zona, que correspondia à antiga biblioteca musical de D. João IV são hoje apresentadas algumas exposições temporárias. Ali ao lado vale a pena ver ainda o Pavilhão de Música, decorado com azulejos flamengos do século XVI, onde diariamente aquele que depois de 1640 seria o primeiro rei da quarta dinastia se juntava com os seus músicos para tocar.
Uma visita ao Paço Ducal não dispensa ainda a passagem pela Armaria, que reflete não apenas peças de uso pessoal da família mas também exemplos de coleções reunidas ao longo dos tempos pelo seu valor histórico e artístico. O Tesouro, que integra a Cruz de Vila Viçosa, completa o percurso.
Para os interessados vale a pena passar os olhos pelo volume de publicações disponível no balcão da receção, muitos deles disponíveis para venda online através do site oficial da Fundação da Casa de Bragança. Entre os livros há um bom roteiro do palácio, com coordenação de texto assegurada pela sua diretora, Maria de Jesus Monge. Nesta mesma sala de receção um conjunto de painéis conta a história da fundação.
Pode ver aqui imagens de algumas das salas do andar nobre do palácio.

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