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À espera dos “twists”, antes do “the end”…

Texto: NUNO GALOPIM

Baseado num romance da mesma autora que David Fincher adaptou em “Gone Girl”, o novo “Lugares Escuros” é um thriller que desaproveita o contextos e só tem olhos para abrir caminho aos “twists” que o modelo parece não dispensar.

Há por vezes nos thrillers uma espécie de lógica de desafio geométrico, tentando a evolução da narrativa encaixar reviravoltas e safanões onde a grelha dos acontecimentos os não espera. Os tais “twists”, pois é. Pelo que, ao nos sentarmos numa escura com um thriller pela frente, já sabemos que seremos submetidos a uma viagem em que o que parece não é, passando o filme em busca das curvas e contracurvas que antevemos que ocorrerão antes da reta final.

Gillian Flynn, de quem há pouco tempo descobrimos Gone Girl, que serviu de base ao mais recente filme de David Fincher, é já uma autora de feitos reconhecidos tanto nas vendas em livraria como entre o palmarés de prémios com os quais foi já distinguida. Pelo que nos mostrou esse livro e o que, antes dele, originou uma outra adaptação ao cinema (que agora chega às nossas salas), parece ter um interesse em trabalhar os contextos nos quais lança as suas personagens. E em Dark Places (originalmente publicado em 2009), que agora surge no grande ecrã, pela mão de Gilles Paquet-Brenner, como Lugares Escuros, encontra por cenário um tempo, em meados dos anos 80, em que uma certo terror satânico grassava os medos de vários lugares da América rural.

O filme, baseado no romance homónimo, conta-nos a história de Libby Day (Charlize Theron), uma mulher na casa dos trinta que, em menina, terá visto a mãe e duas irmãs a serem assassinadas em casa, sendo da responsabilidade do seu depoimento a força da acusação sobre o irmão, um solitário (interpretado por Tye Sheridan, um dos três irmãos de A Árvore da Vida de Malick) que, apontado a dedo pela comunidade de estar ligado a cultos satânicos, acabou votado a uma vida por detrás das grades. Indolente, vivendo desde então de donativos de quem dela teve pena, descobre aos 30 anos que não tem a conta bancária seca. E, a troco de um punhado de dólares, aceita ser protagonista de mais uma temporada de encontros do Kill Club, um grupo de entusiastas das investigações criminais que tenta resolver casos que considera mal concluídos. É claro que haverá twists pelo caminho. E o que foi registado pela história, imaginamos desde logo, não corresponde à realidade.

Lugares Escuros caminha em paralelo entre o presente no qual Libby e um dos elementos do Kill Club (Nicholas Hoult) encetam exercícios de mergulho na memória dos factos. E um passado no qual acompanhamos o dia a dia desesperado da família Day (com o papel da mãe confiado a Christina Hendricks), havendo de facto como presença satélite da vida daquela comunidade no Kansas a presença (nos noticiários de TV e nas brincadeiras de adolescentes) de cultos satânicos.

A atenção está focada contudo entre a tentativa da protagonista em revisitar as suas memórias, reavaliar as suas atitudes e, sobretudo, confirmar a culpa do irmão. Apesar de retratar cenas de desespero e pobreza rural (porém mais como quem faz uma máscara de carnaval, muito longe por isso de uma qualquer dimensão de herança Steinbeckiana) e de aludir a referências satânicas um pouco como a faca passa sobre a manteiga na hora de barrar o pão, todo o filme parece mais preocupado em conduzir a geometria que permitirá encaixar twists que propriamente explorar personagens, cenários e contextos. O próprio Kill Club, com um potencial a explorar dada a variedade de figuras que congrega, é liminarmente esquecido em três tempos, mal a malcriada protagonista mete os dólares ao bolso e deixa que a sua história seja explorada…

Há tentativas de trabalhar texturas diferentes de imagem em algumas sequências – nomeadamente as da noite dos assassinatos – num registo mais próximo do home vídeo, como que a piscar olho ao registo habitual em opções found footage (tendo a memória por fita e os olhos de quem viu como câmara).

No fim, é como mais um exercício de palavras cruzadas ou solitaire que se resolve. Acertámos ou não? Só não era o mordomo, porque não há ali mordomos… Mas encontrada a chave e destapada a verdade, a experiência fica arrumada na sala de cinema. E nem sequer é memorável. Não admira que, em vários territórios, Lugares Escuros nem sequer tenha passado pela sala escura.

“Lugares Escuros” (“Dark Places”), de Gilles Paquet-Brenner, com Charlize Theron, Christina Hendricks e Nicholas Hoult, está em exibição entre nós.

1 Comment on À espera dos “twists”, antes do “the end”…

  1. Nem os twists existentes me fizeram gostar do filme.

    “Lugares Escuros”: 1*

    Odiei completamente este filme estreado em Portugal a 13 de agosto de 2015, pois a história desenrola-se num emaranhado enredo.
    Deveria desenrolar-se de outra maneira, pois o seu início foi aborrecido e sonolento mas o seu final foi simplesmente desabrido.

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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