Olhares americanos
Texto: LOURENÇO ROCHA
É fácil trair uma cultura marginal, e não roçar mais do que uma estampa sem vida, um estereótipo insatisfatório, quando se opta por uma linguagem mainstream para captar o seu âmago. O recurso a tipos simples, que o espectador-tipo identifica e assimila como lugares-comuns de alhures, requer cautela para que não se perpetuem preconceitos ou se esbata a alteridade. Por outro lado, uma trama casual favorece um exercício comparativo, sublinhando a diferença no comportamento e julgamento dos personagens.
Nos cinemas, dois resultados opostos de uma similar tentativa: O Verão de May (2013), realizado, escrito e protagonizado por Cherien Dabis, apresenta uma família disfuncional jordana que se reúne na terra natal para o casamento de May, uma escritora que acaba de lançar uma compilação de provérbios árabes nos Estados Unidos, onde é emigrada com as duas irmãs mais novas; em Um Encontro com o Destino (2015), Jack (Ryan Scott), um canadiano que escreve sitcoms, apaixona-se por Maria (Jeannette Sousa) num diner, quando está a horas de se mudar para Londres para procurar novos ares que o inspirem, dado o falhanço da sua escrita.
Estas relações vão ser confrontadas pelo conservadorismo endogâmico de comunidades minoritárias nos seus países. A mãe de May, jordana-cristã, partilha a fé com um máximo estimado de 6% da população da Jordânia, mas acredita que não tem religião, mas sim a verdade, e assim opõe-se ao seu casamento com Zaid, um académico muçulmano laico. Jack tem de convencer Maria e a sua família, luso-canadiana como 1.3% da população geral, de que, apesar das suas diferenças, é um candidato apto para tomar a sua mão. O pai de família, José (Joaquim de Almeida), acha que ele não está ao nível do ex-pretendente, um médico português, e sugere-lhe um emprego mais estável na construção civil.
É o detalhe do argumento que vai determinar a subtileza de autenticidade dos filmes e, em ambos, os intérpretes principais, indivíduos marginais (Dabis é palestino-americana, Scott e Sousa luso-canadianos), encarregam-se dele.
Dabis povoa O Verão de May com personagens paradoxalmente completas: a mãe que, apesar de cristã, tenta um feitiço que desenlaça amores; o pai americano que tenta reatar laços – cortados depois do divórcio de uma década – com as três filhas, e lhes exibe a nova mulher da sua idade; as irmãs, entre as quais May, que assumem uma dinâmica parental, apesar da sua própria volatilidade.
Ao mesmo tempo o espaço da acção é individualizado – e a fotografia aproveita bem a beleza cénica do pequeno país. Americanizadas, as irmãs enfrentam a sociedade beduína, introduzindo o debate com estilos de vida modernos (a emancipação do corpo feminino, a sexualidade). A política é, ainda assim, maioritariamente relegada para plano de fundo, acercando-se do foco apenas pontualmente, como quando os mísseis que caem na vizinha palestina, à vista das irmãs feriando, desarmam a fútil quotidianidade. Elevado por excelentes interpretações, o argumento é ligeiro e lúdico, catalisado pelos segredos que os familiares resguardam uns dos outros, mas mantém sempre um carácter fiel, se propedêutico. Os provérbios árabes com que Dabis pontua o filme, e que ajudariam as personagens – “a ironia da vida no Médio Oriente, onde há tanta sabedoria na linguagem e tanta gente que não a segue”, revelava ao StageBuddy – e a omnipresença da culinária adicionam detalhes curiosos.
Scott e Sousa revelam-se incapazes de prover as personagens de Um Encontro com o Destino com um traço individualizante, optando antes por um retrato folclórico da comunidade imigrante, que saciará ainda assim o humor (ego ingénuo?) de uma certa portugalidade. A família portuguesa, i.e. a massa indistinta dos portugueses, apresenta-se patriarcal, orgulhosa de Cristiano Ronaldo e obcecada com a grandeza que um tão pequeno país em tempos pôde alcançar – e também com a invenção do multibanco; os portugueses produzem ainda belas mulheres e novelescos triângulos amorosos, no seio da família. De forma grosseira, é ainda elencado um rol de superstições fetichistas, a crença em Maria, e a dependência na vidente Sinha Maria.
A explicação para o retrato provinciano é dada pelo produtor associado Jeff Stout ao The Sarnia Journal; o filme queria-se comédia romântica, ridicularizando estereótipos culturais. Stout acreditava também que Joaquim de Almeida – “ele é o Tom Cruise de Portugal,” dizia – atrairia grandes multidões. Infelizmente, o argumento tosco não provoca nem grandes risos, nem grandes prestações. A premissa de que as imagens idealistas construídas num primeiro encontro seriam contrastadas com a realidade proléptica é rapidamente esquecida e passa a preguiçosa linha de união de aborrecidos sketches. A preguiça incompetente transpira ainda na aparição inconsequente de Nelly Furtado, como Nelia, ou num outro momento em que Jack, produzindo uma sitcom, nos obriga a rever a sua história de amor com Maria, numa iteração com ainda menos piada, fundida com elementos de Casei com Uma Feiticeira.
Este artigo não segue o novo acordo ortográfico.

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