Com Sibelius, num palco de teatro
Texto: NUNO GALOPIM
A editora Naxos tem vindo a dedicar alguma atenção à obra orquestral de Jean Sibelius (1965-1957), compositor cujo papel na criação de uma identidade para a música finlandesa lhe valeu, há poucos anos, a instituição de um Dia da Música nacional precisamente na data que assinala o aniversário do seu nascimento. Esta série de lançamentos tem assinalado também uma evidente ligação finlandesa às novas interpretações e consequentes gravações, seja por via do maestro Pietari Inkinen (que, apesar de estar aos comandos de uma orquestra da Nova Zelândia, assinou uma integral da obra sinfónica do compositor seu compatriota), seja através da Orquestra Filarmónica de Turku, a mais antiga do país. Já com vários discos com obras de Sibelius, esta orquestra mergulhou há poucos anos numa investida sistemática sobre o trabalho do compositor feito para teatro. E este é já o terceiro disco que nasce desse projeto.
Estreada em 1893, a peça de teatro Peleas e Melisanda (no original Pelléas et Mélisande), de Maurice Maeterlink, tinha já conhecido uma adaptação para os palcos de ópera por Claude Debussy em 1902, música incidental de Gabriel Fauré e William Wallace para produções teatrais no Reino Unido, respetivamente em 1895 e 1897 e inspirado um poema sinfónico de Arnold Schoenberg que seria estreado em 1905, dois meses antes de uma mesma abordagem musical a este universo por Jean Sibelius.
Em 1904 Sibelius tinha acabado de se instalar na cidade de Jarvenpaa (onde mais tarde viveria a etapa muitas vezes referida como de “silêncio”, dado que durante cerca de 30 anos ali não assinou novas obras de grande fôlego). Entre os primeiros trabalhos que ali completou conta-se a música incidental que então lhe foi encomendada para uma produção sueca da peça de Maeterlink. Sem ligações de referência às demais leituras feitas a partir do mesmo texto, a música incidental de Sibelius revelou dez quadros que ajudaram a fazer da peça um dos grandes acontecimentos da temporada teatral em Helsínquia.
A coesão destes vários elementos era tal que, mais tarde, ao criar uma suite sinfónica para apresentação em salas de concerto, Sibelius manteve nove dos dez quadros, criando assim uma peça orquestral em nove andamentos. Ao abordar este corpo de trabalho no quadro do levantamento e gravação da obra do compositor para o teatro, a orquestra de Turku, dirigida por Leif Sergenstam, retoma contudo aqui os dez quadros originalmente estreados em 1905 (o que não constitui um hábito numa discografia de uma obra frequentemente mais evocada através da suite que fez carreira, depois do palco de teatro, entre programas de concertos orquestrais).
Uma música claramente pensada para servir cenografias e o acompanhamento de uma narrativa, herdeira de ecos do romantismo, faz de Pelléas et Mellissante um episódio maior nesta viagem teatral em curso. Para completar o alinhamento foram selecionadas outras peças de música incidental e duas valsas.
“Pelléas et Mélisande”, de Jean Sibelius, em interpretação pela Orquestra Filarmónica de Turku, dirigida por Leif Sergenstam, tem edição em CD pela Naxos. E está disponível em formato digital em serviços de streaming e download.

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