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Umas férias com Jacques Tati

Texto: RUI ALVES DE SOUSA

Uma retrospetiva integral do realizador Jacques Tati vai animar Lisboa e Porto nas últimas semanas de Verão. Um ciclo para recordar, ou descobrir pela primeira vez, a obra de um génio do cinema.

Eis o grande acontecimento desta pré-reentré, pré-cansaço diário, pré-regresso às rotinas, ao quotidiano e ao conformismo da sociedade mecanizada e informatizada, num mundo dominado pela informação super-sónica e pelo domínio crescente das máquinas no mundo dos humanos. Não, esse mundo não é de um qualquer filme de ficção científica pós-apocalíptico, e é antes uma realidade bem palpável – ou aliás, bem… real. Uma realidade que um autor, através da linguagem do cinema, conseguiu satirizar de uma maneira única, em filmes que podem ser vistos, a partir desta semana, no espaço Nimas. Fez sátira “séria”, sim, mas também fez gags como tão poucos conseguiram no grande ecrã: desde o mundo do circo à simples vida na mais anónima das províncias francesas, Jacques Tati brincou com tudo e todos, levando a limites nunca antes vistos (e, em cada filme, com novos contornos), a arte do slapstick e da ironia da mais refinada comédia física.

Não é a primeira vez que os cinemas da Medeia acolhem Tati nas suas salas. Houve uma reposição dos seus quatro filmes mais conhecidos há mais de uma década, e que foram mais tarde editados em DVD. Essas cópias, em película, foram repostas, em diversas ocasiões especiais, ao longo dos últimos anos, pela mesma distribuidora, com o objetivo de reavivar sempre o interesse pela obra do cineasta. Todos esses esporádicos regressos de Tati foram bem recebidos pelo público.

E não é para menos: com pouco mais de uma mão cheia de filmes a preencher a sua filmografia, Jacques Tati continua a cativar espectadores e influenciou realizadores e comediantes de todos os cantos do mundo (como David Lynch, Peter Sellers a Rowan Atkinson, por exemplo), e de cada vez que voltamos ao universo de Tati, é como se continuássemos sempre a descobrir tudo do zero. Porque cada revisitação que fazemos aos seus filmes traz sempre uma novidade, já que vemos de outra forma tudo aquilo que pensávamos já conhecer bem. Títulos como O Meu Tio e Playtime – Vida Moderna levam-nos sempre a encontrar novos pormenores e ideias que antes nos passaram despercebidos, e que são provas da criatividade inesgotável do cineasta do encanto, e do riso provocado pelo gag sofisticado, satírico e filosófico.

Mas agora, o ciclo que vai ocupar o espaço Nimas (e o Teatro Municipal do Campo Alegre a partir de dia 1 de setembro) propõe um outro programa, e uma viagem mais extensa e detalhada ao universo do mestre da comédia francesa: pela primeira vez, os espectadores portugueses poderão encontrar todos os filmes, longas e curtas metragens, que Tati realizou e/ou interpretou, no grande ecrã, através de novas cópias restauradas de excecional qualidade. Poderemos ver ou rever as várias personagens icónicas idealizadas por Tati, mas acima de tudo, conseguiremos recordar a personagem que o eternizou: o carismático Sr. Hulot, um cavalheiro simpático e que, ao mesmo tempo, está totalmente desenquadrado da sociedade – uma situação que acaba por gerar, na maioria das ocasiões, as maiores catástrofes.

É, por isso, altura de regressar à aldeia pitoresca que faz pouco do carteiro desastrado (Há Festa na Aldeia), ou à caricata estância balnear onde vários banhistas testemunham o caos provocado pelo ingénuo Sr. Hulot (As Férias do Sr. Hulot), ou ainda, a um circo repleto de nostalgias, de risos e de aplausos cheios de energia, no telefilme filmado em vídeo e em película que foi o canto de cisne de Tati (Parade). Uma oportunidade para recuperar a memória dos mais velhos e dar a conhecer um novo mundo aos mais novos, através de um imaginário ímpar que apontou a sua arte a diversos objetivos e a vários alvos da sociedade moderna.

Um cineasta que não conseguiu filmar tudo o que quis, mas que deixou um legado maior do que parece. Devido a diversas questões  financeiras (em grande parte causados pelo gigantesco prejuízo da colossal obra prima Playtime), Jacques Tati deixou vários projectos inacabados, e ideias que nunca passaram da folha de papel. Mas os “poucos” filmes do cineasta valem pelas várias gerações que conseguiram emocionar, e a originalidade, que ainda hoje se mantém intacta, do seu Hulot e da forma de fazer crítica social das suas histórias, demonstra o valor universal da sua obra. E é digno de nota recordar um filme, feito por outro realizador, que conseguiu construir uma notável animação a partir de um guião singular deixado na gaveta, e que exemplifica a grande importância que Tati ainda mantém nos nossos dias: falamos de O Ilusionista, belo filme de Sylvain Chomet (autor do célebre Belleville Rendez-Vous) que pode servir como um ótimo compêndio a este ciclo da Medeia.

Mas para já, aproveitemos o final do Verão para mergulhar na sala escura. Deixemo-nos levar pelas peripécias de Hulot e companhia, e que miúdos e graúdos possam ver, em condições apropriadas, o trabalho de um dos cómicos mais influentes do século XX.

Estas novas cópias não substituem a grandeza da qualidade original dos filmes e do sistema analógico de exibição dos mesmos, mas é uma delícia ver o detalhe e a riqueza das texturas destas novas versões restauradas, que recuperam, da melhor maneira possível, as intenções originais dos planos e da fotografia de cada uma destas singulares comédias. Já as curtas-metragens poderão ser vistas numa sessão à parte, com exceção de As Aulas Noturnas, que acompanha as sessões de Há Festa na Aldeia.

O ciclo Verão com Jacques Tati começou já em Lisboa, no Espaço Nimas, chegando na próxima semana, no dia 1 de Setembro, ao Porto, no Teatro Municipal do Campo Alegre.

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