One Direction em dez canções: o fim de uma era?
Escolhas e texto: JOÃO MOÇO
Reality ruined my life, cantavam os One Direction há três anos, em I Would. Quando na segunda-feira de manhã acordei com uma dor de garganta chata e uma ligeira dor de cabeça e, depois, li por todo o lado que o que eu temia há muito tinha sido semi-confirmado – o fim dos One Direction – percebi que esses sintomas eram só o meu corpo a tentar lidar com uma notícia que aguardava sem vontade alguma há já uns meses.
As notícias que têm corrido todo e qualquer site deste mundo falam de uma pausa por tempo indeterminado e já se sabe bem o que é que esta expressão quer dizer. Se não quisessem acabar, simplesmente nem referiam essa tal “pausa”.
Na verdade, já foi uma proeza terem alcançado tanto. Em cinco anos deram 325 concertos (números da BBC), lançaram quatro álbuns de estúdio (com um quinto já anunciado para o final deste ano) e tiveram dois filmes. E se sempre se despedirem no início de 2016 (após a promoção desse quinto álbum), saem na mó de cima. Boybands do passado como Backstreet Boys, Nsync ou Take That não tiveram uma primeira vida tão duradoura e tão bem sucedida (comercial e criativamente) como os One Direction.
Musicalmente o grupo nascido no The X Factor foi particularmente atípico no contexto mainstream em que viveram. Ao contrário do historial de boybands que os antecede, nas suas canções os One Direction estabeleceram poucas ou mesmo nenhumas relações com a pop mais dançável e com os ritmos r&b. As guitarras foram preteridas e de disco para disco foram aprofundando as suas relações com o rock de estádio. Bruce Springsteen, Journey, The Who, Def Leppard e, num outro espectro, os Fleetwood Mac são referências que pontuam na obra do grupo britânico (especialmente nos últimos dois discos). Isto tudo aliado ao um certo homoerotismo que sempre os caracterizou criou uma identidade peculiar que certamente ajudou neste percurso.
A saída de Zayn Malik no início do ano foi triste não só pelo que isso significava (o primeiro passo do fim), mas também porque foi a saída de cena (talvez temporária, quem sabe) de uma voz de origem muçulmana num contexto pop tão branco, tão homogéneo.
Escolher as dez melhores canções dos One Direction não foi tarefa fácil para alguém tão obcecado como eu, mas aqui fica um possível retrato de um dos grupos que mais me marcou. Para sempre.
Kiss You
O terceiro single retirado de Take Me Home (2012), o segundo álbum de estúdio, é um portento powerpop infalível. Foi aqui, e com este teledisco (com referências óbvias a Elvis Presley e Beach Boys), que a minha obsessão começou. Guitarras em velocidade cruzeiro que servem para que os cinco rapazes lancem tiradas provocatórias ao ouvinte (escondidas sob uma falsa inocência), enquanto no vídeo esse jogo de provocação é, de certa forma, feito entre eles, criando ainda mais expectativa quanto ao que eles querem de nós.
Fireproof
Pode uma boyband fazer uma homenagem perfeita aos Fleetwood Mac? Esse parece ter sido o objectivo dos One Direction em Fireproof, canção retirada do último álbum, Four (2014). Desde a singeleza das harmonias vocais incorpóreas que lembram, em muito, a canção Sara (de Tusk, dos Mac), a um jogo rítmico devedor da Dreams (de Rumours), Fireproof desafia todos aqueles que teimam em querer colocar as boybands numa gaveta.
Still The One
Como Brad Nelson lembrou no The Guardian, Still The One é quase como uma nova versão de What Makes You Beautiful (o single que os revelou ao mundo), aqui aperfeiçoada por um refrão catedralesco onde as cinco vozes brilham em uníssono.
Stockholm Syndrome
Se em Fireproof o grupo homenageou os Fleetwood Mac, aqui constroem uma ponte até Everybody Wants to Rule the World, dos Tears for Fears. Uma tensão quase-funk musculada, enquanto Harry Styles, Zayn Malik, Louis Tomlinson e Niall Horan conseguem uma das suas melhores performances enquanto conjunto, confiante e eficiente. O coro espectral que circunda o refrão no último minuto – “look what you’ve done to me” – é pura magia e dá todo um significado ao título da canção.
Change Your Ticket
Um dia hei-de escrever sobe a influência que os The 1975 já estão a ter na pop contemporânea (basta para isso ouvir a Let’s Get Lost, de Carly Rae Jepsen, a Disconnected, dos 5 Seconds of Summer, ou até alguns momentos do Communion dos Years & Years). Apesar de no ano passado Matt Healy (dos The 1975) ter estado em estúdio com os One Direction, não saiu desse encontro nenhuma canção, mas Change Your Ticket podia bem ter sido o resultado desse encontro. A canção, presente no álbum Four, é a descendência directa de Girls, com um riff de guitarra à la Prince de Kiss que conduz o tema enquanto os cinco rapazes cantam sobre não querer sair do quarto de hotel. (In)felizmente sabemos bem o que é que eles querem dizer com isso.
No Control
A canção do repertório do grupo que mais injustamente não foi escolhida para single, por muito que os fãs tenham tentado em tudo o que era rede social. Novamente guitarras em velocidade cruzeiro num tema onde Louis (e também Zayn no seu falsete perfeito) canta no refrão sobre perder o controlo quando tem sexo com quem admira. Porque esta banda gosta, acima de tudo, de provocar ao máximo quem os ouve com devoção.
Diana
A par de No Control (do álbum Four), o facto de Diana não ter sido single do álbum Midnight Memories é uma perfeita injustiça. Retrato de alguém que está a tentar ultrapassar uma depressão e que serve também como uma carta da banda para os fãs – “Let me be the one to lift your heart up and save your life, I don’t think you even realize, baby, you’ll be saving me”. E a inocência da performance de Niall é de derreter qualquer um.
Night Changes
Mais que uma canção do grupo melhorou substancialmente quando foi divulgado o respectivo teledisco (Kiss You, Best Song Ever, Story Of My Life), mas nenhum vídeo fez tanto por uma canção do grupo como o de Night Changes. No teledisco o espectador é levado a um encontro personalizado com cada um dos (então) cinco One Direction, abrindo-se então uma porta (fictícia) de aproximação que conquista quem, à partida, anseia essa ligação há “séculos”. A canção podia ser um dos momentos mais singelos do álbum Fearless (2008), de Taylor Swift, mas a performance de cada um dos One Direction é tão calibrada que, na verdade, esta acaba por ser a grande balada da carreira do grupo, que brilhou mais na escalada powerpop.
She’s Not Afraid
She’s Not Afraid é a confirmação que uma boa parte das melhores canções dos One Direction são faixas que só se encontram nas edições deluxe dos álbuns (Still the One e Change Your Ticket já foram mencionadas, acrescendo ainda a Does He Know?).
Strong
Canção retirada de Midnight Memories (2013), Strong é um autêntico desafio à construção social de masculinidade assente numa premissa que impossibilita qualquer tipo de exposição emocional ou até de vulnerabilidade. Basta para isso sentir a fragilidade com que Niall canta “I’m sorry if I say I need you, but I don’t care I’m not scared of love, ‘cause when I’m not with you, I’m weaker, is that so wrong? Is it so wrong”. E é também uma canção de uma riqueza melódica sempre surpreendente.

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