A região demarcada de Lene Lovich
Texto: NUNO GALOPIM
Uma das mais interessantes consequências da “revolução” punk foi o alargamento dos horizontes das possibilidades que muita criação pop rock ensaiou perante o grito de liberdade que mudara o mapa dos acontecimentos depois das revelações finalmente reveladas nos dois lados do Atlântico entre 1975 e 76. O termo pós-punk na verdade define mais um espaço temporal de acontecimentos dentro de eventuais novas fronteiras estéticas. Entre nós, na altura, usava-se para agrupar alguns desses acontecimentos a expressão “new wave”. E ali cabiam Elvis Costello, Ian Dury, os Madness, os Shirts ou os Talking Heads, uma vez mais definindo-se aqui uma linha de acontecimentos de geografia sonora bem mais alargada do que tantas outras expressões de “género” (musical, entenda-se) por vezes refletem. Lene Lovich era uma figura com algum impacte nesse panorama que viveu os seus dias entre finais dos anos 70 e inícios dos anos 80, contemporâneo portanto da eclosão do movimento new romantic (que nos EUA muitas vezes são arrumados na prateleira new wave) ou a primeira geração da emergente pop electrónica. Pela sua música havia marcas de época evidentes na forma de encontrar nas guitarras a força na condução de canções de alma pop. Mas a presença de teclados, de metais, de um sentido cénico invulgar e uma vocalização claramente ímpar, mostravam em si marcas de identidade que demarcaram imediatamente um lugar para si logo ao primeiro single. O impacte significativo desse Lucky Number (que na verdade começara a ser criado como um lado B para uma versão de I Think We’re Alone Now), que esmaga em popularidade toda a restante discografia de Lene Lovich, faz com que por vezes haja quem a recorde como figura de um só êxito. Basta ouvir os discos que editou (sobretudo os primeiros) para reconhecer que, como em tantos outros casos, o sucesso nas vendas de discos não mede necessariamente a real expressão de uma obra.
Nascida em 1949 nos EUA (com pai sérvio, daí o apelido do seu nome real: Lili-Marlene Parmilovich), mas criada no Reino Unido desde os 13 anos, começou desde logo por apontar o seu futuro a uma carreira nas artes. E foi para impedir que os cabelos se misturassem com a argila em aulas de cerâmica e escultura que criou aquela forma de os prender que acabaria por ser imagem de marca que ainda de hoje não dispensa. A construção de uma personalidade invulgar deve certamente muito ao percurso, que a fez trabalhar como dançarina ou gravar gritos em filmes de terror. A música surge cedo, com primeiras experiências em bandas, chegando mesmo a gravar um álbum com os Diversions (onde o safoxone tinha já um certo protagonismo).
Lene Lovich tinha já editado um EP de Natal em 1976 quando um DJ apresenta uma gravação sua à Stiff Records (casa que teria um papel central nas movimentações “new wave” pelo Reino Unido em finais dos setentas e inícios dos oitentas). A ideia de gravar a versão de I Think You’re Alone Now como single cede perante o aparecimento de Lucky Number, que abre um capítulo numa discografia que em breve teria continuidade no álbum Stateless (1978) que traduz já as marcas de identidade da cantora, com segundo e ainda mais sólido passo (e um melhor corpo de canções) no sucessor Flex (1980). O mundo dos sonhos, temas como a reincarnação ou inspiração colhida em livros de Charles Darwin ou Pierre Boulle materializam-se num disco de cenografia apurada e no qual há espaço para a experimentação de soluções invulgares, como as imitações de sons de pássaros que abrem Bird Song, nascidas de uma gravação inesperada que ela mesmo fez a meio de uma noite, tentando captar o que acabara de imaginar (tal como Keith Richards o fizera em 1965 com Satisfaction).
O EP New Toy (1981), no qual colaborou Thomas Dolby antecedeu o terceiro álbum No Man’s Land (1982). Mais luminoso e menos intenso este terceiro disco passou longe das atenções e, juntamente com um single no projeto Dolby’s Cube (de Thomas Dolby) e um outro em colaboração com Nina Hagen, criado em campanha pelos direitos dos animais, o LP só conheceria real continuidade em 1989 em Wonderland, que retoma as sonoridades clássicas da sua obra, tal como o faria em 2005 o seguinte Shadows and Dust, nenhum deles porém capaz de cativar atenções maiores (valendo contudo a pena sublinhar que a canção-tema do disco de 89 merece um lugar entre os temas de referência de Lene Lovich).
Com o teatro, a vida familiar e outros afazeres a dominar atenções em outras etapas, a música só voltou ao centro de gravidade da obra de Lene Lovich quando, em 2012, fundou a Lene Lovich Band, que a devolveu à estrada e com a qual se apresenta agora em Leiria. A criação da Flex Music, com a qual gere o seu catálogo, permitiu-lhe já lançar uma caixa antológica Flex001 que reúne os três álbuns lançados entre 1978 e 82 e um CD extra com raridades. A nova banda ainda não editou material novo.
O concerto integrado hoje no Entre Muralhas representa o seu regresso a Portugal após mais de três décadas volvidas sobre uma atuação em Cascais.
Podem recordar aqui algumas canções suas:
Say When (1978)
Bird Song (1980)
New Toy (1981)

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