Miguel Fernandes: “O LISB-ON poderá afirmar-se como espaço de divulgação de tendências que nem sempre merecem atenção”
Texto: ANDRÉ LOPES
Fez o seu percurso profissional na indústria da diversão noturna. O apreço pela música e a vontade de criar e gerir eventos próprios nasceu com a profissão, ou houve algum momento determinante que o levou a pensar em ir mais longe?
Foi um pouco dos dois. Se por um lado o gosto pela música foi algo que foi crescendo por estar perto de algumas cabines (e com acesso direto), por outro, à medida que ia desenvolvendo competência profissional, fui ganhando uma outra perspectiva do que seria organizar eventos.
Quais os sinais que Portugal (e Lisboa, em concreto) lhe deram para que sentisse a necessidade de criar um festival como o LISB-ON?
Foram aqueles que resultavam da comparação com outras cidades e uma crença de que tínhamos (Portugal, e Lisboa em especial) condições para fazer bem feito. Confesso que o LISB-ON começou por ser pensado como uma festa diurna, em que rapidamente percebemos que poderiam ser dois dias de festa. Assim que se tornou público, batizaram-nos de festival, e eu rendi-me à evidência. Existe um reconhecimento cada vez mais forte sobre a qualidade da experiência “Lisboa”. Se lhe juntarmos as condições climatéricas, a luz única e as características de um povo afável, a sua história, a cultura e diversão, percebemos que estamos em terreno fértil para eventos que podem ambicionar uma projeção além portas.
Na sua opinião, quais são as características do LISB-ON que o diferenciam dos restantes festivais que acontecem em Portugal? De que modo é que essas características são aproveitadas?
Em termos de horário tiramos proveito das condições naturais e fazemos do início da tarde (14h00) o arranque das atuações, num recinto pensado e projetado ao detalhe; quanto ao local – dispomos de um espaço – o Jardim do Parque Eduardo VII – com excelentes condições, no coração de Lisboa. É fácil e rápido, chegar e regressar, seja qual for o transporte escolhido. Se assumirmos que a promoção da marca Lisboa está na génese do LISB-ON, então podemos assumir a importância da experiência acontecer num local que é um emblema da cidade (e não nos arredores)! Quando pensámos em datas, o desafio foi criar um espaço próprio, que não colidisse com algo já existente na cidade. Isso empurrou-nos para o inicio de setembro. Ainda é Verão e é também a altura em que muitos lisboetas regressam de férias. Por outro lado, e graças ao facto de Lisboa ser cada vez mais uma cidade all-season, a data escolhida permite-nos a ambição de chegar a muitas pessoas que, ou ainda estão de férias ou a fazer turismo! A responsabilidade social – é no nosso caso mais do que um cliché. Chamámos a nós uma causa social que também é um tema que diz respeito à cidade. Falo dos animais abandonados indiscriminadamente e das pessoas que se empenham seriamente, e em grande parte em regime de voluntariado, em acolher, tratar e alimentá-los. Apadrinhámos a causa e apoiamos expressivamente a “Casa dos Animais de Lisboa”. Este ano, para além dos apoios que temos assumidos para todas as edições, lançámos o repto a todos os que nos visitarem a fazerem um donativo, do valor que quiserem. O valor que deixarem nas pulseiras (chip porta-moedas usado como forma de pagamento dentro do recinto), será doado à CAL. Assim todos podemos contribuir! Uma outra característica diferenciadora do LISB-ON passa pelo associativismo – com tanta oferta, sobretudo na noite, nasceu a ideia de promover o trabalho dos players que já existem e que passam o ano a fazer de Lisboa uma excelente experiência de música, cultura e diversão. São bares, restaurantes, clubes, galerias de arte, lojas de roupa, hostels que designamos de “Associados” e que programam especificamente para este fim-de-semana, dando assim uma continuidade ao que acontece durante o dia. Acredito que temos todos a ganhar com esta envolvência e felizmente temos sido muito bem recebidos.
Há alguma relação entre o seu percurso profissional e forma como imaginou e programou o LISB-ON?
Existe intrinsecamente uma relação entre as experiências que fui acumulando e aquilo que faço hoje no LISB-ON! Diria até que terá sido pelas noites de trabalho, que passei a dar mais importância ao dia. A determinado momento achei que faria todo o sentido divertir-me à luz do dia, um pouco à semelhança daquilo que era o tipo de diversão noturna, mas com um outro enquadramento. Na altura em que o fiz, fui rapidamente confundido com o segundo after. Isso levou-me a atrasar o inicio da festa para as 15h00 e acabar com todas as dúvidas. Estou a falar do final dos anos 90. Não me revia na ideia de desenhar e implementar outro after, fosse qual fosse. E dessa experiência resultou a noção de que, com as devidas distâncias e a necessidade de enquadramento, o dia tinha um grande potencial enquanto momento de convívio e celebração. O LISB-ON começa por ser uma experiência diurna (ou maioritariamente diurna). É uma festa pensada para a cidade, que se divide em dois momentos, começa de dia e prolonga-se pela noite. De dia, das 14.00 às 24.00 no sábado e das 14.00 às 23.00 no domingo, assaltamos o emblemático e central Jardim do Parque Eduardo VII, desenhando um recinto pensado com detalhe para acolher em harmonia as atuações das bandas, live e DJ sets, e as cerca de 5.000 pessoas que esperamos. E de noite, promove a programação dos Associados para quem desejar continuar… O cartaz resulta de preferências e da necessidade de enquadrar a música de que gostamos num jardim e dentro deste horário. É por isso que referi os diferentes formatos, que nos merecem separadamente igual importância. O LISB-ON está longe de ser a transposição direta de uma pista de dança de madrugada, para um jardim a meio da tarde. Pode até chegar lá, mas com outras “preocupações”. Na música, é um espaço de divulgação, tanto de referências como de promessas internacionais, e um meio de promoção para projetos portugueses com um twist de electrónica.
Considerando a primeira edição que aconteceu no ano passado, o LISB-ON parece ter conseguido um ambiente que se apresenta como mais relaxado do que aquilo que conhecemos dos demais festivais lisboetas. Esse era um dos seus objectivos para o evento?
“Festival” é um termo associado a coisas boas (boa música, amigos, diversão,…) e às vezes associado a algumas menos boas (confusão, falta de conforto, oferta de serviços reduzida e de qualidade discutível). Um dos objectivos do LISB-ON é proporcionar duas tardes, muito bem passadas! Um recinto capaz de acolher mais do que uma geração, que se revê na necessidade de assegurar conforto e qualidade nos diferentes serviços que presta de forma transversal. Ao nível das bebidas, mais do que a icónica cerveja – sempre festivaleira – dispomos de um bar de cocktails desenhados por “entendidos na matéria” especificamente para esta ocasião. Na comida, encontraremos diferentes conceitos com a intenção de poder satisfazer até os mais exigentes (e gulosos também). Existe nesta edição uma ligação à street art, onde poderemos assistir ao vivo à construção de duas peças por artistas portugueses, no decorrer dos dois dias de festival. Como em todos os concertos, a frente de palco é sempre um lugar de alguma pressão, mas assistir a uma banda refastelado numa manta de piquenique com espaço para brincar com as crianças também é possível. E no LISB-ON, faz todo o sentido.
No ano passado, o cartaz deixava saliente uma heterogeneidade de sons que, transversalmente, continham uma afinidade acrescida com o trabalho rítmico. Houve funk, soul, nu-disco e jazz. Este ano o cartaz parece assentar nas eletrónicas mais dançáveis, o que levou a esta alteração?
Quando falamos de música, estamos sempre a falar de coisas de que gostamos muito. Sim, é verdade que o cartaz de 2014 era mais heterogéneo e, na minha opinião, foi também importante assumirmos essa diversidade como um statement. A edição deste ano, poderá dizer-se estar mais focada em “electrónicas mais dançáveis”, mas sem esquecer que a presença dos Jazzanova, por exemplo, nos ajuda a entender a maneira como hoje consumimos essas electrónicas. E no conjunto, quando olho para a edição deste ano vejo pop, nu-disco, algo com atitude de Jazz e algumas variantes de house. Se dermos por verdade que existe uma relação entre cartaz e público, eu diria que o alinhamento deste ano é mais abrangente O cartaz também é um lugar para a “experimentação” e às vezes até temos vontade de arriscar mais. Vamos ver como corre este ano e algo teremos a aprender, seguramente.
Considera que a música de dança beneficia de ambientes mais luminosos como os finais de tarde no Parque Eduardo VII?
Essa pergunta é matreira. Por um lado, concordo com quem diz que existem ambientes mais propícios para algumas tendências da música de dança, à noite. Por outro, se “dança” puder ser só a reação corporal a algo que ouvimos, não tem hora nem estilo pré-definido. Eu diria, “com o lápis atrás da orelha” que quanto mais tarde, mais “forte” e “intensa” a música de dança se assume. E isso deixa de fora “coisas” mais calmas e contemplativas que por vezes não encontram espaço nas programações de espaços dedicados à diversão noturna. O LISB-ON pode, e na minha opinião deve explorar esse racional, procurando enquadrar-se musicalmente no local e no horário. O horário permite-nos o melhor dos dois mundos.
O formato que o LISB-ON tem atualmente foi aquele que sempre idealizou para um festival gerido por si, ou continua a propor novas metas? De que forma gostaria que o festival evoluísse no futuro?
Sim, ainda estamos no formato que idealizamos e também é verdade que logo na segunda edição tive o desafio de corrigir alguns aspectos e melhorar outros, que resultaram da primeira edição. Parece-me que, quase como tudo, estes processos são evolutivos, e nesse sentido, a cada edição, estas afinações trarão diferenças à medida que o tempo for passando. No futuro, vejo o LISB-ON com cada vez maior abrangência na cidade. Ou seja, por exemplo, com cada vez mais envolvimento dos Associados. Por outro lado, começo a ter razões para acreditar que num futuro breve a quantidade de estrangeiros que nos procuram, aumentará. Esta confiança vem do facto de este indicador já ter dobrado de 2014 para 2015. Também acredito que com regularidade, o LISB-ON poderá afirmar-se como um espaço de divulgação de algumas tendências que nem sempre merecem a devida atenção em Portugal, talvez por no nosso caso não termos a escala para criar massa crítica em alguns géneros. Vejo o LISB-ON a ajudar a construir essa mesma massa critica e em simultâneo promover a música portuguesa.

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