O cinema sonoro de Dan Bejar
Texto: NUNO GALOPIM
E de repente passaram quatro anos. Foi em 2011 que Kaputt lançou a música do canadiano Dan Bejar para um outro patamar cénico de visão maior, abrindo novas oportunidades a uma escrita que tinha já dado belos instantes a escutar em álbuns imediatamente anteriores como Your Blues (2004), Destroyer’s Rubies (2006) ou Trouble in Dreams (2008), sobretudo neste último sentindo-se que aquela matéria prima pedia outros desafios. Kaputt de facto levou a música do projeto Destroyer (o mais pessoal dos projetos de Bejar) a num outro lugar, cruzando linguagens, formas, da complexidade convocada surgindo contudo um lote de canções não só bem arrumadas como de arestas nítidas e apelo sedutor.
Poison Season é agora uma consequência direta de tudo o que Kaputt colocou em cena, sobretudo a capacidade de ir para a estrada com um maior número de músicos, amplificando as texturas disponíveis e visionando outras experiências possíveis seguindo mais adiante pelos mesmos caminhos. É certo que houve outros acontecimentos a preencher a agenda destes quatro anos, do EP de versões cantadas em espanhol Five Spanish Songs (2013) a uma nova reunião dos New Pornographers da qual surgiu Brill Bruisers, um dos mais sólidos álbuns da discografia dessa super-banda à qual Bejar também pertence, passando por WZO, segundo álbum do projeto Hello, Blue Roses, que partilha com Sydney Vermont.
Seguindo assim por caminhos que decorrem diretamente daqueles que Kaputt começou a experimentar em 2011, o novo disco retoma essa mesma ideia de cenografia mais elaborada cruzando o trabalho de arranjos orquestrais, atmosferas jazzy e momentos de travo vintage ainda mais clássico – como se escuta no magnífico Hell – para nos dar canções que, apesar de uma alma indie rock profunda, preferem escutar cordas, sopros e pianos às soluções mais habituais nos espaços a que o passado da música do próprio projeto Destroyer estava ligado.
Além de toda esta construção instrumental, que suporta uma música intensa e com fulgor cinematográfico, Poison Season toma a cidade de Nova Iorque como protagonista, criando as canções um retrato de lugares e vivências da cidade pelas quais houve já quem notasse (e com razão), ecos de Lou Reed a David Bowie. Times Square pode ser uma porta de entrada. E vale a pena perdermo-nos depois entre as ruas e avenidas que por aqui se cruzam.
“Poison Season”, de Destroyer, tem edição em LP e CD pela Merge/Dead Oceans. O disco está também disponível nas plataformas digitais de streaming e download.

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