A heroína da ‘banlieue’
Texto: ANA DAVID
Depois de Water Lilies (2007) e Tomboy (2011), Céline Sciamma filma um pouco comum, mas não único, filme banlieue: sobre raparigas, por uma realizadora. Passado num subúrbio de Paris e onde as personagens principais são adolescentes (o belíssimo Um Fim do Mundo de Pedro Pinho vem inicialmente à memória), Bando de Raparigas (Band de Filles no original) segue a a principio tímida Marieme (Karidja Touré) na sua transformação endiabrada e procura por auto-conhecimento, num conjunto de “dores de crescimento” mais duro do que a comum rapariga ocidental experiência.
Céline Sciamma faz um retrato pungente – com a ajuda de um jovem elenco convincente e fascinante – de alguém que não se conforma com as oportunidades desoladoras a que é deixada aceder (ensino técnico, limpezas com a mãe) nem com um seio familiar instável e escolhe percorrer um caminho diferente que a emancipe. Mas esta libertação é feita pela violência e masculinização. Marieme, que se passa a chamar Vic depois de fazer amizade com três bad girls que a acolhem como quarto elemento, vai (repentinamente) perder a inocência e passar a roubar na escola e em lojas, a envolver-se em lutas com raparigas “rivais”, a fazer-se acompanhar de uma faca, e quando damos por ela, a vender droga em festas da classe alta. Num caminho solitário, cruel e obstinado que faz lembrar o herói de Drive, esta heroína não o poderia, aparentemente, ter sido de outra forma. O heroísmo, toda a cultura nos disse sempre, é uma actividade masculina e, como tal, também a sua experiência e o seu corpo tiveram de ser masculinizados: Vic passa a vestir-se com roupas largas, enfaixa o peito, usa o cabelo curto, interrompe o contacto com as amigas e passa a estar rodeada por homens.
Num filme cujo elenco é todo negro, factor que jogou a seu favor na expectativa criada à volta do filme antes da sua estreia, Sciamma escolheu não poupar ninguém: os rapazes oprimem e policiam o espaço (aqui denunciando uma realidade que se tornou parte integrante da experiência de ser mulher), as raparigas roubam e lutam entre si perpetuando a violência contra os corpos femininos, o irmão mais velho comete abuso psicológico e físico sob si, a mãe é totalmente ausente, e os novos adultos na sua vida iniciam-na no tráfico de droga. Num contínuo catalogar de más acções e representações, a irmã mais nova, até aí uma criança inocente, é apanhada a assaltar uma rapariga. E não falta a mãe adolescente que, antes de o ser, fazia parte do gang de amigas.
Filmado em scope, o filme é visualmente atraente (a pele negra nunca foi tão elogiada) e faz um retrato vibrante de uma certa cultura adolescente – a irreverência, as roupas, a banda sonora (ouve-se Rihanna e Light Asylum), a linguagem (“Paris” é “Paname”). Tudo isto encapsulado no marcante teaser que prometia um filme diferente, a transbordar de girl power. Mas passado esse entusiasmo com que o espectador o recebe, Bando de raparigas é, mesmo com todas as suas qualidades, mais um filme que reduz personagens negras femininas à sua posição social de vítimas de um sistema escolar e económico injusto, da opressão masculina, e do racismo. E de Céline esperava-se mais. Esperava-se que não caísse na estereotipação.

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