Ecos peruanos na música de Jimmy López
Texto: NUNO GALOPIM
Se Gustavo Dudamel colocou a Venezuela – e o seu El Sistema – sob os focos das atenções do panorama atual da música clássica e se a maestrina norte-americana Marin Alsop está a dar à Orquestra Sinfónica do Estado de São Paulo, no Brasil, uma nova visibilidade através de edições em disco no catálogo da Naxos (e há que ter atenção a uma nova gravação da Sinfonia Nº 3 – Kaddish, de Leonard Bernstein, que está aí mesmo a chegar), está na hora de assinalar mais um ponto sul-americano no mapa dos grandes acontecimentos que, entre estas músicas, estão ali a borbulhar em pleno século XXI. E nada como uma belíssima série de gravações que a Harmonia Mundi agora junta num mesmo disco para rumarmos ao Perú e, aí, descobrir a música de Jimmy López (que prepara neste momento a estreia da sua primeira ópera).
Natural de Lima, onde nasceu em 1978, Jimmy López iniciou a sua formação no Perú, completando-a depois entre a Academia Sibelius (na Finlândia) e na Berkeley College of Music (Estados Unidos). E desde 2001 tem colhido prémios e visto a sua música ser interpretada em vários palcos e por algumas das grandes orquestras do nosso tempo.
Apesar de ter obras suas editadas já em três discos anteriores, mas todos eles de discreto lançamento, Jimmy López tem nesta nova edição agora apresentada no catálogo da Harmonia Mundi o seu primeiro registo com um potencial para chegar mais longe e a um público alargado. A Orquestra da Rádio Norueguesa, dirigida pelo peruano Miguel Harth-Bedoya, apresenta neste disco quatro obras de Jimmy López. São elas Perú Negro (obra orquestral de 2012), Synesthesia (de 2011, uma peça para orquestra em cinco andamentos, em cada um sendo explorado um dos nossos cinco sentidos), Lord of The Air (concerto para violoncelo e orquestra, de 2012) e America Salvaje (poema sinfónico de 2006), baseada num poema do peruano Jose Santos Chocano que traduz a ideia de cruzamentos e choques de culturas – entre espanhóis e incas – que gera depois fusões que traduzem a história do país.
A música respira fulgor, mas também luminosidade, e segue caminhos de reencontro da música orquestral do nosso tempo com ecos da cultura folk local. A história da cultura afro-peruana, que recua aos tempos em que escravos ali chegaram, trazidos de África pelos espanhóis, é claramente celebrada em Perú Negro, a música procurando assim traduzir essas heranças e cruzamentos. A ideia de Jimmy López não é aqui a de juntar meros ecos dessas culturas, mas procurar antes uma forma de os assimilar através da sua própria linguagem musical.
Há aqui diálogos e uma noção de cenografia e jogos de placidez e tensão de alma quase cinematográfica. Há cruzamentos do passado com o presente, vibração de energia e, sobretudo, cor. Tal como Gershwin ou Bernstein traduziram na sua música o aqui e agora da América do seu tempo no quadro de uma orquestra, Jimmy López parece procurar aqui lógicas semelhantes para expressar a identidade geográfica e cultural peruana através do som de uma orquestra do século XXI.
“Perú Negro” de Jimmy López, pela Norwegian Radio Orchestra, dirigida por Miguel Harth-Bedoya, está editado em CD pela Harmonia Mundi. O disco está disponível nas plataformas digitais de streaming e download.

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