Escutar a voz interior em tempo de guerra
Texto: NUNO GALOPIM
Escutar a guerra como os filmes de guerra habitualmente a não mostram. Podíamos reduzir numa frase (que é naturalmente redutora) a essência de A Barreira Invisível, o notável filme no qual Terrence Malick partiu do romance homónimo de James Jones e do contexto factual da Batalha de Guadalcanal (episódio fundamental da guerra no Pacífico) e com o qual o realizador interrompeu em 1998 um hiato de 20 anos de silêncio após o anterior, e não menos brilhante, Days of Heaven.
Através de uma série de personagens, cada qual com a sua perspetiva, medos, anseios, sonhos, Malick compõe um ser coletivo cuja caracterização não se esgota na tensão dos combates, no receio de uma morte iminente ou na consciência da impossibilidade de controlar o mundo à sua volta. Todos eles querem saber quem são e o que fazem ali. E, assombrados pelo medo, a distância e, sob mais interrogações do que certezas, encontramo-los entre o capim, picadas, cursos de rios e praias, certos de que estes cenários de beleza natural escondem outras verdades menos sedutoras naquele momento.
Há no filme um curioso confronto entre o horror da morte e da batalha e a placidez dessa paisagem idílica que acolhe a evolução de personagens e narrativa. Entre ação e contemplação. Assim como é entre jogos de opostos que vive o espaço de relacionamento entre soldados e os “outros”, seja os japoneses com quem lutam (ao mesmo tempo sendo evidente que sentem o mesmo, da mesma forma) ou as populações locais com que se vão cruzando, eventualmente dialogando, mas que não deixam de sentir receio destes forasteiros de farda.
Com várias sequências que prenunciam uma linguagem poética que Malick aprofundaria logo a seguir em O Novo Mundo e, mais ainda, na sua obra-prima que é A Árvore da Vida, A Barreira Invisível explora, além da narrativa (bem evidente, de resto) e dos espaços e personagens, o seu mundo interior. E é desse saber na gestão entre o que vive, vê e faz e o que se pensa que se compõe uma obra absolutamente assombrosa, que muito deve, além da visão do realizador (e de uma belíssima direção de atores), a uma sublime direção fotografia, um trabalho notável na montagem e uma atenção maior para com a música que cruza um trabalho original de Hans Zimmer com obras já gravadas de outros compositores e registos de cânticos de povos daquela região do Pacífico.
É por isso que são verdadeiramente esclarecedores e úteis os extras que encontramos na edição em Blu-Ray do filme. A transcrição para HD é notável, assim como o som é digno de elogios. Dos extras vale a pena destacar uma série de entrevistas cruzadas com alguns atores (em que explicam sobretudo o trabalho de preparação que os fez passar por uma verdadeira agenda de treino militar e a dureza das condições de rodagem na Austrália), montadores (que não escondem a dimensão hercúlea do seu trabalho e de como foram abdicando de planos de diálogos para promover espaços de respiração que acabariam por definir os caminhos da alma do filme) ou o compositor Hans Zimmer (que aqui tem o seu melhor trabalho de sempre, explicando ainda como acabaram integradas na banda sonora as peças de Arvo Pärt, Charles Ives ou Gabriel Fauré que Malick optou por usar em algumas sequências).
Outro dos extras desta edição é uma coleção de reportagens/noticiários da época – as newsreels – sobre a Batalha de Guadalcanal. Produções sob o título United News mostram imagens reais dos combates, de grupos de soldados, navios, as ilhas… Com natural linguagem de propaganda (afinal não era só para dar notícias que estas imagens serviam).

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