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Na hora de trocar o elogio pela atenção

Texto: ANDRÉ LOPES

O projeto de Abel Tesfaye continua a surgir como um dos acontecimentos mais salientes do R&B feito nesta década. Contudo, o novo álbum parece apresentar uma clivagem forte para com os elementos que chamaram as primeiras atenções sobre The Weeknd.

À semelhança da música que cria, a forma como a carreira de The Weeknd se tem desenhado é também ela ímpar. Três discos lançados em 2011 – considerados pelo músico como mixtapes – e Kiss Land (2013) ajudaram a construir uma identidade própria a partir de um culto que se fez primeiramente centrado na incógnita quanto à autoria do projeto. Uma descoberta quase prescindível, já que na realidade esses primeiros discos servem como um retrato biográfico, independentemente da sua veracidade, de uma figura inquieta, que se propôs a construir um som só seu. Numa fase em que o R&B se renovava com o fulgor dos discos de How to Dress Well, Frank Ocean e Miguel, The Weeknd revestia as suas melodias com uma roupagem soturna, por via de uma produção nublosa o suficiente para cativar o público dado a sonoridades mais… alternativas.

O recurso insistente a sintetizadores e percussão programada nunca tivera até agora lugar na música de The Weeknd sem que fossem utilizados da forma mais noturna. Esse foi contexto sónico a que, disco após disco, a poesia de Abel Tesfaye se apoiou para uma interminável ode ao seu comportamento sexual e à forma claramente misógina com que olha para quem o rodeia. Beauty Behind the Madness não é exceção, já que apesar de uma escolha de produtores e fórmulas de canções que valorizam refrões mais abertos e ritmos mais acesos do que o habitual, as letras continuam a refletir a vontade de uma figura que pretende – e precisa – gritantemente que acreditemos nas suas verdades. Assim, as pulsões do id de Abel contaminam todo o alinhamento de um álbum que continua a navegar por territórios onde a soul dos anos 90 se cerca de um R&B algo “sofisticado”, para que o que aqui se escuta pareça novo.

E consegue-o, em parte. Quando Real Life abre o disco com o som de guitarra mais estéril possível, torna-se de novo percetível que todo e qualquer instrumento que por aqui se faça ouvir será somente um adorno para uma voz. Por oposição ao anterior Kiss Land onde a homogeneidade do som garantia conforto, em Beauty Behind the Madness incluíram-se elementos instrumentais mais diversificados e robustos – basta pensar no piano das três primeiras faixas do disco ou nos samples abrasivos de Often e The Hills.

A meio do alinhamento surge o single mais bem-sucedido do percurso de The Weeknd: Can’t Feel My Face é mais uma das boas aventuras de Max Martin (que tem aqui créditos de escrita e produção), cruzando memórias disco com a pop de Michael Jackson por alturas de Bad.

O conjunto de faixas que povoa a segunda metade do álbum tem por base ritmos mais apaziguados, a partir dos quais surgem bons momentos de reflexão sobre a obra de The Weeknd: o que ouvimos em Beauty Behind the Madness, não espelha de facto uma rutura para com a sonoridade dos discos anteriores. O machismo das letras, os samples distorcidos, a fusão da soul com o R&B mais inquietante continuam a ser – e sempre serão – parte integrante do cartão-de-visita de um músico que se soube apropriar dessa mesma sonoridade, primeiramente dirigindo-se a um nicho de admiradores, e agora apontando esses elementos a um grande público. Nada aqui há de fraudulento; e se a ambição pode ter resultados que não lhe equivalem, a verdade é que neste álbum Abel reformulou a sua fórmula na exata medida em que os seus objetivos também se alteraram: trocou-se o elogio unânime da crítica, por níveis generalizados quer de atenção, quer de popularidade. E consegue-o, na totalidade.

The Weeknd
“Beauty Behind the Madness”
Republic / Univeresal

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