LISB_ON: depois da tempestade
Texto: ANDRÉ LOPES Foto: FRANCISCO GONÇALVES SILVA
O contraste era flagrante e ainda bem: durante a tarde (e noite) do segundo dia de LISB_ON, nunca se viu repetida a azáfama associada às longas filas do dia anterior. Ainda que com lotação esgotada, houve uma ação eficiente por parte da organização do festival para que, desta vez, todos os presentes no jardim do Parque Eduardo VII pudessem circular livremente, sem grandes demoras e ao som de ritmos que foram além das latitudes europeias.
O início da tarde fez-se ao som de figuras nacionais, com as escolhas de Rui Miguel Abreu e em seguida, Mr. Herbert Quain, que mostrou aos presentes um pouco mais sobre o universo tão próprio que se faz ouvir em Forgetting is a Liability (2014). Associado a produções por vezes arrítmicas, Mr. Herbert Quain teve o cuidado de apresentar as suas faixas de acordo com uma vertente mais dada à extroversão que, por norma, não habita os seus registos. Percussão e baixo acentuado foi tanto quanto bastou para conseguir a adesão do público que, por fim, lá se ia acumulando por perto do palco.
O avançar da tarde fez naturalmente aumentar a afluência de público ao recinto, tendo sido já perante uma plateia bem composta que os Jazzanova subiram a palco. O coletivo de Berlim contou com Paul Randolph na voz e no baixo, sendo partilhado entre todos um sentido de protagonismo comunitário. Percussão, saxofone, guitarra, flauta transversal, trompete, enfim, uma gama de instrumentos e sonoridades ao serviço de canções de espírito funk, com ritmo suficiente para cativar a plateia durante largos momentos.
Todd Terje, um dos nomes mais antecipados de todo o festival graças ao fabuloso It’s Album Time! (2014), veio a Lisboa mostrar que para além de produtor, é alguém muito ciente do progresso da música house e da forma como as suas origens se cruzam com o disco. Do álbum de 2014 ouvimos reconstruções e versões repensadas de Inspector Norse e Delorean Dynamite, que integraram aqui um conjunto de faixas que dão continuidade à vertente mais techno de It’s Album Time!, em detrimento do nu-disco a que Todd Terje é muitas vezes associado. Ainda assim, esta foi uma das atuações mais aplaudidas do LISB_ON, por parte de um público que por esta altura já ansiava por Michael Mayer. O representante da Kompakt apresentou um DJ set intenso que terá ido ao encontro das expectativas de muitos dos presentes: um enquadramento techno persistente a partir do qual foi possível chegar a citações de Jamie XX ou Terranova.
Apesar das flagrantes complicações de organização do primeiro dia, dir-se-ia que o objetivo do LISB_ON foi cumprido, com um evento que a partir de uma proposta quase lounge, consegue reunir em Lisboa alguns dos nomes mais fulgurantes da eletrónica atual.

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