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O reencontro dos Beach House com a nostalgia do seu próprio som

Texto: ANDRÉ LOPES

Ao quinto álbum de originais, a dupla de Baltimore persiste num rumo de autodescoberta que toma agora a forma de um conjunto de canções onde existe pouco que não seja já familiar.

Acarinhados desde o início do seu trajeto artístico em 2006, os Beach House conseguiram em menos de uma década o feito raro de, com poucos discos, assimilar um tipo de sonoridade e construção de canções que são automaticamente reconhecidas como “típicas” da banda. Se por um lado esse é um fator que possibilita a identificação fácil de projetos que tentam a imitação ou a mímica desta forma de trabalhar a dream pop, por outro, pode impor-se como um obstáculo difícil de contornar para Victoria Legrand e Alex Scally. Depression Cherry é uma tentativa de o fazer.

Com um modo de pensar as canções que aproxima sugestões associadas ao shoegaze às estruturas que habitualmente fazem parte de uma musicalidade pop algo etérea, a verdade é que o som dos Beach House passou por um processo de maturação que se torna evidente com a audição da discografia da banda por ordem cronológica. Desde o artesanal e doméstico álbum homónimo, passando pelo reduzir de reverberação que aconteceu com Teen Dream (2010) e chegando a incluir percussão de bateria ao invés da anterior caixa de ritmos em Bloom (2012), a evolução do som da banda seguiu um percurso que, de forma cíclica, retomava estruturas e formas de escrita já anteriormente exploradas.

Ritmos desacelerados, camadas de sintetizadores que tanto apresentam texturas como apontamentos melódicos incisivos, guitarras em jeito de adorno e, claro, a melancolia da voz de Victoria. São esses os elementos que álbum após álbum, são reordenados para que o resultado final espelhe as ambições e o sentido estético dos Beach House. Depression Cherry é, segundo essa ótica, a abordagem mais recente da banda àquilo que um disco pode ser. A bateria voltou a ser posta de parte, pelo que este é um álbum que permite o regresso de uma ambiência de baixa-fidelidade, mas sem esquecer a forma como a guitarra aprendeu a integrar-se nas canções. Levitation é disso prova, e PPP, que convoca momentos de spoken-word para o universo da banda, mostra que talvez ainda exista algo por onde explorar.

Sparks, a primeira canção apresentada de Depression Cherry veio a tornar-se uma das faixas mais salientes de todo o repertório dos Beach House exatamente pela forma brusca como os “seus” elementos típicos se apresentam aqui: a guitarra toma as rédeas da canção com um riff que poderia ter sido pensado por Kevin Shields, enquanto todo o aparato vocal de Victoria é ouvido numa posição rebaixada da mistura de som. O resultado é eventualmente único, mas em última análise, muito pouco representativo do propósito dos Beach House enquanto projeto direcionado a ouvintes que, tal como estes dois músicos, prezam um certo sentido sonoro de conforto e intimismo.

Ao chegar ao final do alinhamento de Depression Cherry torna-se claro: a busca de inovação e de reformulações exageradas de método não são uma prioridade nem uma meta no caso dos Beach House. Estes são artistas que prezam um trabalho continuado com o objetivo de conceber formas de facilitar a partilha de emoção entre intérprete e ouvinte. Esse é um trejeito que pode ser encontrado, por exemplo, no percurso dos Cocteau Twins numa fase posterior a Head over Heels (1983). Ambas são bandas que trabalharam o som da guitarra e as camadas de som dos sintetizadores de formas muito próprias e que – novamente – têm uma sonoridade típica, que lhes será para sempre associada. Só por si, esse é um aspeto de mérito inegável, mas importa pensar no efeito que esse tipo de conquista pode ter numa sequência de registos em longa-duração.

Beach House
“Depression Cherry”
Bella Union
4 / 5

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