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Sem quem dê à agulha não há vestidos para o desfile

Texto: NUNO GALOPIM

O documentário “Dior e Eu” acompanha a criação da primeira coleção de alta costura de Raf Simons para a Dior. Apesar de mostrar aquele como um esforço coletivo, o filme não é mais do que um competente making of.

E se a estrela da companhia for, afinal, toda a companhia e não apenas o rosto que surge no fim a acenar perante as câmaras fotográficas? Essa é a principal premissa que faz, à partida, de Dior e Eu uma proposta diferente entre as que, nos últimos anos, nos deram a ver olhares (documentais ou de ficção) sobre figuras como Karl Lagerfeld ou Yves Saint Laurent.

Realizado por Frédéric Tcheng, o filme poderia ser um documentário sobre a chegada de Raf Simons à direção criativa da casa Dior. Mas em vez de centrar os focos no designer – que fica claro que, de todas as câmaras, parece apenas estar à vontade perante a de Tcheng – Dior e Eu divide, como o próprio Raf Simmons faz questão de sublinhar, os louros e atenções entre todos aqueles que ajudaram, em oito semanas, a fazer a sua primeira coleção de alta costura. Pena que, no fim, e apesar de uma tentativa de diálogo entre a figura tutelar de Christian Dior (convocada por fotos de época e excertos de uma autobiografia) e o presente, o filme não saiba ser mais do que um escorreito e bem oleado making of da coleção.

Estamos em Paris, na sede da Dior e um novo designer vai ser apresentado à equipa. É belga, vem do pronto-a-vestir e quase não fala francês… Mais adiante ficará claro que não gosta de stunts mediáticos. Pelo caminho inspira-se em coleções clássicas da casa Dior nos anos 50 e num gosto (seu) pela pintura contemporânea para pensar a coleção. A seu lado tem uma legião de exímios profissionais da agulha e do dedal, protagonistas em bem humoradas sequências nas salas de trabalho que entre comentários, gracejos e observações pessoais dão conta de como a máquina está realmente a avançar.

O filme não procura contudo ir além destes espaços nem destas dimensões, não parecendo interessando em saber quem é Raf quando, de calções, sai para a rua. Ou as costureiras e costureiros quando não estão com a bata regulamentar. É aí que a falta de curiosidade de Tcheng veta ao filme ser mais do que um competente documentário televisivo. Olhamos de perto como a coleção nasceu (não faltado o sumptuoso desfile e a chuva de famosos no fim). Mas saímos da sala de cinema sem saber quem são aquelas pessoas. Mesmo tendo o filme querido mostrar que, todas elas, e não apenas o designer, são quem fez nascer aqueles vestidos.

“Dior e eu”, de Frédéric Tcheng, está em exibição nas salas portuguesas. O filme acaba de ter também edição em simultâneo em DVD, pela Alambique.

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